Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!

13.2.12

Crise filosófica

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Não paro de matutar sobre meu último texto... Essa nova experiência de viver uma crise deflagrada fora de mim, simplesmente! Eu, me vendo de dentro pra fora, sou uma. Eu, me vendo de fora pra dentro, sou outra. E esta última, tem sido estranha e fascinante experiência! Em seu conto “O Espelho”, Machado de Assis já lançara a idéia de que “cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro pra fora, outra que olha de fora pra dentro”. De todo modo, nada mais é o que parece.

Não à toa, caiu em minhas mãos um livro que trata bem disso, fazendo-me perceber que a crise externa deflagrou uma crise filosófica profunda. Nem sabia mas, pensando nas origens da filosofia, estou entre Sócrates e Demócrito. Sócrates representa uma filosofia moral, essencialmente ética, com valores e juízos acerca do que é melhor. E claro, com perspectiva interna, que entende o mundo a partir do homem, buscando transformá-lo. É o ponto de vista da alma que olha de dentro pra fora. Sempre me soube assim, socrática, até que...

A tal objetividade, ou melhor, o exercício dela, que antes me parecia uma forma lenta de assassinar a magia da vida, agora passa a me fascinar. “Demócrito visa submeter o entendimento humano à realidade objetiva e ao curso das coisas como elas de fato são, independente do que possam ser os nossos desejos e preferências”. É uma perspectiva externa que trata de entender o homem a partir do mundo. O ponto de vista da alma que se observa, analisa e esmiúça de um ponto de vista radicalmente neutro e externo.

“Demócrito (...) perseguiu a ambição de considerar o homem não como objeto de elogio ou reprovação, mas como parte integral da natureza e, portanto, submetido ás mesmas leis, regularidades e princípios gerais de explicação”. Hoje me sinto exatamente assim, sem menor ou maior importância do que qualquer outra manifestação da natureza. E, em muitos momentos, sinto que minha leitura subjetiva da realidade atrapalha. Nunca pensei que um dia eu pensaria assim...

É tudo muito paradoxal porque ainda assim me vejo junguiana. Para Jung certamente a crise externa foi constelada por mim e traz um sentido, um significado intrínseco que aponta um caminho de crescimento. E a súbita visão objetiva dos fatos e da vida, talvez fruto da metanóia da vida (crise que se deflagra quando chegamos na "metade" da vida, lá pros 40 anos!), me possibilitando viver a polaridade objetivo/subjetivo, permitindo-lhe a expressão rumo à homeostase. Se algo em mim quer agora ser objetivo, que seja. E se, paralelamente, o lado subjetivo segue ativo, contudo em transformação, também permito. Meus lados Dodô e Sosô tentando dançar juntos, "trupicando" mas tentando!

Lembro de uma vez quando meu filho, com 5 anos, me contava que havia sonhado com um golfinho, mas que, em verdade, ele não sabia dizer ao certo se era ele quem tinha sonhado com o golfinho, ou se fora o golfinho quem sonhara com ele! Nunca mais esqueci isso. Penso: Há uma intersecção entre a alma que vê de dentro pra fora e a alma que vê de fora pra dentro? Seria o corpo, o mundo, nada?

Já cometi o mesmo erro três vezes nesse texto, ao digitar alma e sair lama... Associando livremente vem barro, origem, começo, modelagem, modelo, primeiro...Um “erro” do cérebro (miolos, seus nervos e conexões) ou do espírito (a mente que pensa, sente, associa, compara...?) Para a neurociência quem manda é o cérebro. Pra mim sempre foi o espírito. Até agora, quando sinto que é a dança dois dois quem nos move. 

Não me sinto de modo algum obrigada a escolher uma ou outra posição, me sinto entre, bem na intersecção, onde há espaço suficiente pro jogo de Dodô e Sosô. Eles se divertem porque  sabem que nesse jogo não existe  ganhador ou perdedor, vale jogar!

Me lembrei da época em que amei dois homens ao mesmo tempo... Minha ética não me permitiu ficar com os dois, e fiz minha escolha, sem nem ter perguntado a eles o que achavam da situação... Me vi como Sócrates, condenado à morte, sem nem se defender ou mesmo fugir da prisão quando foi possível. Aceitou a morte, afinal havia sido julgado por seu povo, e para ele, a justiça estava acima de tudo. Minha justiça da época não permitiu que eu ficasse com dois amores. Poliamor? Nem naquela época nem hoje. Como falar de livre arbítrio com um código ético assim tão rígido?  

“De que modo surgiu e como foi gradualmente se delineando, na trajetória evolutiva dos seres vivos e do homo sapiens em particular, a fronteira entre os processos fechados à nossa escolha e vontade conscientes, de um lado, e aqueles que nos parecem abertos e receptivos aos decretos e alvarás do eu-soberano, de outro?!” 
O melhor mesmo é parar, até de escrever, e permitir que “essa coisa toda” que eu vivo hoje, cozinhe dentro de mim. E nem sequer abrir o forno pra espiar! Ou ainda, pelo olhar da antroposofia, permitir que os conteúdos durmam, deixando-os quietos por um tempo, hibernando. Com que sonharão esses tantos pensamentos? Oxalá seja eu sonhada e transformada por eles!

"Viver é afinar um instrumento 
de dentro para fora, 
de fora para dentro" 
(Walter Franco) 

Recomendo a leitura de "A Ilusão da Alma – biografia de uma idéia fixa", de Eduardo Giannetti.
Namastê

Anasha, a filósofa