Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!

7.2.17

Teatroterapia?

|

Sinceramente não sei se o nome é adequado àquilo que venho tateando nesse momento. Teatro em contexto terapêutico? É tão mais do que isso... sendo tão simplesmente isso mesmo. Me perguntam do que se trata e eu logo digo: Vem aqui viver, eu não sei explicar. Não quero talvez. O que se explica, morre. E estamos em movimento, todos. A cada encontro, uma nova camada, uma descoberta, um novo mundo. Há tanto por "curiar", há tanto por aprender. Estou cada vez mais des-coberta, exposta, visível na luz e na sombra, na bravura e na covardia, e na completude de tudo isso junto que me faz humana. Cada vez mais, se é que é possível. Possível é pouco pra nós, o impossível é nosso habitat. "Quando acreditamos em algo que ainda não existe, nós o criamos. O inexistente é o que não desejamos o suficiente", disse Kafka. E se vale pro inexistente, deve valer pro impossível também.

Fazemos teatro desde sempre, na barriga da mãe, fora dela, no toque da boca no seio da mãe, na escola, no trânsito, no amor, ao narrarmos uma estória, ao re-contarmos nosso própria história, sempre, infinitamente, de modos cada vez mais amplos... Reinventando a cada passo, a cada gesto, a cada escolha, o humano em nós. Experimentando em cena aquilo que a alma já sabia mas talvez o corpo ainda não... Onde mora a alma então? Dentro de nada, certamente. Solta, livre, espalhada em todos nós e no todo que nos acolhe. Anima mundi que nos cuida e nos acalenta sem nos darmos conta.

Duas pessoas e já basta para haver teatro. É preciso mais do que um. Dois, que fazem desse encontro o três, o olhar de fora que encontra o de dentro e reinventa, reconta, reflete, expõe, e torna seu o que vê e vive. O compartilhar é talvez a arma mais poderosa contra o vazio, contra a falta de sentido, porque guarda o olhar do outro, o Outro, este que nos fita, nos confronta, nos ama, nos afronta, nos encurrala, nos vê de fora, nos reflete e nos cresce. "O inferno é o outro" mas o céu também é. Polaridades do humano, ingênuas, até. Ingênuos nós todos, graçasaosdeuses.

Resumo possível do encontro de Teatroterapia de hoje: Mini-mundos expressos, expostos mostrando-nos sua enorme vastidão e grandiosidade. Meus, sempre nossos mundos, caminhos, trilhas tão pessoais e tão profundamente humanas. "Meu outro nome é gratidão", ouvi hoje e foi uma flechada de amor na alma. Gente é mesmo um encanto. As de dentro, as de fora, gentes. Como não amar o outro que é tão a gente mesmo em outro corpo? Somos todos um, definitivamente. E imortais, finalmente. Anasha significa imortal. Quase entendi, mas não quero, porque entender também mata. Quero é a coisa antes do nome, antes do entendimento, a coisa no seu "fazimento".

Namastê
Anasha

Bsbs, 06/02/2017



1.    A Vila dos Mistérios – um olhar sobre a prostituta sagrada”

Em 2007, estudando a remota prática da prostituição sagrada, a partir do livro “A Prostituta Sagrada”, da analista junguiana Nancy Qualls-Corbett, dentro do projeto “A Prostituta Sagrada”, reuniu-se, num processo que, num processo colaborativo de criação,  profissionais de várias áreas. Houverae grupos de estudos, oficina para mulheres e o ciclo de debates “Corpo, Sexualidade e o Sagrado” com o intuito principal de coletar material para a criação de espetáculo-solo teatral sobre o tema. O projeto teve apoio do FAC - Fundo de Arte e Cultura do DF. À época, para compreender melhor todo o processo de desenvolvimento da mulher, fui levada à investigar minhas próprias fases de meninisse e adolescência, mergulhei em minha história pessoal e corporal, de onde nasceu o monólogo “A Vila dos Mistérios – um olhar sobre a prostituta sagrada”.

“A Vila dos Mistérios” era um local ao norte de Pompéia, na Roma Antiga onde eram representados os Mistérios Dionisíacos, e onde, havia a prática da prostituição sagrada. Nele, a sacerdotisa do templo da Deusa se entrega com devoção ao amor e ao Estranho - homem comum que penetra o templo em busca de receber as dádivas da Deusa em sua vida. Seus rosto e personalidade não importam. No templo, são homem e mulher, revivendo nesse encontro o hieros gamos, o casamento sagrado entre o masculino e o feminino. 

O Estranho, metáfora do masculino que nos habita e o encontro com ele, bem como com a sua amante, a prostituta sagrada, talvez nos ajude a reunir masculino e feminino, o carnal e o espiritual, entre outras polaridades que insistimos em rivalizar. O termo “prostituta sagrada” representa um paradoxo para a nossa mente ocidental que dissocia o sexual do divino, fazendo escapar seu significado mais profundo, relacionado à natureza do feminino. Segundo a autora, “(...) natureza feminina – do latim natura, significa nascimento ou universo. ‘Natureza’ implica naquilo que é inato, real, não artificial”.

“Dentro da evolução da consciência humana, não estamos no mesmo ponto em que estavam as prostitutas sagradas de outrora. Séculos de divisão entre espírito e matéria nos deixaram distantes tanto de compreender quanto de experimentar a matéria como algo sagrado. Diariamente a terra é violada. Diariamente a sabedoria do corpo humano é devastada pela mente. Enquanto permanecemos inconscientes da divindade inerente à matéria, a sexualidade è manipulada para preencher desejos do ego; a prostituta sagrada não está presente, nem a deusa é invocada...” pág 10

Após a estréia do espetáculo, em dezembro de 2007, havíamos remexido em tantas imagens e emoções, que senti a profunda necessidade de “deixar aqueles conteúdos dormirem” para retomá-los num outro momento. Em 2010, e após ter conduzido oficinas com mulheres jovens, a imagem da prostituta sagrada foi novamente despertada.


2. A Adolescência da mulher e auto-imagem

Em 2009, a ONG Instituto Arcana, onde atuo, passou a incluir como público beneficiário do Programa Roda de Mulheres, além de mulheres acima de 21 anos, também meninas adolescentes do ensino médio de escolas públicas do DF. E, mesmo inicialmente inconsciente, fui novamente penetrando "os mistérios da vila", e percebendo como o  arquétipo da Prostituta Sagrada pode auxiliar no desabrochar feminino da mulher jovem, permeado de obstáculos especialmente relacionados à auto-imagem e a aceitação corporal.  

Antes de iniciar a oficina Roda de Mulheres Jovens, realizou-se grupo de estudos no intuito de adequar os conteúdos para esta faixa etária, e também para familiarizar as focalizadoras do universo jovem das periferias do DF. Averiguou-se alto de índice de violência, de gravidez, de não-uso de preservativos, além de falta de limites, promiscuidade, desconhecimento sobre sexualidade até a falta de perspectivas e estímulo para progredir.

Entretanto, nos três primeiros grupos que conduzimos, o tema que mais me chamou a atenção foi a imagem corporal distorcida que as adolescentes tinham de si mesmas. É claro que uma parte desse problema é natural nessa fase da vida onde as mudanças corporais e psicológicas são intensas havendo inclusive a vivência do luto da infância, bem como do corpo outrora infantil e agora estranho.   

No entanto, observamos que hoje, essa crise têm sido deflagrada bem mais cedo (ás vezes aos 9 anos) e com uma intensidade maior e mais perigosa do que foi a nossa própria adolescência, há 20 ou 30 anos atrás. O bombardeio estético da mídia parece ser o maior responsável por esse fenômeno, somado, talvez, a ausência dos pais, levando ao agravamento de problemas com auto-imagem, que acabam sendo detectados tardiamente.

Num dos encontros da oficina, trabalha-se a auto-imagem por meio da modelagem em argila. As jovens modelam seus corpos como o sentem, de olhos fechados. Todas as quinze participantes da oficina que ministrei demonstraram problemas com auto-imagem e distúrbios de alimentação. O que chama mais a atenção é que nenhuma das participantes poderia ser considerada gorda ou obesa, estando todas dentro de um padrão estético considerado “adequado”.

Abaixo alguns depoimentos e relatos:

  • “Fechei os olhos e tentei fazer uma forma humana, depois desfiz, e fiz novamente um corpo e desfiz. Tive que abrir os olhos. O olho não deixou e quis corrigir. (...)  Até os 9, 10 anos eu era muito gordinha, comia sem parar, até vomitar. Quando entrei na adolescência comecei a parar de comer para emagrecer. Aí emagreci e fiquei anêmica. Nessa época, eu ficava muito sozinha em casa e ninguém percebia, eu passava mal e ninguém sabia. Foi uma professora que me ajudou, falando sobre anorexia e bulimia e me mostrando imagens assustadoras”. Vera (17 anos, nome fictício).

  • “Me sinto uma bola” Babi (15 anos, nome fictício). Babi fez uma bola, com uns furos feitos com dedo representando os olhos, nariz e boca, na primeira vez fez a boca sorrindo, depois desmanchou e fez uma boca neutra. Depois relatou que era gorda e perdeu 15 kg no ultimo ano, com muita força de vontade, porque na escola todos falavam mal, inventavam apelidos e isso começou a afetá-la. Resolveu emagrecer. A família é toda obesa e foi uma conquista perder peso.

  • Joana (15 anos, nome fictício) também fez uma bola. Disse que pensou no próprio corpo e que se sente completamente gorda. De todo o grupo, Joana é aquela que mais poderia ser aproximada á imagem aceita hoje, sendo muito bonita, magra, cabelos lisos. No entanto ela não se reconhece assim. “Eu tenho um tio que exige beleza. Quando a mulher dele engordou, ele se separou dela, e depois voltou com ela quando ela emagreceu. (...) Eu só como só de vez em quando. Ano passado eu passei muito mal mas ninguém lá em casa percebeu. Quando eu sinto fome bebo água. E acho que tem que ser assim porque eu não gosto de malhar, senão vou engordar”.

  • Ana (17 anos, nome fictício) permaneceu o tempo todo de olhos fechados e pareceu ter entrado profundamente no processo. Aparentemente imersa, fez rapidamente uma forma humana com movimento. Tentou fazê-la em pé, mas a forma não se sustentava. Então a sentou. Relatou que fez a forma como se vê que há uns 2 anos atrás comia muito, de tudo. A mãe e os tios a controlavam muito e começou a vomitar. Ficou deprimida, não comia direito. Passou mal algumas vezes. Ficou muito magra e parou com isso sozinha.

O trabalho com argila funcionou bem e as levou para a discussão em relação a auto-imagem. As jovens deste grupo tinham conhecimento sobre distúrbios alimentares, demonstrando que o problema está relacionado a auto-estima, amor próprio e valorização pessoal, e, em certa medida, alienação corporal.

Outra questão não menos importante é a nutrição, educação e qualidade alimentar da adolescência de hoje. E mais uma vez não só a oferta de alimentação do mercado pode ser a única responsabilizada, mas também os pais que deixam seus filhos sozinhos em casa, decidindo por si, o que comer. Neste grupo, por não praticarem exercícios físicos (e não querem praticar), acreditam que devem comer pouco ou quase nada e acabam pulando as principais refeições para não engordar.

Num outro encontro, trabalhou-se sexualidade por meio da confecção de uma boneca, onde muitas questões vieram à tona e outros tantos relatos. A descoberta mais reveladora foi a certeza de que o conceito de sexualidade deve ser trabalhado não apenas com enfoque no ato sexual em si e na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez, mas em toda a sua abrangência. Isso significa incluir o desenvolvimento de nossa afetividade e o modo como lidamos com ela nas várias situações que a vida nos oferece.  Sexualidade é um conceito amplo, que engloba atos, situações, práticas e pessoas que nos geram prazer. Neste sentido, é condição conhecer o próprio corpo, seus gostos, desgostos, alegrias e desprazeres. E estas é uma tarefa individual. Muitas das jovens confessaram que delegam ao parceiro essa tarefa, distanciando-as ainda mais de seus corpos.

Acredito que a sexualidade está presente em qualquer situação onde o princípio de Eros esteja atuando, no sentido originalmente elaborado por Jung. Eros descreve a lei interna de energia psíquica no que se refere ao estabelecimento de relações, ligações e mediações. A sexualidade envolve, portanto todas as experiências que vivenciamos no exercício do amor que vivenciamos, seja por nós mesmas ou por outras pessoas, projetos, ideias... E urge que tratemos de ampliar esse conceito desde cedo junto às nossas crianças, incentivando assim uma vivência mais integradora do processo amorosa da espécie humana.

Num dos encontros, passamos um “prazer de casa” que era tomar um banho gostoso e demorado, num momento onde não serão incomodadas, passar creme no corpo, fazer carinho e dar-se um tempo para realmente conhecer as partes de seu próprio corpo. Ana (17 anos, nome fictício), após o “exercício”, teve um insight: “Percebi que ninguém cuida de mim melhor do que eu!”. Que maravilhosa, reveladora e essencial descoberta aos 17 anos. Toda mulher merece e precisa descobrir essa grande verdade.


 3. A Sacerdotisa e o Estranho

A imagem arquetípica da sacerdotisa (prostituta sagrada) me vem à mente como meio de auxiliar a mulher, sobretudo as adolescentes, a compreender o processo de honrar seu corpo e seu espírito tendo a sua sexualidade como algo sagrado. Esta imagem nos aproximaria de uma relação mais adequada com nosso próprio corpo já que:

  “A mulher que tem consciência da deusa cuida de seu corpo com alimentação e exercícios adequados, e aprecia os rituais como banhar-se, vestir-se e aplicar cosméticos. Não se trata de propósito superficial de apelo pessoal, relacionado à gratificação do ego, mas sim de respeito por sua natureza feminina. Sua beleza deriva de ligação vital com o Si-mesmo. Tal mulher é virginal. Isso não tem nada a ver com estado físico, mas com atitude interior. Ela não é dependente das reações dos outros para definir seu próprio ser. A mulher virginal não é apenas o reverso do homem, seja ele pai, amante ou esposo. Ela mantém-se em pé de igualdade em relação a seus direitos. Não é governada por idéia abstrata do que ela “deveria” ser ou “do que as pessoas vão pensar” pág 81


Esta imagem agrega em si os lados sagrado e profanos da mulher, possibilitando uma ampliação de nosso olhar ocidental, extremamente limitado e excludente:

 “A Prostituta Sagrada trata de um aspecto da natureza da mulher: a faceta instintiva, erótica e dinâmica da natureza feminina, especificamente, os aspectos positivos inerentes a imagem arquetípica da prostituta. Essa imagem possui dois lados: o sagrado e o profano. O lado escuro conhecido de imediato; ele manifesta as maneiras mesquinhas em que a sexualidade feminina é impropriamente usada. Os aspectos positivos, são menos conhecidos pois os elementos sagrados foram separados” pág 22

E ainda, dentro do mito da prostituição sagrada, a figura arquetípica do Estranho, pode clarear a relação da mulher com seu próprio aspecto masculino, a qual todas nós temos que ter consciência para ter relacionamentos saudáveis. Na psicologia da mulher, o estranho é um aspecto daquilo que Jung chamou de animus, o lado contrasexual da psique feminina – um homem interno, por assim dizer.

“A Palavra animus em latim significa espírito. O animus positivo inspira a mulher, conduzindo-a para fora, para o mundo dos objetos, da criatividade das idéias. Fornece senso de direção, discernimento e continuidade ordenada a todos os esforços” pág 98

“O animus aparece em muitas formas além da do estranho, como a mulher velha e sábia, como um Adônis juvenil, ou até como um bebê menino, e cada manifestação possui significado psicológico particular. Em sua forma negativa, ao animus pode aparecer, por exemplo, como estuprador ou ladrão que leva os pertences mais estimados da mulher, símbolos de sua natureza feminina”. Pág 99

“O conhecimento e a diferenciação das várias formas externas do animus envolve uma submissão a algo que é parente do rito de iniciação onde a mulher é capturada e penetrada pelo espírito masculino. Não se trata de processo psicológico, pois envolve também o corpo. Pág 99

Na melhor das hipóteses, o animus funciona como ponte entre o ego da mulher e suas próprias fontes criativas. Na pior, ele se manifesta através de opiniões e pressupostos que destroem seus relacionamentos, quando o denominamos de animus negativo: “Alguma coisa em mim quer matar-me” pág 164

“Mulheres sexualmente promíscuas, a quem falta laço emocional ou até que abrigam ressentimento profundo em relação ao parceiro, encontram-se desvinculadas de sua natureza feminina essencial. Essa é precisamente a situação que alimenta o animus negativo. O animus é tão negativo na vida interior dessa mulher quanto o é o modo como ela vê o homem em sua externa. Ele mostra-lhe face cruel, podando toda tentativa de avanço por parte dela. Quando mais inexoravelmente ela acredita serem os homens seus inimigos, menos ela é capaz de compreender que o inimigo está dentro dela mesma” pág 100

“Atitudes que rebaixam o feminino devem ser confrontadas. Trata-se de um processo de diferenciar o que verdadeiramente pertence a “mim”, a partir do que alguma coisa diabólica dentro de mim está tentando fazer-me acreditar sobre mim mesma. Aí, então, um senso da deusa e de sua devota, a prostituta sagrada, pode emergir, permitindo e estimulando a mulher a amar” pág 174

Não tenho respostas a respeito de como trabalhar a sexualidade junto à mulher jovem hoje. O que sinto é que a imagem da Prostituta Sagrada me guia me levando a compartilhar seus ensinamentos sem que seu nome ou seu mito seja citado, pois sei que, nem nós mulheres adultas ocidentais temos ainda condições e abertura para compreender a profundidade deste mito, que poderia gerar confusão ao ser apresentado para jovens tão novas. Mas sigo seus rastros e certamente ela me guiará.

Namastê


Anasha 


Quando eu tinha 4 anos...
meu umbigo fugiu de mim!
E me levou pra passear,
Me apresentou outros umbigos,
E me contou:
Todos os umbigos,
vez por outra,
fogem de seus donos.
Mas nem todos topam
o passeio.


Ler um bom livro é viajar longe. Voares altíssimos. Pra dentro, pros sertões nossos. Vivência tanto profunda quanto solitária. Um bom livro transforma. E transformação é troço solitário. E um bom livro é também muito perigoso assim como "Viver é muito perigoso", diz Guimarães-Riobaldo, em Grande Sertão Veredas. Viver à dois, perigo dobrado. Leitura à dois, vôo às escuras.

Minh'alma é tímida. Levei anos pra perceber e respeitar isso em mim. Tem coisa que só sai íntegra, vinda das profundezas mesmo, quando tô só, completamente só. Embora tenha tentado com afinco fazer isso em cena, acho que consegui poucas vezes. Cantar profundamente, com emoção, por exemplo, é solitário pra mim. O Outro me esvazia da inteireza que só a solitude me dá. E da voz que só é aquela na solitude. Ler livro é emoção solitária também. Achava. Sobretudo ler em voz alta. Ler mesmo, de verdade, deixando-me levar pelas palavras e movimentos do texto, sendo arrastada pelas emoções contidas ali, e, em mim... É viajar pra muito longe. É escancarar-se demais.

Tem uma eu que só eu vi, verei e vejo, que só aparece comigo, pra mim. Uma eu só minha. E isso é parte do mistério de tudo.

Mas... Desachei. Que ler livro é coisa solitária. Ler um bom livro à dois, mantendo a profundidade da solidão é puro mistério. Fundamenta a relação numa outra dimensão. Chora-se. Ri-se. Sofre-se, dos profundos. Leva tempo e pede entrega e confiança. Muda tudo. Almas nuas frente a frente. 

Ler na presença dele. Ler com ele. Ler para ele. Ao vivo ou por telefone, ritual novo, abençoado, sagrado. Ler esquecida da presença dele, e, de repente, lembrada, vergonha funda. Que ameniza mas nunca passa. Parte do mistério de tudo.

Ao início. Lemos "Os trabalhadores do mar" e seu autor preferido. Me apaixonei perdidamente por Gilliard, instinto e força em sua pureza brutal. Me vi, o vi, seu autor preferido conta dele pra mim. Me aproxima do inexplicável, terrível, maravilhoso e único desse que amo. O mais sólido em ímpeto, constância, altivez, entrega e amor. Depois, "Os Miseráveis", o século 19 e suas estruturas, o miudinho do humano visto por um olhar social, antropológico, poético. 

E então, "Grande sertão: veredas", lido e relido por ele inúmeras vezes. Eu, em primeira vez, me vendo Riobaldo, Diadorim, sendo sertão... Vou me identificando, me vendo no outro ali, e de repente o jogo vira e Riobaldo me escapa. E nasce "o meu Riobaldo", "a minha Diadorim", criados da mistura das projeções minhas com as invencionices de Guimarães. Reflito sobre ética, constância, caráter, amor, entrega, coragem, medo, fidelidade, liberdade... E vejo ali o mais integralmente amado dos homens que tive. Ele me motiva, me orgulha, me ensina, me cresce e me expande de mim mesma. É bem isso o amor, na essência. Não o sabia, no antes. Agora sei, Ser Tão a gente, e ainda assim eu mesma. 

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. 
Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar 
as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E
 o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. 
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar 
essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não 
simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do 
que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

Amyr Klink

Anasha Gelli

15.3.16

O Senhor Bolinha

|

Depois de amassar, pisotear e picotar os papéis, botando pra fora um tanto de emoções, olhamos pra aquela profusão de "restos". E a partir dali, o exercício era criar um ser.

O meu, ainda no meio de sua criação, já me dizia que era um ser masculino, batizado Senhor Bolinha! Um cara azul, amoroso, afetuoso e muito trabalhador. Seu cabelo longo e esvoaçado, também azul, mostra certa rebeldia, que ele mantém preso, pra não atrapalhar seu trabalho de terras e afagos.

Ele é definitivamente um imã para abraços calorosos. Não há quem olhe seu corpo e não queira se lançar na sua gostosura, tendo sempre acolhida garantida no seu corpinho quente. Senhor Bolinha adora abraços, e quem se joga no seu corpo fofo, eterno puff do bem querer, também se sente profundamente abraçado, embora o Senhor Bolinha não tenha braços, mãos nem pernas e pés. Apesar disso, ele toca e se movimenta muito. Ele se vira, gira, rodopia, amassa, acolhe.

E como todo ser vivo, também tem um papel especial nesse planeta-casa: O Sr. Bolinha, com seu corpo cilíndrico, rola faceiro por sobre a terra, afofando-a e deixando-a preparada para o plantio. Terra sulcada pelo Sr. Bolinha é colheita garantida.

Mas o mais intrigante sobre este serzinho é o fato de ele ter nascido de mim! Gerado a partir do encontro da necessidade de expressão somado à oportunidade, esta, em geral, sempre perto. O essencial, muitas vezes, invisível aos olhos. Tudo o que criamos é parte nossa e diz muito sobre nós. E o Senhor Bolinha me aparece agora trazendo que mensagens? Fiquei matutando, e acabei compartilhando a estória do Sr. Bolinha com meu companheiro, que mais faceiro impossível, me disse: "Mas esse sou eu!" E não é que ele tem razão? O Sr. Bolinha tem muito dele. E parte disso já é meu também, ou sempre foi, fenômeno que só o amor pode explicar. Quando os talentos do outro, de repente fazem casa na gente! E nos damos conta de que sempre estiveram ali, à espera de uma brechinha para se mostrarem pra nós. Talvez a gente já ame no outro justamente o que temos na gente...

"O amor é quando o outro nos mostra o nosso melhor". 

Namastê
Anasha

Ando pensando muito sobre o peso das pessoas. Gente curvada que carrega peso demais, grande parte talvez nem seja mesmo delas ou gente muito leve, sempre de boa, sem responsabilidades reais, cujo peso certamente outra pessoa carrega. Porque é bem assim que funciona nas dinâmicas familiares. Não fica peso solto no chão. Esse tipo de peso mora nas gentes, se atrai por gentes, daí que alguém sempre o carregará, mesmo que não seja seu verdadeiro dono.

Tô chamando de peso aquilo tudo que constitui nossa história, os caminhos que percorremos, as gentes que conhecemos, as escolhas que fizemos, os sucessos, os aprendizados, as consequências de todos os nossos atos e omissões, os amores, os desafetos, enfim, tudo o que criamos na jornada até agora. No google pesquei que "O Peso de um corpo é a força com que a Terra o atrai, podendo ser variável, quando a gravidade variar, ou seja, quando não estamos nas proximidades da Terra". De modo que é, justamente esse peso construído, que nos aterra, nos faz pertencentes e participantes ativos do mundo. Se eu não crio peso/história, eu me alieno. Se alguém toma pra si responsabilidades e consequências que são minhas, me aleija. Se eu tomo pra mim o peso de outro, eu o aleijo e o impeço de crescer, de aprender, de ser. Mães e pais são experts nessa prática, que é cultural e traduz um amor negativo e imaturo.

Complexas são as dinâmicas entre pais e filhos. Pais irresponsáveis que jogam excessivo peso, bem prematuramente, sobre seus filhos, que se tornam mais pais do que os próprios. Filhos irresponsáveis cujos pais privaram do peso, deixando-os leves demais, soltos demais, sem âncora na realidade. Sem falar nos pesos inconscientes, de filhos que pegam pra si, por exemplo, sonhos irrealizados dos pais. E depois se frustram ao descobrir que pegaram carona no bonde alheio. E tem ainda os pesos familiares de gerações e gerações, de guerras, abusos, tudo isso nos ronda. E há os pesos conhecidos, de atitudes e pensamentos desatualizados, que insistimos em carregar. A vida pedindo mudança e a gente ali, insistindo na velharia. E a mochila vai ficando pesada, de um monte de coisa morta que a gente insiste que ainda vai nos servir um dia. Apego cria peso ruim. História cria peso, simplesmente. 

Hoje, sinto meu peso, reconheço a maior parte dele e gosto da minha história, mas ando de olho mesmo (procurando ainda) numa parte dele, que sinto profundamente, não é minha. Certamente é composto de pesos de várias gentes. Medos e impedimentos familiares antigos, históricos, karmáticos, ui. Sinto uma linha tênue que me atravessa e que vem de muito longe mesmo. E lembro de algumas práticas orientais que reverenciam os antepassados... E penso em fazer festa pra eles, cantar, ninar, perdoar, agradecer... Talvez o simples reconhecimento de que existiram e deixaram rastros, e colaboraram pra eu estar aqui e agora, baste pra dissipar o peso ruim... Ou não!

Namastê

Anasha