Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!

8.2.10

ANASHA

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A vida é sempre crescimento, mas foi a partir de 2001 que algo mais profundo começou a se dar, aqui, “no de dentro”. Foi quando assumi o compromisso de mergulhar criativamente no universo e na psicologia femininas, indo atrás do que me faltava. Desde então, iniciei uma jornada interior e exterior recheada de descobertas e desafios que têm me auxiliado a reencontrar meu habitat natural dentro desse corpo-fêmea e nesse planeta-mundo.

Houve muitos desabamentos, alguns tranqüilos, outros desastrosos como a decepção profunda com uma grande amiga - que senti como um “roubo”. Depois a separação de um casamento, que considerei “maldosa” e nada saudável. E de novo senti-me roubada, dessa vez de uma maturidade que achei que tivéssemos. Era uma “maldade” que achei, só acontecia na novela das 8. Jamais comigo. Saí de uma ingenuidade infantil. Me senti pequena, indefesa, frágil, abandonada, feia, pouca.

Fiquei “pouca” por um bom tempo, uma boneca de pano sem enchimento, desmilinguida. A sensação era a de uma “terra devastada” como quando Deméter, enfurecida, decidiu não mais prover alimento aos homens e nada mais nascia sobre a face da terra. E eu, que até então, espalhava otimismo e fé, perdi ambos e entrei numa crise existencial sem precedentes. Nesses momentos não há o que fazer e a vida corre por si só. A nós resta, humildemente, esperar. Pra alguém acelerada e ativa como eu, foi como o purgatório cristão, nem lá nem cá, entre, no vazio, no nada. E tive que aprender a aguardar já que os acontecimentos não dependiam mais de mim. Em verdade, nunca dependeram. E mais uma ilusão caia por terra.

Eros havia definitivamente me abandonado. E tive brigas intensas com Deus, numa tragédia pós-moderna que denominei “Deus.com” e que era mais ou menos assim: “Deus? Você tá aí? Ó Pai, porque me abandonaste? Me sentia aconchegada por tuas mãos, agora me sinto só. O Tempo me esmaga. Sou uma minhoca virando paçoca!!!! Acode Deus! Me coloca no teu colo de novo! Há um peso enorme sobre mim: atos, conseqüências, culpa, julgamentos ... É o teu olhar, Pai! Minhas costas doem, há um buraco nelas. É o vazio deixado pelas tuas mãos. Não me reconheço nessa que sofre a vida de forma tão brutal e tosca. A vida tá sem graça. Perdi minha graça. Maria cheia de graça... O Senhor é convosco?”

Assim que tamanha crise (já depressiva além de existencial) deu uma brecha, veio à tona a saudável mania de enxergar sempre o lado bom de tudo. E vi os acontecimentos “maldosos” como mensagem e alerta pra muitas de minhas fraquezas, inclusive a de não valorizar o que faço e o que sou, minando minha auto-estima, sempre mendigando a aprovação do outro. Uma grande amiga me disse: “Você precisava ser roubada para valorizar o que tem”.

Tempos depois, minha humanidade pôs-se a saltar aos olhos, gritando por espaço e descobri essa mesma "maldade" em mim. Saí do papel de vítima e finalmente, iniciei a jornada por inteiro. E pedi desculpas à Deus, que não tinha nada a ver com o pato. É uma maldade meio inconsciente, outras vezes consciente, mas difícil de frear. Uma força da qual somos tomados quando passamos por cima de tudo e de todos enfeitiçados por uma miragem, que cresce e nos leva como marionetes. Possuídos por uma certeza mórbida, seguimos jogando lixo nas ruas, desperdiçando água, magoando as pessoas... Ah, afinal, somos protegidos dos deuses e o futuro está longe. Essa coisa sempre me confunde quanto tento distinguir a intuição (sabedoria interna) do desejo (do ego). Hoje sei que a intuição não deixa dúvidas e aprendi que só consigo captá-la quando estou verdadeiramente em mim. De todo modo, perceber minha maldade tornou-me muito mais amorosa e tolerante. E agradeço profundamente aos mestres mensageiros dessa mensagem.

Quantas vezes meu observador interno sacou essa maldade, segundos antes dela ser destilada? Quantas vezes tentei segurar a boca pra não dizer coisas que não me diziam respeito? Ou comentários impróprios e venenosos, mas que davam destaque à minha perspicácia e inteligência? Quantas vezes agi cegamente, certa de que estava guiada por Deus (Self)? No fundo era um farsante se passando por ele, o Ego! Quantas mágoas causei em gentes ao mesmo tempo em que aumentava o balde de decepção para comigo mesma? Essa maldade age como uma ferida que cresce a cada novo comentário, e também como um jogo de bate e volta onde lanço a merda e ela me volta na cara.

Talvez isso que tento escarafunchar aqui não seja maldade, mas um vício social relacionado à uma fixação no outro e um desligamento de si mesmo. È um modo compulsivo de agir que nos faz puxar conversa quando não temos o que dizer ou para evitar o silêncio (porque tememos tanto o silêncio?). Nos faz agir e falar alimentando rivalidades, competições, para nos sentirmos superiores e muito inteligentes, enfim, pra alimentar o faminto ego - esse bichinho carente e inseguro que se alimenta de ilusões. A vida alheia torna-se doentiamente interessante. A mídia tem grande responsabilidade nisso, mas a maior culpada é mesmo nossa educação parcial, que enfatiza o desenvolvimento físico e mental, mas jamais trata das coisas da alma - a única capaz de realmente nos enraizar em nós mesmos e fazer brotar o sentimento de compaixão (“sentir junto”).

Outra percepção ou mito que faz sentido agora: durante bons anos vivi sob a égide de uma máscara bem específica que me revestia de poder e superioridade me afastando dos sentimentos (tantos os de dor quanto os de prazer), do corpo, das pessoas (e de mim, claro). E que certamente criou as brechas necessárias para tantos “roubos e maldades”. Passei a viver num cenário muito bonito, organizado, colorido, mas fake. E onde as outras pessoas não tinham realmente importância, e sim o mundo imaginado: um simulacro da minha vida real e verdadeira, que estava sendo vivída, sem mim, numa outra dimensão. De novo a cebola como metáfora das várias realidades e graus de consciência.

O fato é que essa máscara extremamente parcial (como toda máscara) era a porta principal do meu ego: escondendo minha humanidade medrosa e maldosa mas também corajosa e amorosa. Está máscara vem se desmanchando deixando-me vulnerável e à mercê de incertezas, perigos, armadilhas, dores, tristezas, mentiras e também alegrias, amores, sensações... como todo mundo. E me sinto finalmente encarnada!

Outra recente percepção é a minha dificuldade em escutar o outro. É doloroso dizer isso, mas é a dificuldade real de dar atenção e importância verdadeiras. Percebi como minha mente se dispersa facilmente e mesmo antes do fim da fala do outro, já faz uma leitura dinâmica de tudo, numa pressa e arrogância absurdas. Agradeço por mais essa percepção e busco educar-me, amorosamente. E acho que essa dificuldade tem a ver com a rapidez com que minha mente age. Rapidez, antes motivo de orgulho, mas que alimenta a tal “maldade” porque chega primeiro, bem na frente do amor.

Penso nas minhas dores musculares constantes. Sempre achei que corpo e mente estavam em dissonância em mim. E talvez seja verdade: o corpo tem um tempo totalmente diferente da supersônica mente racional. Lembro das vezes em que briguei com esse corpo “lerdo”, impondo-lhe exercícios de força, rapidez, beleza, ousadia... Ao mesmo tempo, foi justamente esse corpo “carente”, chamando atenção o tempo todo, que me ligou à matéria. Justamente quando estive “presa na carne”, encontrei Deus em mim. Só mesmo a filosofia oriental pra dar conta dessa aparente incoerência.

Este ano, a vida me conduziu até Tambaba, onde senti a brisa do mar, o calor do Sol, arrepiei-me, excitei-me, toquei, vivi, de corpo e alma. E meditei. A mente tirou férias por muitas horas e senti a brisa também dentro de mim. E ganhei presentes. E conheci mestres. Sempre cruzamos muitos deles. Lembro quando sentei à mesa do bar buscando coragem para manter-me nua na frente de tantas pessoas. Um cara pediu pra sentar, batemos um papo gostoso, e quando dei conta, havia esquecido que estava nua, e o melhor: esqueci de interpretar-me, de mostrar-me melhor. E me senti uma mulher interessante e capaz de conversar amigavelmente com um homem. (Juro que eu precisava muito disso!). Enfim, após a narração dos meus planos de férias, meu amigo ocasional me diz: “Não gaste as novidades todas de uma vez! Vá saboreando uma a uma”. Essa máxima passou a me guiar porque guarda um segredo profundo: o antídoto contra a rapidez alienante que “Eu“ me imponho. Agradeço profundamente ao mestre.

Um cara que vende roupas e que criou o “cartão de crédito humanizado” também mostrou-se mestre. Seu cliente, sem grana, leva a mercadoria e pode pagá-lo, sem juros, quando puder, bastando enviar-lhe uma carta postal com o dinheiro dentro. Tive a oportunidade de ler uma das cartas e me emocionei. E saibam: Ele nunca tomou cano! Me fez lembrar o projeto das mini-bibliotecas nos pontos de ônibus aqui em Brasília: basta pegar o livro e levar. O índice de não devolução é de 2%. São propostas tão livres e estimulantes que mobilizam algo nobre em nós, e demonstram que a liberdade é totalmente viável. Relações livres, amores livres...

Tempos depois descobri que a Espera que me havia sido imposta era justamente uma das bases do feminino que eu buscava. E que o Deus com o qual briguei e que havia me abandonado era, de fundo, meu modo masculinizado de ser. A vida é mesmo mágica! Sigo percebendo muitas coisas e ainda fazendo muita merda. Mas aquele que me julgava (e que era eu mesma) tirou férias deixando brecha pro amor.

Da terra antes devastada já saem brotos, que acompanho atenta. E tenho certeza que tudo aconteceu exatamente como devia. E estou mais certa do que nunca de que, sempre, existirá um lado bom em qualquer tragédia. E de novo, sou grata! Mudar de nome vem como conseqüência da necessidade profunda de tornar reais tantos aprendizados dando-lhes vida: do verbo fez-se carne!

“Anasha” é um compromisso que faço comigo mesma de amar-me melhor e conseqüentemente amar melhor o outro. É um novo som para caracterizar-me lembrando que estou aqui de passagem e que está passagem deve ser amorosa e saudável. Quando me chamam, ainda soa muito estranho, um estranhamento que me eleva, como num suspiro, criando uma pausa na existência. E me pego rindo. O novo sempre guarda o segredo da vida!

Namastê (“eu cumprimento o que é sagrado em você")

Anasha