Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!


















desarvorar (de-sar-vo-rar)

v.t.Náutica Tirar os mastros a 
(uma embarcação).
v.i.Fugir atropeladamente; safar-se.
v. pr.Desnortear-se,
ficar desorientado.
Inquietar-se; exaltar-se; 
espavorir-se.



Sou uma desarvorada, sem dúvidas. 
Tem a ver com desejo? Sempre.
Com ciclo mensal? Certamente.
Me desoriento, me inquieto, perco o mastro e sigo à deriva...


É o momento em que não tolero mais alguém, alguma coisa ou alguma situação. E o basta vem mais forte que um furacão, basta! Sem vista grossa, sem cumplicidade... Ao mesmo tempo, gosto de ver a minha força se colocando dessa forma, impondo limites duramente porque foi necessário. Quantas vezes me calei pra não causar confusão? E fiquei ruminando aquilo, me enchendo de um troço que nem era meu...


Nessa intolerância, o corpo fala mais rápido que a mente, que é o que mais adoro! Brota uma sinceridade ontológica e celular! Dá medo porque não dá pra controlar, e esse é também o grande barato. Vem como uma possessão, que se for dirigida pro alvo certo, vira benção, cura. Se compulsão, vira violência gratuita, doença. Uma linha extremamente tênue as separa. 

As grandes peias de “desarvoramento” que levei da vida foram sempre cíclicas. Num primeiro momento, vitimizada, sou jogada na rua da amargura, do abandono. Pra sair dessa lama, só uma energia muito forte. Então sou reerguida pela raiva, pela incompreensão que brota de um profundo sentimento de injustiça que alcança Deus, a divindade dentro e fora de mim. Minha fé é abalada. Sem fé, sou empurrada pro livre arbítrio, e assumo as consequências dos meus atos, ui! Fardo solitário e pesado esse de assumir o próprio destino!  Deus então se faz necessário, já que acreditar suaviza, humaniza... Peço colo pra Deus e me reconecto. Mas se eu ficar muito tempo sentada aqui, capaz de não levantar nunca mais, fui! E perco a conexão sendo novamente lançada ladeira abaixooooooooo. Desarvoramento existencial!

O desarvorar feminino é assim, meio bipolar, quica entre dois pólos e nunca consegue perceber que há um “entre”... É intenso, quente... O corpo quer contato mas, sem tato, acaba trombando nos outros corpos, sendo frio e metálico... Quando na verdade queria tocar, sentir, sentir-se, permitir... Caçamos algo pra nos dar limite, pra comprimir tamanho descontrole, pra abraçar nos delimitando... E queremos briga sim, mas essa visceral, essa que vejo nos meus sobrinhos e no meu filho quando se atracam no chão, “brincando” de lutinha! Não entendia isso. Se machucam, choram, mas continuam ali no chão, rolando e se batendo. Hoje invejo isso.

Se nos fosse estimulado na infância esse “atracamento”, quem sabe  fossemos menos desarvoradas... Também precisamos dessa mistura de adrenalina, com afeto e contato, poxa! O futebol tem isso também... Essa integridade corporal no homem eu invejo. Acho todos os homens mais encarnados em seus corpos do que nós mulheres. Podem ser o que forem, mas moram em seus corpos... Nós podemos até morar um tempo, mas qualquer furacãozinho nos tira dele. E lá vamos nós buscar a cabeça rolante pra juntar num corpo, que, muitas vezes, nem reconhecemos como nosso...

Enfim, nos momentos de desarvoramento, a insatisfação é tempero garantido. Seja como doença, quando entro na eterna e repetitiva queixa ao outro, para que me restitua aquilo que me faltou. Ou então como provocação, na exigência de uma satisfação além do limite comum, que não se contenta com a demonstração de afeto do homem. E peço ainda mais, mais além das evidências. Por outro lado, se não fosse esses eventuais ataques de insatisfação, talvez ainda estivéssemos morando em cavernas. Tem algo de visionário na insatisfação feminina, vai.

Dias depois de toda essa crise, menstruei! Era mesmo TPM, da braba! Desarvoramento mensal!


"Não entendo, apenas sinto. 
Tenho medo de um dia entender e deixar de sentir." 
Clarice Lispector

Anasha
Maio 2011