Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!

15.3.16

O Senhor Bolinha

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Depois de amassar, pisotear e picotar os papéis, botando pra fora um tanto de emoções, olhamos pra aquela profusão de "restos". E a partir dali, o exercício era criar um ser.

O meu, ainda no meio de sua criação, já me dizia que era um ser masculino, batizado Senhor Bolinha! Um cara azul, amoroso, afetuoso e muito trabalhador. Seu cabelo longo e esvoaçado, também azul, mostra certa rebeldia, que ele mantém preso, pra não atrapalhar seu trabalho de terras e afagos.

Ele é definitivamente um imã para abraços calorosos. Não há quem olhe seu corpo e não queira se lançar na sua gostosura, tendo sempre acolhida garantida no seu corpinho quente. Senhor Bolinha adora abraços, e quem se joga no seu corpo fofo, eterno puff do bem querer, também se sente profundamente abraçado, embora o Senhor Bolinha não tenha braços, mãos nem pernas e pés. Apesar disso, ele toca e se movimenta muito. Ele se vira, gira, rodopia, amassa, acolhe.

E como todo ser vivo, também tem um papel especial nesse planeta-casa: O Sr. Bolinha, com seu corpo cilíndrico, rola faceiro por sobre a terra, afofando-a e deixando-a preparada para o plantio. Terra sulcada pelo Sr. Bolinha é colheita garantida.

Mas o mais intrigante sobre este serzinho é o fato de ele ter nascido de mim! Gerado a partir do encontro da necessidade de expressão somado à oportunidade, esta, em geral, sempre perto. O essencial, muitas vezes, invisível aos olhos. Tudo o que criamos é parte nossa e diz muito sobre nós. E o Senhor Bolinha me aparece agora trazendo que mensagens? Fiquei matutando, e acabei compartilhando a estória do Sr. Bolinha com meu companheiro, que mais faceiro impossível, me disse: "Mas esse sou eu!" E não é que ele tem razão? O Sr. Bolinha tem muito dele. E parte disso já é meu também, ou sempre foi, fenômeno que só o amor pode explicar. Quando os talentos do outro, de repente fazem casa na gente! E nos damos conta de que sempre estiveram ali, à espera de uma brechinha para se mostrarem pra nós. Talvez a gente já ame no outro justamente o que temos na gente...

"O amor é quando o outro nos mostra o nosso melhor". 

Namastê
Anasha

Ando pensando muito sobre o peso das pessoas. Gente curvada que carrega peso demais, grande parte talvez nem seja mesmo delas ou gente muito leve, sempre de boa, sem responsabilidades reais, cujo peso certamente outra pessoa carrega. Porque é bem assim que funciona nas dinâmicas familiares. Não fica peso solto no chão. Esse tipo de peso mora nas gentes, se atrai por gentes, daí que alguém sempre o carregará, mesmo que não seja seu verdadeiro dono.

Tô chamando de peso aquilo tudo que constitui nossa história, os caminhos que percorremos, as gentes que conhecemos, as escolhas que fizemos, os sucessos, os aprendizados, as consequências de todos os nossos atos e omissões, os amores, os desafetos, enfim, tudo o que criamos na jornada até agora. No google pesquei que "O Peso de um corpo é a força com que a Terra o atrai, podendo ser variável, quando a gravidade variar, ou seja, quando não estamos nas proximidades da Terra". De modo que é, justamente esse peso construído, que nos aterra, nos faz pertencentes e participantes ativos do mundo. Se eu não crio peso/história, eu me alieno. Se alguém toma pra si responsabilidades e consequências que são minhas, me aleija. Se eu tomo pra mim o peso de outro, eu o aleijo e o impeço de crescer, de aprender, de ser. Mães e pais são experts nessa prática, que é cultural e traduz um amor negativo e imaturo.

Complexas são as dinâmicas entre pais e filhos. Pais irresponsáveis que jogam excessivo peso, bem prematuramente, sobre seus filhos, que se tornam mais pais do que os próprios. Filhos irresponsáveis cujos pais privaram do peso, deixando-os leves demais, soltos demais, sem âncora na realidade. Sem falar nos pesos inconscientes, de filhos que pegam pra si, por exemplo, sonhos irrealizados dos pais. E depois se frustram ao descobrir que pegaram carona no bonde alheio. E tem ainda os pesos familiares de gerações e gerações, de guerras, abusos, tudo isso nos ronda. E há os pesos conhecidos, de atitudes e pensamentos desatualizados, que insistimos em carregar. A vida pedindo mudança e a gente ali, insistindo na velharia. E a mochila vai ficando pesada, de um monte de coisa morta que a gente insiste que ainda vai nos servir um dia. Apego cria peso ruim. História cria peso, simplesmente. 

Hoje, sinto meu peso, reconheço a maior parte dele e gosto da minha história, mas ando de olho mesmo (procurando ainda) numa parte dele, que sinto profundamente, não é minha. Certamente é composto de pesos de várias gentes. Medos e impedimentos familiares antigos, históricos, karmáticos, ui. Sinto uma linha tênue que me atravessa e que vem de muito longe mesmo. E lembro de algumas práticas orientais que reverenciam os antepassados... E penso em fazer festa pra eles, cantar, ninar, perdoar, agradecer... Talvez o simples reconhecimento de que existiram e deixaram rastros, e colaboraram pra eu estar aqui e agora, baste pra dissipar o peso ruim... Ou não!

Namastê

Anasha 


Matutando acerca da viagem da segunda metade da vida - parte 2", me pego rindo porque daqui pra frente essa será minha estrada, até a parte que me caberá viver. Enfim, seguindo na vibe da reflexão sobre chegar e até ultrapassar a metade da vida, e todas as questões filosóficas, existenciais, corporais, psicológicas e espirituais que o fato suscita, percebi, essa semana, um movimento interessante.

Em um nível intensamente sutil, a vida já vem me empurrando prum novo lugar (em mim) há alguns anos, durante os quais a luta foi (e segue sendo) ferrenha. Velhos sonhos e ideais perdendo o sentido, assim como práticas, atitudes, lugares e até pessoas. Mas eu me negava a ver e insistia, batia de frente, me rebelava, tentando manter meu status quo construído à duras penas, enquanto a vida, numa onda tsunamica invisível, queria detonar com tudo... O tsunami continua aqui, acontecendo, constantemente, dia a dia, minuto a minuto. Mas paralelamente à devastadora desconstrução da velha colcha, sinto que há uma outra sendo costurada em algum nível. Talvez esteja pequenina ainda mas ela caminha, a seu tempo, para fazer-se viva. Tudo isso se dá num outro Tempo, no tempo da meia idade. Esse que só compreendemos na meia idade!

A vida nos conduz para o centramento, para a meditação, para uma vida mais calma e equilibrada, porém,  há um lado em nós que esteve e ainda está desesperado com tudo isso, porque lê esse movimento como ENVELHECIMENTO. Claro que se apegou a um só dos lados do conceito, o lado sombrio do envelhecer que é o deixar de brincar, de sorrir, de cantar, tornar-se sério, triste, chato e resignado, o velho ou velha mal humorados e ranzinzas de nosso imaginário clássico. Esse é um dos fantasmas da meia-idade, o medo do envelhecer do espírito, que é muito mais profundo do que o do corpo.

A força oposta é a da JUVENTUDE, e que justamente por se colocar em oposição (e não em complementação) já vem compulsiva na busca por prazeres, alegrias e ilusões. E talvez a fuga de certas responsabilidades para com a gente mesmo e nosso bem estar. E assim acionanos também o lado sombrio da juventude. De fundo, sem saber, buscamos o equilíbrio entre os arquétipos do Senex e do Puer. Essa é uma luta antiga, a luta das polaridades, que antes se dava entre a normose e a busca por originalidade, e a vida se dividia entre os chatos normóticos e os loucos buscadores. Hoje a briga é mesmo entre a velhice e a juventude, dois lados da mesma moeda, complementares em essência. Sigo, observando o processo, amorosamente, buscando alcançar e acolher também o lado luz de cada um.

Hoje me sinto ENTRE, meu lugar do agora. Lugar da mulher de 43 anos, que carrega em si tanto a calmaria, a sabedoria e a fé próprias do amadurecimento e do tempo já vivído, com a entrega e o amor que só o envelhecer proporciona, nadando em meu ritmo próprio, ao mesmo tempo em que vivo também a curiosidade, a disposição, a indignação da juventude, que questiona, que inventa, que dança, que se apaixona e que investe nos sonhos porque os tem. Ainda dá xabu, na maioria das vezes, mas, sigo tentando fazer com que a luta vire dança!

Difícil mesmo é apaziguar os ânimos dessa gente interna que quando resolve ir pra briga, faz estragos demais por acreditar que uma postura exclui a outra. Aprendemos a excluir e não a incluir. Excluir dá sensação de poder e incluir parece fraqueza, o que me lembrou do conto "A princesa que era alta demais", que assim, como "Alice no país das maravilhas", nos fala sobre encontrar nosso próprio tamanho, natural, nem maior nem menor do que ninguém. Quando trabalho esse conto, proponho uma vivência corporal sobre sentir-se pequena, natural e grande. E a fala da maioria das mulheres com as quais já trabalhei é de que o sentir-se grande inclui sensações boas enquanto apequenar-se só traz sensações negativas. Parece haver algo errado ai. Parecer maior, mais importante, mais inteligente, mais bonita, foi o que aprendemos a almejar, sem nenhuma consideração para o fato de que estar no alto me afasta de quem, supostamente, está abaixo, e impede qualquer relação real.

Enfim, sentir-se grande ou pequena pressupõe comparação. Só me comparando pra poder avaliar. Mas enquanto seguimos nos comparando aos outros, o véu de maia continuará nos cegando. Só podemos nos comparar a gente mesmo, antes. Aí sim podemos avaliar se estamos maiores ou menores do que já estivemos. Enquanto o parâmetro for o outro, esquecemos de procurar, encontrar e acolher o que realmente importa: nosso tamanho natural, ser quem somos de verdade!

Bem vind@s a meia idade! E pros que não chegaram lá, espero que cheguem. Como cantou Arnaldo Antunes, na música Envelhecer: "(...) Não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer. Eu quero é viver pra ver qual é e dizer venha pra o que vai acontecer (...)".
Namastê
Anasha

Link da música:

https://www.youtube.com/watch?v=MHgcQ76vRM8

"Dizem que antes de um rio entrar no mar, ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada que percorreu, para os cumes, as montanhas, para o longo caminho sinuoso
que trilhou através de florestas e povoados,
e vê à sua frente um oceano tão vasto, que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira.
O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entrar no oceano é que o medo desaparece, porque apenas então o rio
saberá que não se trata de
desaparecer no oceano,
mas de tornar-se oceano."

Osho


Filósofos e psicólogos e toda essa gente que estuda a alma humana, apontam esse inevitável fenômeno que começa a acontecer quando alcançamos a metade da vida, mais ou menos entre 40 e 50 anos. Momento onde olhamos pra traz e já temos muita História e Tempo nas costas. E avaliar o que já passou vem numa onda inevitável como respirar, em longos suspiros de regozijo diante de lembranças felizes, e respiração entrecortada diante de dificuldades e obstáculos ultrapassados de forma não tão saudável e madura. Daí vem esse olhar de agora, mais amoroso com a gente mesmo (coisa que só a idade traz) e diz baixinho: "Você deu o que tinha pra dar! Fez do melhor modo que pôde fazer!" E lamentar o como agimos ou deixamos de agir vai parecendo uma bobagem muito grande. 

Em resumo, aquela voz chata que nos guiou até então e que, com um garfo espetado na nossa bunda, vivia vomitando regras malucas que a gente se virava pra cumprir, vai cessando. Regras muito muito desmedidas, máximas vindos do Ego, recheadas de auto-importância e sem Sentido pra Alma, vão desvanecendo. Dá medo, muito medo, um medo paralizante até, deixar de ouvi-la, afinal ela nos fez companhia durante muito tempo. E, de repente, aquilo tudo que estruturava nosso pensamento e ação entra em choque. A gente sente falta do comando e é justamente nesse vazio que se esconde o trampolim pra novos saltos. 

Não há saída, já que voltar pra trás não é opção possível, embora existam pessoas que fingem que o tempo não passou e seguem agindo como se tivessem 20 anos. O jeito é encarar o vazio, olhar pra ele de frente, bater um papo franco, vários, na verdade. A surpresa é que, por traz da voz de comando nazista, começa a se fazer presente uma outra, mais amorosa e iluminada, que não envia regras e sim estados de ser. É uma voz mais integrada com o corpo todo, não apenas com a mente, a alma da pele, talvez. É bom senti-la nos embalando nos momentos difíceis, ela que será nossa melhor companhia na jornada da segunda metade da vida. Ela que nos lembra quem somos de verdade, e que nos faz ficar em nós, o melhor lugar do mundo! 

O grande lance dessa fase é o ENTRE, entre o passado e o futuro, entre uma voz e outra, entre os condicionamentos de uma vida inteira e o vazio de agora... Entre, quando ainda não pisamos completamente no Agora. Talvez ainda existam questões pra se olhar lá trás, mas olhar de um novo lugar, mais ampliado, pra resgatar sabedorias e entendimentos. O Agora, lugar muito novo, assusta, porque pra estar nele é preciso permitir o Vazio. É um lugar onde o antigo não funciona, daí que pressupõe a ousadia de fazer diferente. E talvez seja justamente este o ponto da tal meia-idade que mais atormente: Esses momentos onde, sem ter onde nos apoiarmos, agimos mecanicamente, como no passado, o que obviamente não funciona, além de exaurir corpo e mente intensamente. E o novo nos escapa, e ficamos sem ação, paralizados. Medo, paúra, pânico, processo mais do que natural e que paraliza mesmo, momentaneamente, depois passa. Há gentes que não suportam, e daí vem as crises de pânico e os tratamentos psiquiátricos, afinal vivemos numa sociedade onde o medo não tem lugar e só os fortes vencerão.

A meia-idade traz um novo olhar sobre o duplo da vida, faz cair a ilusão e traz os entendimentos de que força é símbolo que traz em si também a fraqueza, de que medo é ingrediente vital da coragem, de que tristeza guarda em si alegria e por aí vai. E vamos, dia a dia, revendo velhos conceitos, antes parciais e capengas, recheando-os de uma parte que lhes é vital (e que antes considerávamos negativa). Não é à toa que é justamente nessa fase da vida que nos deparamos mais diretamente com a morte, real e simbólica. E também aí costuramos saberes profundos porque vida e morte são irmãs gêmeas e siamesas. E saímos da doce infantilidade de considerar algo bom ou ruim, ou alguém bom ou mal. 

E aprendemos a nos ajeitar pra alcançar um melhor ponto de visão, que seja também confortável. Tem isso, a noção de confortável cresce, pelo menos comigo tem sido assim. Antes, suportar o inconfortável era tão comum, que eu ficava nele horas, meses, anos, sem nem notar. Era movida a tensão e consequentemente, a ansiedade, sem nem me dar conta. Hoje, tem uma consciência ampliada, essa mesma que mora na pele da alma, que logo apita o desconforto e a pressa. E num suspiro profundo, que alcança o fundo da Terra, encontro o confortável em mim e desacelero. E lembro que urgente mesmo é estar aqui e agora e habitar meu corpo com amor, seja ele meu próprio corpo ou o corpo da terra...

Sinceramente não troco a experiência de agora pela dos meus vinte anos, sucumbindo assim a uma sociedade doente que valoriza a parcialidade e prega uma vida playmobil - aqueles bonequinhos todos iguais, com um sorriso único no rosto, eternamente jovens e felizes. Tudo tem seu tempo e sua hora. E o Agora tem sido experiência interessantíssima. Novos medos, novos processos e percepções onde a não-prontidão pro novo segue sendo o maior tormento. Ao mesmo tempo em que ver essa prontidão em ação tem sido de um regozijo profundo. Ver-me agindo numa velha situação de um jeito novinho em folha, de um modo mais sábio e cheio de Sentido humano, é experiência inenarrável, que me lança no aqui e agora, na Terra e no Céu, no dentro e no fora, e sou eu mesma, do melhor modo possível. E exerço aquilo que vim fazer aqui: Anashar, Vanessar, Ser!

Dói, dói muito, trocar de pele, de lugar, sair do conhecido. Tem momentos que parece insuportável. E daí vale lembrar do que nos faz felizes, do que alimenta nossa alma profundamente: pessoas, lugares, atividades... E vamos atrás de alimentar nossa alminha sedenta. E se não sabemos o que nos faz felizes, damos uns passinhos pra tráz na estrada, pra descobrir. Afinal, a sacolinha das felicidades é ingrediente vital na viagem da segunda metade da vida. Só não vale fazer disso uma missão dolorosa, que aí, o tiro sai pela culatra. É bom começar pelo pequenino: pisar descalça na grama, abraçar alguém de verdade, tomar sorvete de chocolate, fazer cocô lendo gibi da Mônica, dançar sozinha enquanto lava a louça, andar de bicicleta na calma da noite...

Além da certeza da morte, a meia-idade traz também outra: a de que a única pessoa que estará ao nosso lado para o resto da vida, somos nós mesmos, então "Seja sua melhor companhia, seu melhor amigo(a)!"

E se o bicho pegar, apareça que tenho aqui uma bicicleta, um baú cheio de gibis da Mônica e abraços...

Namastê

Anasha

20.2.14

Festa dos Mortos

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Morreu nosso amor
E pari sua festa
De regozijo e graça
De luto, cura e promessa

Morto sem enterro e despedida
Fica puto da vida
Vira fantasma
Que lacra a entrada
Praga sacramentada!

Sendo considerado,
ganha vida o danado
No fluxo das possibilidades
E segue em seu movimento,
Rizomático

Morte e vida, Severina menina
É dança interminável
Fora e dentro de mim 
Que num festejo solitário
Me despedi de ti

Suor, saliva, sangue, gozo, lágrima, coriza
Expurguei os líquidos trocados
Dancei a cama, o prato, o livro, o filme, o garfo, o lapso
Paixão, afeto, amor, carinho, cuidado
Se foram, voando, lado a lado

Desatei amarras e nós
Limpei cheiro, pele e presença
Abrindo espaços e fendas

Vai livre, amor nosso
Vai livre, amor meu
Voa livre, amor


Namastê

Anasha

Anasha faz quatro anos...
Que eu tenha coragem e força interior para aprofundar e renovar os votos e combinados que fiz comigo mesma ao trocar de nome! Que o amor, o silêncio interior e a sabedoria sejam meu guias. Momento grandioso onde pude brincar de nascer de novo! Depois descobri que dá pra brincar disso todo dia... Ainda não consigo mas quero chegar lá. A possibilidade de criar, de inventar, de imaginar, de reinventar, é a dimensão da vida que torna viável a minha estadia aqui nessa terra. Ainda mais com 4 aninhos, né?!

Mas de repente, e novamente (depois de uma fase criativa), me vejo estagnada, paralizada. E nada nasce nem se cria sobre a face da minha terra. A máquina de criar pifou! A fase up passou. A borboleta regrediu pro casulo. Mas não aceito. E reproduzo padrões falidos, insisto em impossibilidades, temo a vida e o novo, em resumo, quero controlar o mundinho que vejo. Tudo isso por não respeitar a fase do silêncio, da não-ação. Ainda brigo com essa irmã siamesa da criação. Mas fase é fase e tem que ser vivida até a última gota.

E então, quando já tô quase virando uma estátua de cera de tão rígida, de medo e cegueira (eu medusando a mim mesma!), alguma coisa acontece no de dentro. Depois de muitos tropeços, e nesta sexta passagem de Saturno pelo meu mapa, me resigno e dou vida a Penélope em mim, a paciente. E lembro dessa substância da qual também sou feita! Dura poucos segundos, sagrados segundos onde ondas de Deus entram dentro de mim. E já basta pra me salvar da morte. Trágica eu?

A não ação é uma fase difícil porque depende não apenas da paciência mas da confiança. (Começo a desconfiar que essas duas também são siamesas, não dá pra ter uma sem a outra...). Confiança no futuro, no amanhã, no daqui a pouco. Confiança na vida, em nós, na nossa alma, nos nossos corações e espíritos, e na humildade deles pra aceitar o que a vida nos dá. Confiar de que estar aqui e agora é o melhor que pode acontecer. Confiar que a vida só nos reserva o melhor. E que mesmo quando é pior, vem pra ensinar e fazer crescer, então era mesmo o melhor, com cara feia! Confiar que somos pessoas legais!

Confiar exige imaginação. Quem é que acredita naquilo que não consegue sentir como possível? É preciso visualizar e sentir as coisas boas tornando-as possíveis no de dentro. Mente que só imagina a mesma coisa, tá doente. Daí que urge limpá-la, deixá-la leve e permeável pra imaginar novidades, bondades, possibilidades, criatividades, humanidades, amorosidades...

Uma coisa é certa: cuidar do corpo, acalma a mente. A mente relaxada, equilibra as emoções. As emoções numa boa alegram o espírito. Se preferir pular tudo isso, meditação! E tem tantos outros caminhos. Importa sacar que a maluquice começa na mente e cortar o mal pela raiz. Doses de boas imagens mentais pra começar. Ou imagem nenhuma. Bora começar?

Feliz aniversário florzinha!

Namastê

Anasha

Nota: Car@s leitor@s, inicio 2014 acrescentando a este blog - que nasceu trazendo relatos e elucubrações pessoais, logo em seguida acrescido da série Umbigos do Cinema (meu olhar sobre alguns filmes que assisti) - a série Contos do Umbigo. Espero que gostem. Vamos ao conto.


Logo na saída do aeroporto, olhou ao redor, um tanto decepcionada. As coisas continuavam exatamente iguais. O provincianismo, o abandono das ruas, nenhuma árvore. Definitivamente uma cidade feia. E a beleza era algo que cultivara desde cedo. A boniteza da natureza, das cores, das pessoas, dos objetos, dos cheiros. O conforto que camas, poltronas e cobertas podiam lhe causar... Quando relaxava, via a vida mais bela. Tensão e feiura. No entanto, toda a sua construção acerca da beleza não fazia nenhum sentido ali.

Pegou um taxi até a fazenda do pai. Poderia ser a última virada de ano que passaria com ele. Sentiu uma brisa triste que logo se dissipou. Aprendera que a morte era inevitável e não necessariamente dolorosa. "Só morre quem viveu", pensou. E seu pai vivera, com intensidade. Disso tinha certeza.

Ao abrir a porteira de madeira, procurou pela marca, feita à canivete por ela mesma: "Teresa ama Rafael". Registro discreto, posicionado na penúltima tira de madeira entre o chão e a última das seis tábuas, feito ali, há quase 20 anos. E talvez nunca percebido por mais ninguém. Segredo seu. Sentiu a terra fofa, e sem titubear, tirou as sandálias. Pés descalços na terra, mato, natureza, liberdade. Andar sozinha, ouvindo o farfalhar das folhas ao vento e o canto dos pássaros era bálsamo para corpo e alma, desvitalizados pela cidade grande. Fechou os olhos e guardou aquele momento de paz.

Seguiu pela estrada como já fizera inúmeras vezes, amazona livre, corajosa,  parte integrante dali. Talvez o único lugar no mundo onde se sinta realmente pertencente. Noutros lugares, adquiriu o hábito de pedir permissão ao entrar. Sabe que os lugares tem vida e pede licença, sem saber muito bem a quem. Ali, esse ritual era desnecessário. Eram praticamente um só, ela e o espaço ao redor. Podia correr, gritar, rir as gargalhadas, andar nua, cantar, rituais solitários tantas vezes vividos ali. Outro segredo.

Caminhando em meio aos matizes de verde, riu ao reparar no amarelo que reluzia em bolinhas feito as de Natal. Cascudinhos! Pés repletos dessa exótica frutinha que ela jamais vira além daquelas cercas. Uma espécie de lichia rústica, menos suculenta, menos doce, de casca grossa e dura que esconde a semente revestida de uma massa amarelada. É preciso rachar a casca com os dentes, de leve. Uma dentada mais forte e o óleo amargo do casco impregna a língua e estraga o sabor do fruto. Rachado o casco, chupa-se o invólucro cremoso da semente, como se faz com a lichia. Hum, hum, hum, era o som que se ouvia ao longo do percurso de Teresa, enquanto cascas e sementes eram atiradas de volta ao mato.

Ícaro, o cachorro do pai, companheiro de muitos anos, foi recebê-la na porta da casa, com toda a alegria possível para um cão. Fizeram festa, os dois, matando saudades indizíveis. "Quem está ai?" perguntou o pai, jocosamente, enquanto descia os degraus da escada em frente à porta. Abraçaram-se em silêncio, longamente, enquanto Ícaro se enroscava nas pernas dos dois, fazendo-os quase tombarem. Riram. E se sentaram na mesa da cozinha. E fizeram café. E colocaram as novidades em dia. E encheram os olhos de lágrimas, que não foram vertidas. E planejaram o menu para logo mais.

"Eduardo, seu primo, virá cear conosco". Edu, seu companheiro de tantas descobertas e que ela não via há tantos anos! Foram próximos, tanto quanto primos podem ser. Afastaram-se, tanto quanto primos podem se afastar. Amaram-se, o quanto possível. E sempre que se encontraram, o compartilhar fora profundo. E filosófico. E amoroso. Temas como Morte, Escolhas, Entrega, Autenticidade deram o tom de saudosas prosas. Entre eles a distância dos anos não existia. Mas isso fora há quase quinze anos atrás, temeu Teresa.

A casa estava tomada pelo aroma do pernil, prato preferido do pai, além de outras iguarias, nostalgicamente impregnadas da ausência da mãe. Três garrafas do vinho, produzido ali mesmo, adornavam a mesa farta. Os latidos de Ícaro se fizeram ouvir. "Chegaram", disse o pai. E uma vergonha súbita se abateu sobre ela. Quis esconder-se. E foi ao banheiro, ajeitar cabelo e passar batom, enquanto ouvia os convivas na sala. Saiu reluzente. Cumprimentou a todos com entusiasmo verdadeiro, enquanto o pai, conduzia cada um à mesa. "Vamos encher o bucho, afinal entrar o ano com estômago vazio é mal presságio".

E seguiu-se uma algazarra animada e caótica, típica de festas familiares, repleta de lembranças, histórias e desavenças, claro. Pequenas faíscas reluziam aqui e acolá. Parentes, exumando antigos conflitos. Parentes fingindo que nada se passava. Parentes contando anedotas para dissipar a tensão. O clima ficava mais e mais denso à medida que o teor alcoólico dos convivas aumentava. Teresa achava graça daquilo. Em meio a tantas colocações equivocadas, limitadas e repletas de preconceitos, se manteve calada. Sorriu sozinha por notar o quanto havia mudado. Quantas brigas já havia travado ali mesmo, naquela mesma? Quantas vezes dissera verdades inconvenientes e desnecessárias? Quantas vezes sairá dali, constrangida, pela humilhação que causara ao lançar-lhes na cara suas verdades?

Havia aprendido algo nesses anos. Cultura e natura eram irmãs gêmeas, inseparáveis. E seu olhar sobre o humano, em si e no outro, amenizara. Podia conviver com o diferente, ainda sem o desprendimento pretendido, já que um leve julgamento ainda se fazia presente. Julgar o comportamento alheio, hoje, lhe parecia das coisas mais inúteis. Afinal, agimos simplesmente dentro do que é possível. E o humanamente possível para cada um é variável. Simples assim. Porém, se flagrava julgando. Sabia o quanto era difícil desfazer hábitos. E se policiava, sem, no entanto, tornar-se algoz de si mesma. Aprendera a ser sua melhor amiga, a maior conquista dos últimos anos.

Aquela gente vivera uma vida completamente diferente da sua. Submersos numa cultura machista, reacionária e regida por um Deus condenador e punitivo, do qual ela fugira há tempos. Via ali muita feiura. E essa afirmação talvez fosse um julgamento... Ao mesmo tempo, via a beleza surgindo em inusitados acontecimentos. Como quando a tia Clarinha, servindo-se da salada de milho, lembrou de sua mãe com tristeza, e, tio Claiton a abraçou carinhosamente, pousando seu rosto sobre seu ombro, sem dizer palavra. Era uma gente afetuosa, cuidavam uns dos outros. E havia muita, muita beleza nisso.

Faltava uns cinquenta minutos para a meia-noite quando a mesa foi se desfazendo. Um a um, os parentes se levantaram entre abraços afetuosos e desejos de feliz ano novo. Na sala central seria servido o café, moído na hora. Os mais velhos, dispensaram a iguaria e se recolheram. "Na roça, madrugamos", disse o pai. Na varanda, restaram Teresa, Edu e o Tio Claiton. "Mais bêbado do que peru em véspera de Natal" comentou Edu. E riram juntos da condição típica do tio, exumando uma intimidade talvez não tão perdida. 

Edu parecia ansioso. Teresa entrou na casa logo voltando com uma garrafa de vinho, duas taças e um sorriso amistoso. Constrangido, Edu comunicou que já não bebia há sete anos, desde que ingressara numa certa religião. Ela se desculpou, abriu o vinho, serviu-se e brindou sozinha, batendo a taça na garrafa: "Feliz ano novo!" Edu sorriu e se pôs a narrar sua vida, desde a última vez em que haviam se encontrado. Teresa ouvia atenta ao rosário de infortúnios no qual a vida do primo se transformara. Sofria. Foi sendo tomada de certa compaixão mas ponderou que tal sentimento a distanciava dele. "A vida é um percurso feito de escolhas cujo fim ninguém conhece", pensou. E esse pensamento não apenas dissipou a compaixão como instaurou certa fé na felicidade futura do primo.

Por vezes, quis interrompê-lo. Acrescentaria uma pergunta provocativa, certamente, mas desistiu. E teve um regozijo interior de admiração por si mesma, até que o primo se pôs a narrar, entusiasmado, preceitos da nova religião, que lhe pareceram absurdos. Não teve coragem de compartilhar sua constatação de que a vida do primo havia ficado pior desde que ingressara no tal culto. Seria mais um julgamento? E quem sabe ele não estivesse pior ainda sem a religião? E não eram também suas ideias e conhecimentos, uma espécie de religião? Religião cujos preceitos conduziam sua vida, muitas vezes, de modo absurdo também? Até que ponto somos realmente livres?


Graças aos deuses, o teor alcóolico elevado lhe deu coragem para mudar o rumo daquela prosa interna. Porque, àquela altura, já não ouvia mais o primo: Elucubrava sozinha. Pediu licença, entrou novamente em casa logo voltando com seu laptop, que pousou, no centro do gramado em frente a varanda. Chamou o primo de braços abertos. E sem dizer palavra, colocou uma música, uma das canções compartilhadas na carroceria da caminhonete do pai, nas tantas férias que passaram juntos ali. "Tenho uma seleção de músicas daquela época", disse sorrindo. E segurou as mãos do primo. E dançaram. E riram. E pularam. E correram. E cantaram. E ouviram os fogos de artificio anunciando o novo ano. E se abraçaram, sem dizer palavra, enquanto o tio Claiton, recém acordado de seu cochilo, berrava: "Feliz ano novo, feliz ano novo!"