Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!

26.6.12

Umbigo de Eros

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Ministrei uma oficina que chamei Umbigo de Eros. E percebi que esse termo não diz respeito apenas a um blog, uma companhia de teatro, uma metodologia, e sim a uma proposta criativa de vida, um modo muito próprio de ver e viver. Percebi também o quanto, tudo o que faço, está impregnado dessa idéia e seus princípios, exumando um Ethos muito próprio, um anseio espiritual, “uma imagem do humano capaz de se tornar uma obrigação e um dever”. E, de repente, eu que sempre me senti fragmentada, brigando com tantos focos, exigindo-me a escolha de um só, percebo que tudo está profundamente conectado dentro e fora de mim. E que venho costurando tudo isso há um tempão. E que, o que antes era retalho, agora se faz colcha... Apesar de ainda sentir intensamente o frio desde os ossos...

Meu caldeirão que me faz imersa num Universo onde dançam as experiências em dimensões: jogo, ritual, mito e alquimia. E onde não cabe a idéia opressora de um Deus único que não reflete as muitas faces da alma. Bom demais saber que há milhares de imagens para traduzir a alma, mutante, volátil e que muitos deuses e deusas habitam-nos... Bom demais viver a dimensão do jogo: com a existência, com nosso mundo interior, com os outros... Importa é jogar, muito além da redução tola do ganhar ou perder.   

E penso nas muitas tantas possibilidades que se abrem quando estamos no papel de facilitadoras de um trabalho, e em como, no fim das contas, sempre aprendemos muito mais do que imaginamos. A primeira mágica que se abre é a de perceber que aquilo que traz Sentido pra nós também traz Sentido pra outras pessoas, o que nos tira de uma solidão cômoda e desnecessária. Depois, ver a coisa acontecendo, o Outro se ampliando, se Descobrindo ali, na nossa frente... É presenciar o milagre da vida, sua renovação, seu crescimento... “Vim aqui fazer uma oficina de teatro, e de repente, encontro um lugar em mim...” Impossível ouvir isso e não pensar nesse mesmo lugar em mim mesma, e dimensionar se estou ou não nele... 

O mesmo se dá no teatro, durante, depois, o público, rindo, chorando, sentindo junto, mergulhando nas antropologias nossas... E ainda isso, a Antropologia entrando no meu caldeirão e deixando o caldo mais suculento... Como não pensar nas origens do teatro? O teatro nasce dos gestos e movimentos corporais dos ritos dionisíacos. Ritual como drama ou um psicodrama, em toda a extensão da palavra, onde os participantes tentam entrar em contato com os seres divinos, que, de fundo, habitam seu interior. Inenarrável a fecundidade artística do entusiasmo (estar com Deus) de um ritual...

O ritual é um ato simbólico que celebra, reverencia ou comemora um evento ou processo de vida do indivíduo ou da comunidade, fortalecendo a harmonia com os ritmos da (sua) natureza. E claro, baixa a bola do ego já que pressupõe a reverência a algo maior, mesmo que esse algo nos habite. Diante de tudo isso, não tenho outra opção se não ritualizar! 

Mergulhemos em nosso “umbigo de Eros” e encontremos o mito da vez, e que ele possa se expressar, se alquimizar na matéria-corpo, de preferência, em movimento, dançando e cantando, juntos e numa festa, claro! Afinal, fecha-se mais um ciclo/semestre, com seus aprendizados e encontros... E que Dioníso esteja entre nós! E também Iansã, Shakti, Rudá, Yemanjá, Perséfone, Hades, a Prostituta Sagrada, a Velha Sábia, quem sabe os ETs, um gorila, uma pipa dentro de um túnel, a árvore da vida, o Rio São Francisco, a carta do Mundo do tarô e tudo quanto for imagem viva, que reflita o que se passa nas almas nossas!

Cantemos, que quem canta os males espanta!
Dancemos, que quem dança eleva a alma!  

Namastê

Anasha

Violeta se Fue a los Cielos, é um filme pra ser visto. Mas não espere dele a suavidade da voz de Violeta Parra, pelo contrário, já que, ainda que belo, o filme é forte, denso, pesado até. Apesar da agradável e amorosa companhia ao meu lado, sai do cinema de ombros enrigecidos. A atriz que faz a protagonista não apenas guarda impressionante semelhança com Violeta, como a encarna visceralmente numa atuação perturbadora!

A fotografia traz paisagens áridas do interior do Chile, (também metáforas do mundo interior de Violeta), que,  peregrinou pelos interiores de seu país, colhendo narrativas e histórias del pueblo, numa incansável e penosa luta por preservar e divulgar o folclore chileno. Teve infância pobre mas cheia de amor, pareceu. Trabalhou desde muito cedo com seus irmãos, primeiro acompanhando o pai, músico popular, professor e boêmio beberrão, depois tocou com os irmãos por ruas e festas populares, até alcançar carreira-solo. Queria cantar à sua maneira e o fez. Letras duras sobre pobreza, opressão, revolta e beleza. 

O filme baseou-se em livro escrito pelo filho de Violeta, daí também um certo mal estar pelo olhar duro e verdadeiro com que ele retrata a história da mãe. Lembrei da biografia que Simone de Beauvoir escreveu após a morte de Sartre, onde expôe suas verdades inconvenientes, seus "defeitos". Para alguns, uma vingança pelas inúmeras "traições" de Sartre, para outros, apenas fidelidade ao pacto que mantiveram durante toda vida, de priorizar a verdade e a sinceridade acima de tudo. Violeta tinha ética similar.

Violeta guardava em si uma dureza excessiva, que, segundo a narrativa do filme, parece ter afastado de sua vida o amor. Apaixonada por um homem mais novo, o filme mostra sua crise ao envelhecer, o que pode parecer fútil diante das grandes lutas que travou. Numa das cenas, Violeta olha no espelho sua barriga flácida. Embora não parecesse vaidosa, como que evitando a mulher em si, Violeta parecia perseguida pelo próprio feminino que reprimia... Do mesmo modo, travava lutas coletivas abafando o  individualismo, mas seu ego era mais forte. Aquilo que mais negamos, nos assombra.

Violeta se mata aos 50 anos, na Tenda de Cultura Popular, sonho que conseguiu colocar em prática, ainda e sempre, no intuito de valorizar e divulgar o folclore chileno. A proposta durou pouco, aparentemente devido ao seu gênio difícil. Violeta Parra pareceu uma mulher muito pesada e inflexível. Fui xeretar seu signo, e qual não foi meu espanto quando vi que ela nasceu um dia depois de mim... Libriana... De todo modo, saí do cinema com vontade de abraçá-la, colocá-la no cólo, fazer carinho... Hay que endurecer, Violeta, pero sin perder la ternura, mi amor!

Segue o trailer do filme que ganhou alguns prêmios
Namastê
Anasha

O amor vem. 
E vai. 
Vem o luto. 
Depois reelaboramos o amor findado
Nos despimos dele
Questionamos se foi amor mesmo ou paixão
Extraímos os aprendizados (ou não). 
Daí é renascer das cinzas e recomeçar do zero possível. Momento mítico! 

As paixões nos tiram do passado e nos fazem mergulhar no presente, incondicionalmente. Em verdade, no corpo. Paixão que se preza não vem com ilusões de futuro. A carne é tomada de loucura tamanha que não há tempo interno pra conjecturas e sonhos. O calor é muito e quer ser gasto imediata e irracionalmente agora! Talvez por isso a paixão vicie... 

"Todo aquele que sabe
Separar o amor da paixão
Tem o segredo da vida
E da morte no seu coração".
Paulinho da Viola

Será mesmo a paixão, emoção imatura diante do amor? O amor é outra história? Seu mistério maior? O amor nasce da paixão? Paixão e amor co-habitam? A paixão é possível no amor? Junto com o amor tem esse desassossego, isso de pensar o amor... Tem? Erro besta, bobo, meu e de uma pá de gente interessante. Platão, Goethe, Cervantes, Sarte e Simone, Balzac, Drummond, Chico, Paulinho... O livro de Leandro Konder,  "Sobre o amor", traz a perspectiva desses autores, recomendo.

"Não é Amor amor se não vier com
 doudices, desonras, dissensões,
pazes, guerras, prazer, desprazer,
perigos, línguas más, murmurações (...)."
Camões

Penso nos contrastes entre o amor de Sartre e Simone buscando liberdade e verdade (entre o  amor essencial e o contingente, como diziam) e o amor romântico do casamento tradicional. Muitas de nós, mulheres do agora, estamos bem nesse hiato e talvez, carregando andrajos dos dois: as inconscientes inseguranças do primeiro e as neuróticas cobranças do segundo. Neste início de século 21 quais os novos caminhos pro amor?
"Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor.
Mentira".
Chico Buarque

Amor, esse de querer o bem do outro, de admirar, de observar aquele diferente ao mesmo tempo tão igual, de aprender, amadurecer, desabrochar e ampliar-se com a perspectiva do outro... De acordar o seu melhor... De querer ajudar, compartilhar, viajar... De trocar afeto, carinho, cuidado, atenção... O outro, ao permitir nossa entrada em sua vida, abre outras dimensões, em nós, nele, e no próprio amor. Pequenas grandes éticas só aparecem nas pequenas enormes situações do cotidiano: nas idas à padaria, no preparo da comida, na escolha dos ingredientes, na organização da casa, no modo como se passa manteiga no pão... 
"O amor é a forma mais radical de ir ao outro". 
Goethe

O amor é algo que nos acontece independente de nossa vontade, ou é algo que acontece na nossa vontade? É preciso não pensá-lo pra poder vivê-lo? Será que, no século XXI, tememos o comprometimento exigido pelo amor? Ou tememos as inevitáveis atualizações que ele nos ocasionará? Tememos abalar as individualidades tão recentemente adquiridas (em termos históricos)?
''O amor não prende, não aperta, não sufoca. 
Porque quando vira nó, já deixou de ser laço...''
Mário Quintana

Um encontro sem amarras, sem pressão, respeitando profundamente nossa verdade e a do outro... Talvez gostar seja o vislumbre possível pro nosso hiato hoje. Falar, pensar, citar o amor hoje nos exaure. Estamos por demais virtualizados. E o amor pede realidade concreta! Gostemos então! Pode ser embrião de muitos outros sentimentos... Importa não escorregarmos na ilusão do acoplamento ontológico comprado do romantismo... É lícita essa necessidade de nos sentirmos especiais, muito especiais pra alguém? Deveria bastar-nos sermos especiais pra nós mesmos? Queremos ser o grande amor da vida de alguém? Queremos um grande amor? Existe pequeno amor? 

  "O curso do verdadeiro amor nunca foi sereno".
Shakespeare 


E daí vem o Neruda com essa: "Se sou amado, quanto mais amado, mais correspondo ao amor. Se sou esquecido, devo esquecer também. Pois o amor é feito espelho: tem que ter reflexo." Complicado! O espelho, por vezes, embaça e não enxergamos o amor que sentem por nós, nem o que nós mesmos sentimos. E muito menos percebemos quando acabou... E passamos do ponto.
"O amor me dá medo, me deixa burra".
Simone de Beauvoir

No dicionário, sobre o verbo namorar se diz: "Fazer galanteios amorosos. Procurar inspirar amor". A wikipédia diz que o namoro é uma vivência com um grau de comprometimento inferior à do matrimônio. Hum, será? E que, a grande maioria utiliza o namoro como pré-condição para o estabelecimento de um noivado ou casamento. Mas será o namoro, necessariamente, a fase anterior? Não pode ser o estado das coisas? Coincidentemente, hoje é dia dos namorados, na falta de palavra apropriada, e talvez, na contramão das minhas elucubrações anteriores, meu coração te pergunta: Você quer inspirar amor comigo?
" O melhor relacionamento é aquele em que o amor 
de um pelo outro é maior do que a necessidade 
de um pelo outro". 
Dalai Lama
Namastê

Anasha

Encontrei essa critica ao filme Drive, que faz as referências a outros do gênero, aponta qualidades e conclui tratar-se de "puro fetiche", afirmação com a qual concordo. Minha intenção aqui é  complementá-la com o olhar feminino sobre e no filme.


Drive tem uma estética bem anos 80, e vale especialmente pela interpretação de Ryan Gosling, já que o roteiro é meio insosso e não traz surpresas. Desde sua brilhante atuação em "O diário de uma paixão" (um dos filmes de amor mais bonitos dos últimos anos), o ator vem se mostrando um dos melhores da nova safra. Destaco ainda a personagem da mocinha do filme (interpretada pela atriz Carey Mulligan) a única mulher que tem voz mas não a usa: Se cala, perplexa, paralizada, na total incompreenssão diante do misterioso e violento universo masculino. Tocantes as cenas onde seu olhar expressa muito mais do que as palavras poderiam. Num misto de desejo, medo e falta de sentido, talvez seus olhos aguados e desesperadamente brilhantes, traduzam a mulher diante da brutalidade, do ódio e da violência, que, muitas vezes, mora no homem, e vem à tona sem aviso e de forma descompensada e desmedida.  

Forte e emblemática é também a cena onde o herói invade o camarim de uma casa noturna, onde há mulheres semi-nuas, com seios à mostra. Mulheres de uma beleza tão perfeita, que parecem feitas de cera. No entanto, estão totalmente imobilizadas diante da pancadaria e do sangue que come solto ali. Belas e estáticas como manequins. O feminino é enfeite/objeto/fetiche no universo do homem, assim como os carros, as roupas e as diferentes e inesperadas formas de matar/machucar. Neste cenário, o revolvér é objeto antiquado e nem aparece, ainda assim, a matança é sangrenta. Mas, o metal, forjado no fogo e tão representativo do universo masculino, aparece em facas, punhais, gancho e martelo.

Vencedor em Cannes como Melhor Direção para o dinamarques Nicolas Winding Refn, certamente um filme que toca muito o imaginário dos homens, mas, talvez não diga muito as mulheres. De algum modo, ele guarda sua beleza.

Duas curiosidades: Albert Brooks, figura hilária de muitas comédias dos anos 80, faz o papel de um bandidão da pesada (maculando meu imaginário anterior sobre ele). E o filme parece ser uma refilmagem de um sucesso de James Dean, como mostra a imagem abaixo. Chequei, mas não consegui confirmar.



Namastê
Anasha

Escrevo sob o impacto do filme Another Earth. Muitas lágrimas e emoções, vindas, certamente, da Outra Terra que há em mim... Hoje, é disso que o filme falou, pra mim. Amanhã, com certeza, será uma nova leitura, já que se trata mesmo de um grande filme, com um grande tema, amplo, profundo, quase indizível. Uma obra de arte dessas que nos conduz, de um modo muito visceral, às grandes questões da existência: Morte, Amor, Culpa, Reparação, Transformação, Impermanência, Beleza... O filme mostra como aquilo que há de mais vivo em nós só se faz visível nos momentos de profunda morte. 

O diretor Michael Cahill, denomina-o como "um drama de ficção científica indie épico minimalista", talvez tentativa de alargar o conceito do filme, realmente amplo nas questões que aborda. A história gira em torno da descoberta de um novo planeta, uma espécie de Terra duplicada, onde tudo daqui é reproduzido e espelhado, inclusive nós todos. Uma missão é montada e pessoas se candidatam a viajar até lá, exumando perguntas ontológicas, que, de fundo, podem resumir-se numa única: O que eu diria/faria ao encontrar comigo mesma? Se houvesse esta possibilidade, eu gostaria muito de me olhar com o carinho, condescêndencia e curiosidade com que olho o outro. E sob privilegiada perspectiva, e percebendo, profundamente, minha beleza e meus dons, me apaixonar perdidamente por mim... E cessaria a divisão. E viveria, finalmente, numa única terra... Enfim, A Outra Terra me fez viajar.

Os protagonistas sofrem perda irreparável: Ele, a família, ela, a garota que fora antes de causar o acidente fatídico que matou a família dele. Interessante acompanhar os trajetos internos de ambos, em meio a paisagem externa sempre nublada. Seria metáfora da falta de sentido da vida? Desses momentos quando os matizes das cores entram em greve e tudo se faz e se vê insosso, sem sabor, sem vida? O cinema tem dessas coisas... Os dois são lançados ao duplo em si, já e sempre presente, mas até então, invisível (ou visível em sua analogia com o planeta que veem a olho nu tão próximo da Terra). A sombra, o obscuro e desconhecido, é trazido à luz juntamente com a própria luz, a mais límpida e sagrada que guardavam escondido na Segunda Terra em si... Ela, do choque e da culpa, e ele, do choque e do ódio, alcançam, por caminhos internos distintos e misteriosos, o amor. E, talvez só tenham alcançado porque não o buscaram, já que o amor enredou-os, costurou-se neles a partir do umbigo de uma outra Terra...

Também interessante e, de novo, constrangedor, acompanhar a dicotomia amor-ódio no protagonista, que se vê amando (sem saber, numa espécie de cegueira simbólica) aquilo que acreditava mais odiar: A pessoa que matou sua familia. Assim, a lógica e a razão acusam sua própria insuficiência exumando os mistérios da vida e do próprio amor... 

Mas o personagem mais interessante do filme é mesmo o faxineiro indiano, Purdeep, cego (realmente) e também muito sábio, de uma sensibilidade absurda, capaz de sentir e perceber para além do conhecido. No desenrolar da trama ficamos sabendo que sua cegueira foi causada por ele mesmo (Cansou-se de se ver em todo lugar), assim como a eminente surdez, já que ele joga alvejante nos ouvidos tornando-se surdo. Numa das cenas mais belas do filme, vemos que, ainda assim, ele segue, para sua agonia, vendo e ouvindo, de outros modos, exalando o perfume sutil dos sentidos escondidos por traz dos sentidos... 

E você, o que você diria pra si ao encontrar consigo mesmo(a)? 

Segue o trailer do filme:http://www.youtube.com/watch?v=N8hEwMMDtFY

Namastê

Anasha


Entrei no avião feliz. Sempre que entro assim penso que se morrer, vou sem amarras e viro luz! Tem um lado meu prestes a morrer... Posso conduzi-lo numa morte tranquila ou dolorosa. Como conduzir a própria morte? Fiquei em dúvida: corredor (praticidade, racionalidade) ou janela (liberdade, visão)? Lembrei do céu e escolhi janela. Sentei bem na saída de emergência, o que me fez pensar que na vida sempre há uma saída de emergencia... O cara explicou como usá-la e algumas vezes me imaginei abrindo-a e me lançando no ar... Queria ficar plainando... Quanto tempo eu levaria pra chegar ao chão? Queria que fosse uma queda lenta... Tenho preferido tudo de modo mais tranquilo, sem pressa... Que o que tem que morrer, morra, mas sem grandes confusões...

Saí de Brasilia com o pôr do sol rosa me desejando boa viagem. Depois, pouco antes de pousar, vi o nascer mágico da lua. Pedi que ela me conduzisse com amor nessa nova velha terra... Que meus pés pisem firme mas deixem o coração guiar... Pedi ainda que levasse um tanto do medo...  Acho que ela esqueceu... Lembrei de uma música que a Mariana Baeta canta em seu espetáculo:

"Onde é que teu medo dói? Onde é que o teu medo dói?
Menina, se queres, vamos, não se ponha a imaginar
Quem imagina cria medo, e quem tem medo não vai lá
O céu, céu, céu, azul sereno
Oi céu me leva para os braços de um moreno".

Imaginei demais e a expectativa é mesmo uma merda.
E entre o virtual e o presencial mora um abismo
E no seu escuro, o nosso encontro...
Escondido entre o ontem e o agora
Entre o hoje e o amanha?
Só se eu permitir o salto na escuridão da noite...

Falta alguma coisa... Segurança!
Incluir um pára-quedas na cena da queda seria bom...
E esse equipamento tem que ser meu, inventado das entranhas,
ou é o outro quem me entrega?
Se me jogo com o dele ou com o meu faz diferença?
Claro que faz! Pularia com o meu.
Importa mais que ele me ofereça um, mesmo que eu nem use...

De todo modo, estou agora na cama elástica, que, de algum modo, me aparou... Aconchegante, acolhedora mas desencontrada de nós... Do nós passado... Talvez possa vir a parir um outro nós, de agora... Só se eu permitir o salto na escuridão da noite...

Mas quem é essa que acredita que tem mesmo a decisão nas mãos? Que decide mesmo alguma coisa? Mudança de direção: prefiro ser empurrada porta a fora, vôo a dentro, radicalmente, no susto... Hum, não foi nada bom imaginar assim... Sigo imaginando, ai de mim! E lembrei de uma música, cantada por Mariana Aydar:

"Eu não escrevo pra ninguém nem pra fazer música
E nem pra preencher o branco dessa página linda
Eu me entendo escrevendo e vejo tudo sem vaidade
Só tem eu e esse branco, ele me mostra o que eu não sei
E me faz ver o que não tem palavras
Por mais que eu tente, são só palavras
Por mais que eu me mate, são só palavras"

Namastê

Anasha
São Paulo, 08/06/2012

23.5.12

Poema de um mês

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É amor ou paixão?
Pergunta a voz da razão.
Importa?
Pergunta a menina marota.
Que nada!
Diz a velhota safada.
Mas e aí?
Bota pilha a ansiosa.
Então é o que?
Paimor ou amoxão!
Responde a da mediação.
Uma mistura boa dos dois!

Da paixão tem a quentura
O corpo que memorizou o dele dentro de mim
E não esquece. E só de lembrar,
Repete, repete, repete...

Do amor tem a liberdade
De querer o bem e a felicidade
Independente de se estar na
mesma cidade, na mesma viagem...

Hoje faz um mês
Que tô de amor esparramada 
Me sentindo acompanhada
De mãos dadas

E se for uma grande loucura,
Aproveito a eternidade enquanto ela dura!


Namastê

Anasha

15.5.12

Sopa de letrinhas

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Há momentos em que a vida se mostra como uma sopa de letrinhas. A gente mexe a panela, pega um punhado com a colher e tenta, ver ali, naquele fragmento do todo, que palavra dá pra formar... Amor? Liberdade? Companheirismo? Escolha? Foco? Entrega? Confiança? Paixão? Medo? Desejo? Casamento? Mas antes da palavra, existe o movimento, o passeio aleatório das letras na água...

Outra boa imagem pra esses momentos é a da Roleta Russa. Eu me sinto literalmente no meio do giro, girando, um giro lento e contínuo, que quando parar, vai apontar direitinho o meu novo lugar nessa roda. Acho que girei essa roda há anos atrás, e só agora, talvez, eu colha meu novo número nela. Mas antes do número há o giro, inevitável...

Difícil estar no lugar da roleta que gira. O giro tem lá seu êxtase, seu regozijo, sua liberdade, mas, se durar tempo demais, pode virar agonia - sentimento antigo. Lembrei agora das palavras daquela que foi minha melhor professora de Teoria Teatral, que, à época de minha primeira agonia aqui postada, respondeu-me o seguinte:

“Lembrasse você de suas aulas de teoria teatral e saberia que AGONIA, vem de AGON: conflito. O anta-agon, antagonista, e o prota-agon, protagonista, carregam o conflito gerado pelas forças opostas. Não é nada demais... embora mate. Mas, faz parte da vida e suas eternas polaridades. Nenhuma melhor do que a outra. Aceite apenas”. Marcela Hollanda

Mata porque o universo ali é o da tragédia, que sempre acaba em tragédia, claro! Algo vai morrer pra que outro algo possa nascer... A vida é trágica mas pode ser também tragicômica, se pudermos rir de nós mesmos, e não levar a coisa tão à sério. Bom, é justamente aí que a porca torce o seu rabicó. E o protagonista pode vir a sucumbir a hybris, conceito grego traduzido como "tudo que passa da medida; descomedimento”, e que, atualmente, alude a uma confiança excessiva, um orgulho exagerado, presunção, arrogância ou insolência (originalmente contra os deuses), que, com frequência, termina sendo punida (Contribuições do Google).

Hybris tem a ver com falta de controle sobre os próprios impulsos, um sentimento violento inspirado pelas paixões exageradas... Esse povo que não aceita o lugar do giro e interfere parando a roleta na marra. Hoje tenho consciência de que já fiz muito isso, me achando Deus, interferindo no interferível (essa palavra existe?), indo contra a maré natural das coisas, impaciente e ansiosa... 

De novo, tô aqui, roleta! Venci a ansiedade? Que nada, mas aprendi a submeter-me, mesmo ansiosa, ao movimento da vida. Giro no vazio quântico das possibilidades, muitas delas, geradas por mim mesma... O mais sábio a fazer agora é nadar na sopa de letrinhas, um nadar livre, profundo, renovador, sem nem me dar conta das palavras... E fazer do girar da roleta uma dança, uma dança reconfortante, que fortaleça o centro desse meu corpo-mundo-fêmea... 

E vai que nenhuma palavra se forme da sopa. E vai que a roleta pare no vazio. Vale o nado e o giro! O resto é tragédia ou comédia!

Namastê

Anasha