Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!

24.6.05

Da Crisálida

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Ei,vem cá. Vem cá todo mundo!
É chegada a hora de cessar o lamento
De tirar o lenço e balançar ao vento
Acabou o tempo de interpretar!

A lavadeira chorona, a velha das galinhas, a menina moça, a doidinha,
A pobre coitada, a curandeira, a rameira, a rezadeira... Esse povo todo surgiu de trás das cortinas do tempo, de trás dessa pele fina, que recobre nossos seios, nosso ventre, nossa língua... Esse povo que saiu da memória celular, muscular, sei lá. De muito longe, de tão perto, tão incerto. 


Corpo de memórias, de lembranças primitivas
Do início da vida
De antes da mulher que veio do barro
Do tempo da mulher que veio primeiro

Nesse tempo do sonho, onde tudo é possível,
Foi feita uma reunião
Com as mulheres originais:
Nossas ancestrais!

Guardiãs do passado, que se faz presente na gente
Passado que sem o novo vai virar futuro
Porque já se sabe: se o novo é impedido tudo é repetido.
Por isso a reunião!

Saber o que se deve guardar e levar consigo
E o que é velho por demais, carcomido
Separar o joio do trigo
Matar o que deve morrer
Dar a vida ao que vida possui

Foi no tempo do sonho
Que nós, mulheres modernas, de computadores, diplomas,
Carros, freezers e microondas,
Mergulhamos nas nossas crisálidas de tecido
Nas colchas que formam nossas vidas
Costuradas pelas antigas

Cada retalho escolhido, cada fio repartido,
O jeito de distribuir as cores, os amores,
O modo de abrir ou fechar as pernas, de fechar ou abrir o coração,
Tudo isso foi traçado pela mão, pelo pé, pela pele, pelo corpo da mulher.
Nossa maior jóia
Lapidada pelas mulheres mais importantes da nossa história
Nossas mães, avós, bisas, tatás, quintas-vós
E a toda a mulherada,
Obrigada por tudo o que vivemos nessa jornada!

Texto escrito durante o processo de criação do espetáculo "Crisálidas"

Era uma vez
O beijo, o abraço, o carinho, o contato
Da menina
Que ela dava, despejava, distribuía
Entre todos que bem queria

Mas aí um dia... Ih, tem sempre um dia
Acontece alguma coisa que acaba com a folia:
A mania tão bonita da menina
Foi considerada errada, perigosa, proibida!

(Os outros)
“- A menina tá crescendo, já é quase moça feita. Melhor parar agora ou sua vida tá desfeita!”

(Outros outros)
“- Coisa mais fora de hora, constrangedora, ficar distribuindo carinho assim dessa maneira! Pode não! O que que os outros vão pensar dessa esfregação?”

(Menina)
“- Eu nunca vi dessa maneira. É só meu jeito de gostar, de ficar perto das gentes que quero perto a vida inteira!”

(O maior de todos os outros)
“- Besteira , bobage, lesera! Pode não, e tenho dito! Não se pode ser assim com qualquer um. Você há de aprender: Nessa vida tem UM alguém certo que há de ser seu bem querer.”

(suspiro longo da Menina)
“- Um? Mas eu bem quero a tanta gente! Por que só um escolher? Os beijos e abraços saem de mim sem me dizer. Eles é que escolhem seu rumo. Eu só deixo acontecer!”

(O maior de todos os outros)
“- Chega dessa conversa. Não pode mais e pronto!”

De fato, ninguém disse nada.
Mas pensaram.
E pensamento é coisa forte
Faz guerra, cria intriga, confunde e muda vida de menina.
Ela aprendeu a segurar os seus impulsos.
Cada vez que eles vinham ela tratava de engolir. 
Mas, sem conseguir digerir, lhe subiram à cabeça.
E invés de abraço e beijo, ela pôs-se a falar à beça.
E tudo virou blá blá blá.
Falaçâo pra agradar 


Muito tempo se passou.
Ela virou mulher feita, dona da própria vida.
Podia fazer o que quisesse com aquela sua mania bonita.

(longo suspiro da Mulher- menina)
“- Ah! Mas logo agora que o coração subiu pra cabeça e se esqueceu de descer?”
E chorou baixinho um choro antigo pra ninguém ouvir.
De saudade da menina que beijava e abraçava a vida!

Muito tempo depois, num quarto pequeno, sozinha
Bem velhinha, ela fez foi morrer...
Mas antes, um minutinho antes, da Vida lhe escapulir
Ela cerrou os olhinhos, se abraçou apertado e se deu um beijinho!

(Velha-menina)
“- Eu me lembro da menina. Sinto-a dentro de mim. Vou me embora junto dela, eu nela e ela em mim”.

Morreu, com sorriso nos lábios

Á noite, no cemitério onde foi enterrada, ouvem-se gemidos e estalos.
De beijos e abraços.
Dizem que é ela, a menina-velha
Que vai, de cova em cova, beijando e acarinhando
Cada um dos ossos dos mortos, ali enterrados

Essa história faz lembrar: um dia a Vida se esvai
E o que se leva da Vida
É o resultado dessa mania bonita
De se querer por demais.


Como cuidar do outro se não temos tempo para cuidar de nós mesmas? Como olhar o outro com carinho e respeito, se o nosso olhar sobre nós é demasiado crítico e negativo? Para responder a essas e a outras perguntas, a solidão é fundamental. É nesse momento de “crisálida”, onde, fechadas em nosso casulo, refletimos sobre nossos sonhos, planos e verdades mais profundas. Desse mergulho na escuridão preenchedora, saímos mais íntegras para viver então a “fase da borboleta” - quando estamos no mundo e para o mundo. Mas sem a integridade alcançada na crisálida, facilmente nos perdemos, nos vendemos, nos traímos.

Quando dedicamos um tempo para moldar a argila, estamos nos refazendo. Afinal o corpo da mulher reflete uma verdade da existência: tudo está sempre em transformação. É bom permitir que os seios, o ventre, a bacia, a vagina se expressem através da argila. Sem preocupação com o resultado, o que importa é o processo de criação. È permitir uma expressão mais fluida, e por isso, profundamente relaxante. Assim criamos espaço para ouvir uma outra voz, mais instintiva e visceral: a voz do corpo que nunca mente!

E se “não temos tempo”, vamos então aprender a aproveitá-lo melhor! Prolongar a hora do banho com uma auto-massagem carinhosa, passar um bom creme no corpo com carinho, colocar uma música gostosa e dançar enquanto fazemos as tarefas da casa... O que importa é criar momentos gostosos para ouvir e respeitar a voz do corpo. Só assim poderemos moldá-lo de acordo com nossas necessidades mais profundas. Afinal, se somos a argila, somos também as artesãs que moldam sua forma. E se não gostamos dela, basta desmanchar e tentar outra vez. Taí outra grande verdade da vida!

Desde muito cedo o teatro se apresentou como uma mandala capaz de me reconduzir ao centro, e assim como a psicologia, sempre me fascinou. Felizmente minhas duas paixões possuem profundas interfaces. 

Lembro da comunhão que se estabelecia quando, com seis ou sete anos, parentes e vizinhos, assistiam ao meu teatro de fantoches. Momento mágico onde eu demonstrava carinho por aquelas pessoas, estreitava vínculos, esboçava teorias em relação ao mundo, provocava, e me sentia feliz com a cumplicidade e as gargalhadas. Íntegra na ação de representar outros “eus” em mim, eu me alargava, criando espaço interno para o novo, para o lúdico, para o mágico. Sobretudo, eu era pertencente e co-atuante daquela comunidade e descobria assim a minha função nesse mundo.

Na universidade, a prática tradicional do teatro transformou o jogo dramático livre da infância num jogo em busca do “melhor desempenho" (em relação a um ideal bastante objetivo e rígido até). À época, relacionei tudo isso ao texto dramático (o discurso alheio) . E na busca pelo meu próprio discurso, reconheci na criação cênica em campo mítico-pessoal um caminho autêntico e libertador, que me permitiu não apenas falar sobre temas conflitantes, mas vivê-los simbolicamente, para compreendê-los e transformá-los. Abriu-se assim uma janela por onde entrou novamente a menina que brincava a vida!

A partir de 1994, passo a utilizar o termo “Umbigo de Eros”, como representação simbólica desta busca, onde o Teatro é religare ao Umbigo (centro) e ao Eros (amor), religando-nos ao Deus em nós (Self). Até 2000 está pesquisa desenvolveu-se solitariamente, através da criação de monólogos. A partir de 2000, além de atuar, passo a dirigir espetáculos e a ministrar oficinas, em especial o Ateliê para mulheres, buscando acessar o “umbigo de eros” neste contexto.

Desse período curto mas intenso, surgiram novas perguntas que me conduziram até a Psicologia Junguiana, hoje, suporte teórico e prático desta proposta expressiva onde o jogo teatral é ponto de equilíbrio, físico, emocional e até espiritual. Ao mesmo tempo em que nos mergulha nas inquietações mais profundas do ser humano, o teatro é uma brincadeira, um “fingimento” profundamente sentido e verdadeiro. Nesse paradoxo, as palavras se confundem, e, teatro, terapia, jogo, ritual e cura parecerem sinônimos absolutos. A única certeza que tenho é que “jogar teatro” nos faz pessoas melhores!

Mais uma vez escrevo para compreender, reunir e organizar inquietudes, desejos, medos e frustrações. Escrevo para compartilhar e para realizar o meu sentido aqui e agora, assumindo novamente o papel libertador e imprescindível de aprendiz. Escrever é descobrir novos caminhos. Mas a ação, qualquer que seja, pressupõe o risco do fracasso. Chegou o tempo de errar, e principalmente de me libertar do acerto!

(texto de introdução da tese "Teatro e terapia: A utilização de aspectos da Psicologia Junguiana na pesquisa teatral em campo mítico-pessoal, FACES/Ibehe 2005) 

1.9.03

O menino Criador

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Era uma vez um menino que gostava muito de bicho
Só que lá onde ele morava, que era um lugar bem redondo
Não tinha bicho nenhum.

Então ele passava o dia era sonhando
Sonhava com o jegue, o galo, a galinha e os pintinhos.
O jegue, o galo, a galinha e os pintinhos.

Esses bichos ele conhecia. Desse sonho que ele sempre tinha.
Tá bom, tá bom. Conhecia também as minhocas
Os caracóis, os cascudinhos, as lagartas, as libélula
Os bezourinho

Mas bicho grande, de pele, pêlo, carne e osso?
Desses ele nada sabia. Elefante? Nem pensar!
Em sua memória não cabia.

Mas a vontade era tanta, de cheirar, brincar, correr
Pular com os bichos, que o menino resolveu:
Ele mesmo faria os bichos que tanto queria!

Pegou uns trapos com a mãe e a cola que o pai fazia
Os gravetos ele mesmo conseguia
Tudo arranjado, partiu pra criação: Blão!
Primeiro veio o jegue, assim todo dengoso
Com uma carinha de bobo
Quando viu o bicho o menino enlouqueceu!
Subiu no lombo do burro que pulava pra lá e pra cá
Eitá. Eitá. Eitá!!!
A alegria era tanta que até as árvores
Começaram a pular

Mas cansado dessa agitação
O menino agradeceu o jegue por ter lhe ensinado
A mexer o corpo com satisfação e partiu pra nova criação

Dessa vez criou o galo todo pomposo
Com cara de Rei do Terreiro
Ele deu logo um ”cocorejo” que o povo se tremeu de medo!
Com seu amigo galo o menino aprendeu a soltar a goela
A cantar para alegrar a galera
Mas tomando cuidado pra não ir parar na panela!
“Cocorocó, cocorocó! Quiquiriqui”!

Ih!
Quando a voz enfraquecia alguém logo lhe dizia:
“Isso não é e nunca foi canto de galo
Esse assim, de ladainha, é cacarejo de galinha!”.
Cocó, cococó!
E foi assim que veio ao mundo
Junto com um montão de pintinhos
A serelepe galinha, ciscando pra lá e pra cá
Ela ensinou o menino a na Terra desenhar
Cisca-rabisca, cisca-rabisca!

Bichos ele já tinha vários
Mas como num quebra-cabeças
Dessa tal felicidade, parece que sempre falta uma peça
O que será que ta faltando pra completar a felicidade do menino?
Ah, é o ovo! “Mas ovo não é bicho!”
“Mas é claro que é!”
“Se não é, um dia há de ser. Então já é, né?”

Passada essa discussão, o menino criou o ovo
Seu último bicho de estimação.
Ai,ai,ai! Mas antes tivesse criado não!
Um dia o ovo rachou e de seu dentro saiu
Coisa que nunca ninguém viu.

Era um, era um, era um... Era um cú! Um cú sim senhor!
Ou fiofó, se ocês achar mio. Um sujeitinho atrevido e safado
Só fala besteira o destrambelhado!
Ah, mas o menino resolveu olhar lá dentro, no fundo
Mas tinha um entupimento bem na porta do dito cujo:
“Saí daí, sai da frente ô que eu quero ver tudo nesse interior!”.
Ele pediu, ganhou! Uma bomba de cocô
Explodiu bem na cara do provocador
Aí ele foi elegante. Limpou a merda de um olho
Limpou a merda do outro. E seguiu adiante

Olhou, olhou, olhou. E viu o coração!
Tava batendo num compasso feito samba canção!
Viu também a língua, a goela, as tripa...
“Eitá, tem um nózinho engraçado!
É o umbigo seu moço. Tá doidinho pra ser desatado!”

Pois o menino foi lá e desatou. Desatou a rir
E a falar muita besteira: “ Peido, côco, meleca,
Pinto, bunda mole, Vômito e xereca!
Peido, côco, meleca, Pinto, bunda mole,
Vômito e xereca!”

E quanto mais falava, mais ria
E a barriga já doía, mas o vício da porcaria
Já lhe tinha tomado inteiro!
A vontade do xixi apertou e foi aquele piseiro
Foi mijo pra tudo quanto foi lado
E desse mijo abençoado o milho brotou!
Já nascia feito pipoca, poca, poca, poca.
E toda aquela bicharada se alimentou.

E tomado desse desatino o menino foi subindo,
Foi subindo, foi subindo... E avoou!
Foi se embora pro Céu pra junto de nosso senhor
É que o céu andava triste, sem graça
E o menino alegrou: Inventava bicho, imitava,
Cantava, desenhava, dançava, corria, peidava
E fazia tanta tonteria que alegrou foi todo mundo
Desde São Pedro até Nossa Senhora da Abadia.

Essa história é pra lembrar
Que nas coisas de Deus, nas coisa do Amor
Nas coisa da Vida, tem que ter irreverência
Brincadeira!
Não se pode levar as coisa assim tão à sério
Se não a alma da gente esgarrrrrrça
Que nem um pano véio!

(O texto acima nasceu a partir de processos de auto-imersão, utilizando imaginação ativa e outras técnicas para acionar conteúdos inconscientes a partir da pesquisa “Umbigo de Eros”. Hoje é encenado dento do espetáculo “Contos do Interior”).

O Setor Comercial Sul, de Brasília, das 9h30 ao 12h em 26/8/2003...

Pesquisa de campo pra um espetáculo... Ando por aí meio sem graça, tentando encontrar um jeito de estar sem ser. Uma pedinte vem em minha direção: “Ô fia, me dá um dinheiro pra me ajudar. (Me olha nos olhos e sorrimos juntas). Ao menos 50 centavos. Fazer um lanche!” Eu respondo: Ô, tenho não! Rimos e nos vamos. Ela com andar trôpego e a mão direita no ar, pra equilibrar... Parecia bêbada mas não estava.

Por toda a parte, homens vestidos de terno e gravata surrados, carregando maletas, cabelos ensebados, rostos brilhantes. Vendem ouro, apólices de seguro e sabe lá o que mais, tentando fazer a mimesis dos grandes executivos...

Sentado na passarela/escada, há um senhor negro, vestido em tons de cinza: Chapéu, paletó aberto, camisa listrada, calça e havaianas pretas. Está sentado com uma perna dobrada e a outra apoiando o cotovelo cuja mão chacoalha uma pequena bacia de metal com moedas. O barulho substitui as palavras. Basta mostrar a bacia! Com a outra mão, fuma um cigarro forte e fedido. A mesma mão que segura sua bengala. Tem ainda uma sacola branca pendurada ao pescoço. O fundo musical dessa região é bem gospel. Um cara tem tudo montado ali. Vende CD’s e sonoriza o SCS.

Vejo uma moça nova, uns 20 anos, sentada no chão com duas crianças: uma bebê e outro de uns 3 anos. Eles brincam com encartes de supermercados. Sento quase em frente e disfarço. Me sinto mal por estar observando essa miséria pra transformar em Arte... Ela amamenta o bebê enquanto espera a esmola de um homem de Rybam. Ele demora pra encontrar. E quando encontra lhe entrega uma moedinha. O menino se afasta um pouco, e olha seu xixi que cai no fundo do bueiro. O xixi termina e ele continua ali, como que em êxtase.

Susto! No capô de uma belina branca, de Valparaiso de Goiás, há um saco cinza de onde se vêm saindo quatro pernas humanas! Me aproximo: são manequins. O carro está em frente a galeria CAL, e eu nem sabia de sua existência. No vidro, há uma frase legal: AS IMPRESSÕES NO CHÃO DA CIDADE ESTÃO QUEIMADAS NAS RETINAS E FIXADAS NAS MENTES DE QUEM VAI E VEM.

Na Galeria percebo que não sou a única escrota nas artes. Um painel com fotos de peitorais masculinos sarados – fotos retiradas da internet. Arte! No outro canto, até me emociono: Há um vestido de renda branco, pequenino, e na altura do coração pisca uma luzinha vermelha. Na parede próxima uma foto (montagem?) de uma bebê (boneco?) num clima de morte e velório. Parece morto! Ai, ai... São 10h45. Há mais pessoas agora e a tendência é aumentar. Jovens vestidos de adultos carregam pastas, celulares, tentando vencer a síndrome social do Puer Eternus. Como todos nós! Na lista de presença vejo nomes conhecidos. Imagino todos eles passando pelo SCS, cheios de nojo! Projeção!

Século 21 e o lema ainda é: Vigiar e punir! Caras do Detran, andam por todas as ruas, multando carros que estão estacionados em lugares onde todos nós estacionávamos há um mês atrás. VAGA Fácil! Onde estarão os flanelinhas? Talvez tenham sido incinerados a mando do governador. Eram tantos e não há nenhum! Esse lugar é estranho sem eles. “Vigia aí, dona?” Frase em extinção! Lembrei agora da Terra dos meninos Perdidos, do Pinóquio. A promessa da felicidade, sem os adultos por perto. Todos felizes dentro do caminhão. Será que os flanelinhas foram seduzidos assim para a morte? Delirius burguesis!

Dos novos produtos do comércio de rua, a mais esdrúxula novidade, são perfumes vendidos em bandejas de isopor cobertos com plástico transparente, como frutas! Cheirar, nem pensar! “Olha o vale. Olha o vale! Cartão pra celular! Cartão pro orelhão! (chavão da mulher, vendedora de meias coloridas)

Iniciei alguns papos comerciais tipo “Quanto custa? Bonito, heim!”, mas não consegui desenvolver o assunto. Pensei em me travestir de pesquisadora e argüir sobre problemas no comércio de rua. É sempre mais fácil ser outra! Numa loja, ouço:
-          Bom dia gente. Eu tô na correria aí atrás de emprego. Será que não tem uma vaga aí? Eu trouxe o meu currículo!
-          Deixa aí, mas agora não tem nada não.
-          É que eu tô na precisão. Minha filha tá doente. Eu faço qualquer serviço. Me dando um salário, eu faço qualquer serviço”.

No orelhão uma mulher ao telefone é esperada pela filha na cadeira de rodas – Sarah – Reabilitação Infantil. A vida é frágil! “Vale e tique! Vale! Vale!” Me sento. Já deve estar perto da hora marcada. Sento pra descansar. “Moça, posso te fazer uma pesquisa? É rápido. Só cinco minutos: Quantas televisões, freezers, geladeiras, vídeo cassete, banheiro etc, a senhora tem em casa? Dos produtos que sua mão usava, qual te vem à mente?” Bombril!!! “Como você se sente usando esse produto?”Eu adoro, me sinto super realizada. Bombril pra mim é tudo! A moça fica feliz com a resposta e me mostra fichas, quadros, tabelas e por fim devo colocar as fichas com adjetivos (de gente) nas tabelas referentes aos produtos:  MINUANO   OMO   BRILHANTE  PINHO  SOL   IPÊ     MON BIJOU. É uma pesquisa louca! Delicada, idealista, sensual, confiável, decidida, discreta, carinhosa, ambiciosa, agressiva, dependente, apagada, arrogante, fútil. E eu me pergunto: Se Pinho Sol é fútil, eu seria o quê? No início, tento criar uma lógica. A mulher tá colada em mim. Oba! Pintou outra freguesa. Aproveito e espalho aleatoriamente as fichas pela tabela enquanto anoto alguns adjetivos no caderno. Acabou, né?! Me levanto decidida.

Olho pro estacionamento e não vejo a Kombi. Ué? Ando mais adiante e nada. Que estranho! Vou até o orelhão. Nada! Não aceita ligaçâo a cobrar. Outro e nada! Oba! Cartões telefônicos. Não dá. Que absurdo: Quatro reais o mais barato. Eu só tenho 3 reais. Outro orelhão. Consegui! Caralho! Estou acima do local combinado e atrasadíssima. Me vem uma sensação infantil de “fiz merda e vou levar bronca". Puxa, depois de me divertir tanto! Vou descendo a rua tentando criar uma cara menos culpada. Chegando lá, estavam putos, claro, mas não demonstraram. Que bom, uma bronca naquele momento estragaria o resto do meu dia! Se bem que lá pelas tantas ouvi: “Já era de se esperar!” Que fama! Sabe, talvez aos 32 anos eu deva mesmo aproveitar essa fama e deitar e rolar na cama. Doido pode tudo!  

24.5.03

A Moça Redonda

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Era um vez... Uma Moça. Redonda, redondinha.
Cheia de tudo que existe. De tudo o que há de existir.
De tudo ela se enchia. Tudo o que via queria engolir.

Foi assim que arredondou. Por tudo que devorou.
Mas o seu redondo, não era feio não.
Era lindo, muito lindo, de doer o coração!

Mas aí um belo dia, depois de tanta comilança
Tudo o que devorou começou a lhe escapar da pança.
Assim sem explicar.

E cada coisa que engoliu,
Uma a uma, De dentro dela saiu.
No início ela olhava atenta. Fitava tudo admirada.
Cada coisa que saia parecia muito mais incorpada
Mais bonita, colorida do que quando devorada.

Mas tudo foi lhe escapando tão rapidamente
Que o redondo da moça foi ficando murcho, disinchavido. Xiiiiiiiiiii...
Esvaziou. Quase que definhou.
Aí a saudade bateu, aquela dor de quem já teve e perdeu
E a inveja de dentro dela nasceu.

“Eu tô invejano, eu tô invejano. Me dá, me dá”.
Ela repetia, doída, perdida, sem parar.
A querença era tanta de ter o que já não tinha
Que a moça não teve saída.
Ou ficava ali a sofrer, ou fugia pra esquecer.

Pois fugiu. Pra dentro de si. Se encolheu no próprio centro.
Mergulhou na escuridão. Ficou lá se aquietando
Matutando, descansando.
E de repente sentiu algo lhe cutucando.
"Vichi minha nossa senhora! Tudo o que eu tive outrota, tá aqui,
sempre esteve, guardado na minha escuridão. Eu não perdi nada não!"

E parou de invejar.
Sentiu uma plenitude. Uma sensação de grandeza.
E feliz, pôs-se a dançar. E quanto mais dançava, mais feliz ficava.
A felicidade aumentano, ela foi arredondano, arredondando
Parecia que ia estourar.

Mas de novo, as coisa do dentro quiseram sair
E ela ficou quieta pra mó de sentir.
Foi sentindo, foi sentindo....
E o primeiro a sair foi... menino!
Saiu de dentro do peito!!!
E saiu mais menino, de tudo quanto foi jeito.

E a cada um que saia, ela dava de mamar.
Quer mamá nenê, quer mamá?
E rápido eles cresciam e pelo mundo foram se espalhar.
Pela Terra, Pelo Fogo, Pelo Água, pelo Ar.

Menino, meninoooo!?
Menino, volta, volta menino! Volta menino! Volta!
Meniiiiiino...
Mas menino não voltava. Porque a vida é mesmo assim.
Eles tem mais é que ir. E ela vai te de ficar.
Pra cuidar do que restou: Ela mesmo, ora sô!
Mas era isso que doía, porque ela não sabia, não sabia se cuidar.
“Cadê o outro, que sem ele, eu nem sei o meu lugar”.

E chorou, chorou muito.
Chorou lágrima branca. De leite do próprio peito.
E cada gota que pingava.Numa flor se transformava.
E das flor ela cuidou. Regou todo santo dia.
Com carinho e muito amor.
E o tempo passou, passou, passou. E a moça se cansou.
Da rotina, da labuta...até das flor.
E numa só lambida engoliu a todas elas!
E de novo engordou, arredondou.

O resto, meu povo, eu nem vou contar.
Porque essa tal moça redonda nunca pára de girar.
É um tal de enche e murcha, que nem dá pra acreditar.
Ela dança, gera e pare e depois quer devorar.
Mete de novo pra dentro, tudo o que acabou de criar.

Essa é a história da moça. Dessa e de todas as outras!!!
Eu sei que se conselho fosse bom, não se dava, se vendia.
Mas fique atento, seus moço com as mania dessas guria.
Tudo que é mulher é assim. Muda de jeito noite e dia.
Bruxa, amante, donzela, bonita, sábia, grávida, deprimida.
Menstruada, feliz, nervosa e aflita.
Tudo, tudo o nosso espírito se agita!
É assim que nós somos, seus moço.
E é assim que nóis tem que ser.
Que é pra vida se enriquecer
E ocês tem de larga mão de tentar entender.
Ocês tem é que nos viver!

(O texto acima nasceu a partir de técnicas para acionar conteúdos inconscientes a partir da pesquisa “Umbigo de Eros”. Hoje é encenado dento do espetáculo “Contos do Interior”).


Chapeuzinho vivia só com a mãe, mergulhada numa ingenuidade serena. Um dia a mãe pediu-lhe para levar algo para a avó, que morava além da floresta. Segurou firme nos ombros da filha e posicionou-a frente a si. Olhou fixa e profundamente bem dentro dos olhos da menina. A força-mãe, nos ombros-filha, estendeu-se até a boca que pronunciou veemente: Cuidado com o lobo! A frase ecoou bem lá no de dentro.

Como que enfeitiçada, sem dizer palavra, Chapeuzinho seguiu flutuando em pensamentos. O que seria um lobo? A mãe esqueceu-se da ingenuidade em que havia mergulhado a filha, mocinha... Em seu pequeno grande mundo interior, Chapeuzinho tentava decifrar o lobo. Será seu corpo quente? Poderia aquecer-me. Será sua pele macia? Poderia acarinhar-me! Será feio, bonito? Seguiu divagando, pincelando, encaixando e sobrepondo imagens num turbilhão de possibilidades. A cada imagem criada seu corpinho reagia involuntariamente queimando a fogueira.

Imaginar o lobo como que lançou Chapeuzinho num processo de auto-regulação. Ou seria auto-revelação? Tudo o que antes dormia, desabrochava em pequeninos e suaves choques elétricos. Presa a uma das imagens, a menina parou de caminhar e todos os pêlos se eriçaram. Arrepiou-se dos pés à cabeça. E como nunca havia sentido antes, ficou. Fechou os olhos. Aprofundou-se o respirar... Teve um orgasmo profundo, embora não o soubesse. E tudo "no seu dentro" derreteu-se num gemido fino e sensual, que ela também não sabia. Desmaiou. Seu gemido espalhou-se como perfume por toda a floresta estendendo-se até alcançar seu alvo-lobo. Entrou por suas narinas, tocou-lhe os lábios e dissolveu-se em sua língua como veneno. Ele cerrou os olhos. Salivou aquele sabor-sentimento e deixou-se levar até seu destino.

Chapeuzinho continuava mergulhada em si - corpo templo! Acionara outra realidade, negra, mágica, profunda. Há poucos metros dela, guiado pelo faro, posto que a visão nublara desde aquele som, o lobo caiu sobre quatro patas, e cego, foi até ela. Roçou levemente seu focinho gelado nos dedinhos de seu pé, que saltavam da sandália. Pôs-se a lamber um a um... suspiros dela. Ele então pôs-se a roçá-la ao longo das pernas, e subindo lentamente, empurrou o vestido da mocinha até o pescoço. Sentiu um cheiro doce. Roçou seu focinho, agora quente, num dos seus pequeninos seios. Sentiu-os desabrocharem como flor. Abriu a enorme bocarra e mamou aquele tenro seio.

Chapeuzinho estremecia inteira, queimava enquanto o lobo deslizava sua áspera e grossa língua por todo o seu rosto. Demorou-se nos olhos e num rápido movimento, deslizou até a calcinha de renda. Inclinou a cabeça, afastou-a com seu focinho fervente e meteu sua língua grossa "no seu dentro". Chapeuzinho lançou-se ao nada. Suas mãos antes catatônicas, apertavam a cabeça do lobo contra o próprio corpo. Queria engolir aquela língua, que ela não sabia assim. De súbito, puxou energicamente a cabeça do lobo para junto da sua. Sentiu a respiração dele sobre o rosto, seu hálito forte e envolvente... O lobo penetrou-a. E Chapeuzinho derreteu-se num grito que se espalhou além–terra, fundindo-se aos sons do mundo. De dois fez-se um! O lobo alcançou a mesma realidade negra. O corpo duplo arremessado ao nada que tudo era... Orgasmo metafísico!

Despertou. Sorriu. Percebeu-se. Por dentro. Roçou, graciosa, seu corpo junto ao chão espreguiçando-se. Sentia sua língua quente e trêmula. Suspirou. Suspirou mais profundamente. Levou uma das mãos à cabeça, retirou seu chapeuzinho e lançou-o longe. Abriu os olhos. Sorriu novamente desde o umbigo. Duas lágrimas saíram-lhe. A língua acusou a sede. Caminhou até o rio. Reclinou-se para beber a água que refletia sua imagem nova, de mulher. Sorriu. Despiu-se e atirou-se n’água confundindo-se com ela.

Escondido, o lobo a observava inebriado. Ela o sabia. Flutuava exibindo os seios displicentemente. Num salto, lançou-se ele também n’água até alcançar seu agora alvo-mulher. Mergulhou, embrenhou-se por entre suas pernas e meteu-lhe a língua adentro. Subiu. Tomou-a pra si e penetrou-a novamente. Ficaram assim colados por muito tempo, deixando-se mover pelo movimento d´água. E nunca mais foram vistos. Chapeuzinho engoliu o lobo e depois, a si mesma.