Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!

Desde muito cedo o teatro se apresentou como uma mandala capaz de me reconduzir ao centro, e assim como a psicologia, sempre me fascinou. Felizmente minhas duas paixões possuem profundas interfaces. 

Lembro da comunhão que se estabelecia quando, com seis ou sete anos, parentes e vizinhos, assistiam ao meu teatro de fantoches. Momento mágico onde eu demonstrava carinho por aquelas pessoas, estreitava vínculos, esboçava teorias em relação ao mundo, provocava, e me sentia feliz com a cumplicidade e as gargalhadas. Íntegra na ação de representar outros “eus” em mim, eu me alargava, criando espaço interno para o novo, para o lúdico, para o mágico. Sobretudo, eu era pertencente e co-atuante daquela comunidade e descobria assim a minha função nesse mundo.

Na universidade, a prática tradicional do teatro transformou o jogo dramático livre da infância num jogo em busca do “melhor desempenho" (em relação a um ideal bastante objetivo e rígido até). À época, relacionei tudo isso ao texto dramático (o discurso alheio) . E na busca pelo meu próprio discurso, reconheci na criação cênica em campo mítico-pessoal um caminho autêntico e libertador, que me permitiu não apenas falar sobre temas conflitantes, mas vivê-los simbolicamente, para compreendê-los e transformá-los. Abriu-se assim uma janela por onde entrou novamente a menina que brincava a vida!

A partir de 1994, passo a utilizar o termo “Umbigo de Eros”, como representação simbólica desta busca, onde o Teatro é religare ao Umbigo (centro) e ao Eros (amor), religando-nos ao Deus em nós (Self). Até 2000 está pesquisa desenvolveu-se solitariamente, através da criação de monólogos. A partir de 2000, além de atuar, passo a dirigir espetáculos e a ministrar oficinas, em especial o Ateliê para mulheres, buscando acessar o “umbigo de eros” neste contexto.

Desse período curto mas intenso, surgiram novas perguntas que me conduziram até a Psicologia Junguiana, hoje, suporte teórico e prático desta proposta expressiva onde o jogo teatral é ponto de equilíbrio, físico, emocional e até espiritual. Ao mesmo tempo em que nos mergulha nas inquietações mais profundas do ser humano, o teatro é uma brincadeira, um “fingimento” profundamente sentido e verdadeiro. Nesse paradoxo, as palavras se confundem, e, teatro, terapia, jogo, ritual e cura parecerem sinônimos absolutos. A única certeza que tenho é que “jogar teatro” nos faz pessoas melhores!

Mais uma vez escrevo para compreender, reunir e organizar inquietudes, desejos, medos e frustrações. Escrevo para compartilhar e para realizar o meu sentido aqui e agora, assumindo novamente o papel libertador e imprescindível de aprendiz. Escrever é descobrir novos caminhos. Mas a ação, qualquer que seja, pressupõe o risco do fracasso. Chegou o tempo de errar, e principalmente de me libertar do acerto!

(texto de introdução da tese "Teatro e terapia: A utilização de aspectos da Psicologia Junguiana na pesquisa teatral em campo mítico-pessoal, FACES/Ibehe 2005) 

1.9.03

O menino Criador

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Era uma vez um menino que gostava muito de bicho
Só que lá onde ele morava, que era um lugar bem redondo
Não tinha bicho nenhum.

Então ele passava o dia era sonhando
Sonhava com o jegue, o galo, a galinha e os pintinhos.
O jegue, o galo, a galinha e os pintinhos.

Esses bichos ele conhecia. Desse sonho que ele sempre tinha.
Tá bom, tá bom. Conhecia também as minhocas
Os caracóis, os cascudinhos, as lagartas, as libélula
Os bezourinho

Mas bicho grande, de pele, pêlo, carne e osso?
Desses ele nada sabia. Elefante? Nem pensar!
Em sua memória não cabia.

Mas a vontade era tanta, de cheirar, brincar, correr
Pular com os bichos, que o menino resolveu:
Ele mesmo faria os bichos que tanto queria!

Pegou uns trapos com a mãe e a cola que o pai fazia
Os gravetos ele mesmo conseguia
Tudo arranjado, partiu pra criação: Blão!
Primeiro veio o jegue, assim todo dengoso
Com uma carinha de bobo
Quando viu o bicho o menino enlouqueceu!
Subiu no lombo do burro que pulava pra lá e pra cá
Eitá. Eitá. Eitá!!!
A alegria era tanta que até as árvores
Começaram a pular

Mas cansado dessa agitação
O menino agradeceu o jegue por ter lhe ensinado
A mexer o corpo com satisfação e partiu pra nova criação

Dessa vez criou o galo todo pomposo
Com cara de Rei do Terreiro
Ele deu logo um ”cocorejo” que o povo se tremeu de medo!
Com seu amigo galo o menino aprendeu a soltar a goela
A cantar para alegrar a galera
Mas tomando cuidado pra não ir parar na panela!
“Cocorocó, cocorocó! Quiquiriqui”!

Ih!
Quando a voz enfraquecia alguém logo lhe dizia:
“Isso não é e nunca foi canto de galo
Esse assim, de ladainha, é cacarejo de galinha!”.
Cocó, cococó!
E foi assim que veio ao mundo
Junto com um montão de pintinhos
A serelepe galinha, ciscando pra lá e pra cá
Ela ensinou o menino a na Terra desenhar
Cisca-rabisca, cisca-rabisca!

Bichos ele já tinha vários
Mas como num quebra-cabeças
Dessa tal felicidade, parece que sempre falta uma peça
O que será que ta faltando pra completar a felicidade do menino?
Ah, é o ovo! “Mas ovo não é bicho!”
“Mas é claro que é!”
“Se não é, um dia há de ser. Então já é, né?”

Passada essa discussão, o menino criou o ovo
Seu último bicho de estimação.
Ai,ai,ai! Mas antes tivesse criado não!
Um dia o ovo rachou e de seu dentro saiu
Coisa que nunca ninguém viu.

Era um, era um, era um... Era um cú! Um cú sim senhor!
Ou fiofó, se ocês achar mio. Um sujeitinho atrevido e safado
Só fala besteira o destrambelhado!
Ah, mas o menino resolveu olhar lá dentro, no fundo
Mas tinha um entupimento bem na porta do dito cujo:
“Saí daí, sai da frente ô que eu quero ver tudo nesse interior!”.
Ele pediu, ganhou! Uma bomba de cocô
Explodiu bem na cara do provocador
Aí ele foi elegante. Limpou a merda de um olho
Limpou a merda do outro. E seguiu adiante

Olhou, olhou, olhou. E viu o coração!
Tava batendo num compasso feito samba canção!
Viu também a língua, a goela, as tripa...
“Eitá, tem um nózinho engraçado!
É o umbigo seu moço. Tá doidinho pra ser desatado!”

Pois o menino foi lá e desatou. Desatou a rir
E a falar muita besteira: “ Peido, côco, meleca,
Pinto, bunda mole, Vômito e xereca!
Peido, côco, meleca, Pinto, bunda mole,
Vômito e xereca!”

E quanto mais falava, mais ria
E a barriga já doía, mas o vício da porcaria
Já lhe tinha tomado inteiro!
A vontade do xixi apertou e foi aquele piseiro
Foi mijo pra tudo quanto foi lado
E desse mijo abençoado o milho brotou!
Já nascia feito pipoca, poca, poca, poca.
E toda aquela bicharada se alimentou.

E tomado desse desatino o menino foi subindo,
Foi subindo, foi subindo... E avoou!
Foi se embora pro Céu pra junto de nosso senhor
É que o céu andava triste, sem graça
E o menino alegrou: Inventava bicho, imitava,
Cantava, desenhava, dançava, corria, peidava
E fazia tanta tonteria que alegrou foi todo mundo
Desde São Pedro até Nossa Senhora da Abadia.

Essa história é pra lembrar
Que nas coisas de Deus, nas coisa do Amor
Nas coisa da Vida, tem que ter irreverência
Brincadeira!
Não se pode levar as coisa assim tão à sério
Se não a alma da gente esgarrrrrrça
Que nem um pano véio!

(O texto acima nasceu a partir de processos de auto-imersão, utilizando imaginação ativa e outras técnicas para acionar conteúdos inconscientes a partir da pesquisa “Umbigo de Eros”. Hoje é encenado dento do espetáculo “Contos do Interior”).

O Setor Comercial Sul, de Brasília, das 9h30 ao 12h em 26/8/2003...

Pesquisa de campo pra um espetáculo... Ando por aí meio sem graça, tentando encontrar um jeito de estar sem ser. Uma pedinte vem em minha direção: “Ô fia, me dá um dinheiro pra me ajudar. (Me olha nos olhos e sorrimos juntas). Ao menos 50 centavos. Fazer um lanche!” Eu respondo: Ô, tenho não! Rimos e nos vamos. Ela com andar trôpego e a mão direita no ar, pra equilibrar... Parecia bêbada mas não estava.

Por toda a parte, homens vestidos de terno e gravata surrados, carregando maletas, cabelos ensebados, rostos brilhantes. Vendem ouro, apólices de seguro e sabe lá o que mais, tentando fazer a mimesis dos grandes executivos...

Sentado na passarela/escada, há um senhor negro, vestido em tons de cinza: Chapéu, paletó aberto, camisa listrada, calça e havaianas pretas. Está sentado com uma perna dobrada e a outra apoiando o cotovelo cuja mão chacoalha uma pequena bacia de metal com moedas. O barulho substitui as palavras. Basta mostrar a bacia! Com a outra mão, fuma um cigarro forte e fedido. A mesma mão que segura sua bengala. Tem ainda uma sacola branca pendurada ao pescoço. O fundo musical dessa região é bem gospel. Um cara tem tudo montado ali. Vende CD’s e sonoriza o SCS.

Vejo uma moça nova, uns 20 anos, sentada no chão com duas crianças: uma bebê e outro de uns 3 anos. Eles brincam com encartes de supermercados. Sento quase em frente e disfarço. Me sinto mal por estar observando essa miséria pra transformar em Arte... Ela amamenta o bebê enquanto espera a esmola de um homem de Rybam. Ele demora pra encontrar. E quando encontra lhe entrega uma moedinha. O menino se afasta um pouco, e olha seu xixi que cai no fundo do bueiro. O xixi termina e ele continua ali, como que em êxtase.

Susto! No capô de uma belina branca, de Valparaiso de Goiás, há um saco cinza de onde se vêm saindo quatro pernas humanas! Me aproximo: são manequins. O carro está em frente a galeria CAL, e eu nem sabia de sua existência. No vidro, há uma frase legal: AS IMPRESSÕES NO CHÃO DA CIDADE ESTÃO QUEIMADAS NAS RETINAS E FIXADAS NAS MENTES DE QUEM VAI E VEM.

Na Galeria percebo que não sou a única escrota nas artes. Um painel com fotos de peitorais masculinos sarados – fotos retiradas da internet. Arte! No outro canto, até me emociono: Há um vestido de renda branco, pequenino, e na altura do coração pisca uma luzinha vermelha. Na parede próxima uma foto (montagem?) de uma bebê (boneco?) num clima de morte e velório. Parece morto! Ai, ai... São 10h45. Há mais pessoas agora e a tendência é aumentar. Jovens vestidos de adultos carregam pastas, celulares, tentando vencer a síndrome social do Puer Eternus. Como todos nós! Na lista de presença vejo nomes conhecidos. Imagino todos eles passando pelo SCS, cheios de nojo! Projeção!

Século 21 e o lema ainda é: Vigiar e punir! Caras do Detran, andam por todas as ruas, multando carros que estão estacionados em lugares onde todos nós estacionávamos há um mês atrás. VAGA Fácil! Onde estarão os flanelinhas? Talvez tenham sido incinerados a mando do governador. Eram tantos e não há nenhum! Esse lugar é estranho sem eles. “Vigia aí, dona?” Frase em extinção! Lembrei agora da Terra dos meninos Perdidos, do Pinóquio. A promessa da felicidade, sem os adultos por perto. Todos felizes dentro do caminhão. Será que os flanelinhas foram seduzidos assim para a morte? Delirius burguesis!

Dos novos produtos do comércio de rua, a mais esdrúxula novidade, são perfumes vendidos em bandejas de isopor cobertos com plástico transparente, como frutas! Cheirar, nem pensar! “Olha o vale. Olha o vale! Cartão pra celular! Cartão pro orelhão! (chavão da mulher, vendedora de meias coloridas)

Iniciei alguns papos comerciais tipo “Quanto custa? Bonito, heim!”, mas não consegui desenvolver o assunto. Pensei em me travestir de pesquisadora e argüir sobre problemas no comércio de rua. É sempre mais fácil ser outra! Numa loja, ouço:
-          Bom dia gente. Eu tô na correria aí atrás de emprego. Será que não tem uma vaga aí? Eu trouxe o meu currículo!
-          Deixa aí, mas agora não tem nada não.
-          É que eu tô na precisão. Minha filha tá doente. Eu faço qualquer serviço. Me dando um salário, eu faço qualquer serviço”.

No orelhão uma mulher ao telefone é esperada pela filha na cadeira de rodas – Sarah – Reabilitação Infantil. A vida é frágil! “Vale e tique! Vale! Vale!” Me sento. Já deve estar perto da hora marcada. Sento pra descansar. “Moça, posso te fazer uma pesquisa? É rápido. Só cinco minutos: Quantas televisões, freezers, geladeiras, vídeo cassete, banheiro etc, a senhora tem em casa? Dos produtos que sua mão usava, qual te vem à mente?” Bombril!!! “Como você se sente usando esse produto?”Eu adoro, me sinto super realizada. Bombril pra mim é tudo! A moça fica feliz com a resposta e me mostra fichas, quadros, tabelas e por fim devo colocar as fichas com adjetivos (de gente) nas tabelas referentes aos produtos:  MINUANO   OMO   BRILHANTE  PINHO  SOL   IPÊ     MON BIJOU. É uma pesquisa louca! Delicada, idealista, sensual, confiável, decidida, discreta, carinhosa, ambiciosa, agressiva, dependente, apagada, arrogante, fútil. E eu me pergunto: Se Pinho Sol é fútil, eu seria o quê? No início, tento criar uma lógica. A mulher tá colada em mim. Oba! Pintou outra freguesa. Aproveito e espalho aleatoriamente as fichas pela tabela enquanto anoto alguns adjetivos no caderno. Acabou, né?! Me levanto decidida.

Olho pro estacionamento e não vejo a Kombi. Ué? Ando mais adiante e nada. Que estranho! Vou até o orelhão. Nada! Não aceita ligaçâo a cobrar. Outro e nada! Oba! Cartões telefônicos. Não dá. Que absurdo: Quatro reais o mais barato. Eu só tenho 3 reais. Outro orelhão. Consegui! Caralho! Estou acima do local combinado e atrasadíssima. Me vem uma sensação infantil de “fiz merda e vou levar bronca". Puxa, depois de me divertir tanto! Vou descendo a rua tentando criar uma cara menos culpada. Chegando lá, estavam putos, claro, mas não demonstraram. Que bom, uma bronca naquele momento estragaria o resto do meu dia! Se bem que lá pelas tantas ouvi: “Já era de se esperar!” Que fama! Sabe, talvez aos 32 anos eu deva mesmo aproveitar essa fama e deitar e rolar na cama. Doido pode tudo!  

24.5.03

A Moça Redonda

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Era um vez... Uma Moça. Redonda, redondinha.
Cheia de tudo que existe. De tudo o que há de existir.
De tudo ela se enchia. Tudo o que via queria engolir.

Foi assim que arredondou. Por tudo que devorou.
Mas o seu redondo, não era feio não.
Era lindo, muito lindo, de doer o coração!

Mas aí um belo dia, depois de tanta comilança
Tudo o que devorou começou a lhe escapar da pança.
Assim sem explicar.

E cada coisa que engoliu,
Uma a uma, De dentro dela saiu.
No início ela olhava atenta. Fitava tudo admirada.
Cada coisa que saia parecia muito mais incorpada
Mais bonita, colorida do que quando devorada.

Mas tudo foi lhe escapando tão rapidamente
Que o redondo da moça foi ficando murcho, disinchavido. Xiiiiiiiiiii...
Esvaziou. Quase que definhou.
Aí a saudade bateu, aquela dor de quem já teve e perdeu
E a inveja de dentro dela nasceu.

“Eu tô invejano, eu tô invejano. Me dá, me dá”.
Ela repetia, doída, perdida, sem parar.
A querença era tanta de ter o que já não tinha
Que a moça não teve saída.
Ou ficava ali a sofrer, ou fugia pra esquecer.

Pois fugiu. Pra dentro de si. Se encolheu no próprio centro.
Mergulhou na escuridão. Ficou lá se aquietando
Matutando, descansando.
E de repente sentiu algo lhe cutucando.
"Vichi minha nossa senhora! Tudo o que eu tive outrota, tá aqui,
sempre esteve, guardado na minha escuridão. Eu não perdi nada não!"

E parou de invejar.
Sentiu uma plenitude. Uma sensação de grandeza.
E feliz, pôs-se a dançar. E quanto mais dançava, mais feliz ficava.
A felicidade aumentano, ela foi arredondano, arredondando
Parecia que ia estourar.

Mas de novo, as coisa do dentro quiseram sair
E ela ficou quieta pra mó de sentir.
Foi sentindo, foi sentindo....
E o primeiro a sair foi... menino!
Saiu de dentro do peito!!!
E saiu mais menino, de tudo quanto foi jeito.

E a cada um que saia, ela dava de mamar.
Quer mamá nenê, quer mamá?
E rápido eles cresciam e pelo mundo foram se espalhar.
Pela Terra, Pelo Fogo, Pelo Água, pelo Ar.

Menino, meninoooo!?
Menino, volta, volta menino! Volta menino! Volta!
Meniiiiiino...
Mas menino não voltava. Porque a vida é mesmo assim.
Eles tem mais é que ir. E ela vai te de ficar.
Pra cuidar do que restou: Ela mesmo, ora sô!
Mas era isso que doía, porque ela não sabia, não sabia se cuidar.
“Cadê o outro, que sem ele, eu nem sei o meu lugar”.

E chorou, chorou muito.
Chorou lágrima branca. De leite do próprio peito.
E cada gota que pingava.Numa flor se transformava.
E das flor ela cuidou. Regou todo santo dia.
Com carinho e muito amor.
E o tempo passou, passou, passou. E a moça se cansou.
Da rotina, da labuta...até das flor.
E numa só lambida engoliu a todas elas!
E de novo engordou, arredondou.

O resto, meu povo, eu nem vou contar.
Porque essa tal moça redonda nunca pára de girar.
É um tal de enche e murcha, que nem dá pra acreditar.
Ela dança, gera e pare e depois quer devorar.
Mete de novo pra dentro, tudo o que acabou de criar.

Essa é a história da moça. Dessa e de todas as outras!!!
Eu sei que se conselho fosse bom, não se dava, se vendia.
Mas fique atento, seus moço com as mania dessas guria.
Tudo que é mulher é assim. Muda de jeito noite e dia.
Bruxa, amante, donzela, bonita, sábia, grávida, deprimida.
Menstruada, feliz, nervosa e aflita.
Tudo, tudo o nosso espírito se agita!
É assim que nós somos, seus moço.
E é assim que nóis tem que ser.
Que é pra vida se enriquecer
E ocês tem de larga mão de tentar entender.
Ocês tem é que nos viver!

(O texto acima nasceu a partir de técnicas para acionar conteúdos inconscientes a partir da pesquisa “Umbigo de Eros”. Hoje é encenado dento do espetáculo “Contos do Interior”).


Chapeuzinho vivia só com a mãe, mergulhada numa ingenuidade serena. Um dia a mãe pediu-lhe para levar algo para a avó, que morava além da floresta. Segurou firme nos ombros da filha e posicionou-a frente a si. Olhou fixa e profundamente bem dentro dos olhos da menina. A força-mãe, nos ombros-filha, estendeu-se até a boca que pronunciou veemente: Cuidado com o lobo! A frase ecoou bem lá no de dentro.

Como que enfeitiçada, sem dizer palavra, Chapeuzinho seguiu flutuando em pensamentos. O que seria um lobo? A mãe esqueceu-se da ingenuidade em que havia mergulhado a filha, mocinha... Em seu pequeno grande mundo interior, Chapeuzinho tentava decifrar o lobo. Será seu corpo quente? Poderia aquecer-me. Será sua pele macia? Poderia acarinhar-me! Será feio, bonito? Seguiu divagando, pincelando, encaixando e sobrepondo imagens num turbilhão de possibilidades. A cada imagem criada seu corpinho reagia involuntariamente queimando a fogueira.

Imaginar o lobo como que lançou Chapeuzinho num processo de auto-regulação. Ou seria auto-revelação? Tudo o que antes dormia, desabrochava em pequeninos e suaves choques elétricos. Presa a uma das imagens, a menina parou de caminhar e todos os pêlos se eriçaram. Arrepiou-se dos pés à cabeça. E como nunca havia sentido antes, ficou. Fechou os olhos. Aprofundou-se o respirar... Teve um orgasmo profundo, embora não o soubesse. E tudo "no seu dentro" derreteu-se num gemido fino e sensual, que ela também não sabia. Desmaiou. Seu gemido espalhou-se como perfume por toda a floresta estendendo-se até alcançar seu alvo-lobo. Entrou por suas narinas, tocou-lhe os lábios e dissolveu-se em sua língua como veneno. Ele cerrou os olhos. Salivou aquele sabor-sentimento e deixou-se levar até seu destino.

Chapeuzinho continuava mergulhada em si - corpo templo! Acionara outra realidade, negra, mágica, profunda. Há poucos metros dela, guiado pelo faro, posto que a visão nublara desde aquele som, o lobo caiu sobre quatro patas, e cego, foi até ela. Roçou levemente seu focinho gelado nos dedinhos de seu pé, que saltavam da sandália. Pôs-se a lamber um a um... suspiros dela. Ele então pôs-se a roçá-la ao longo das pernas, e subindo lentamente, empurrou o vestido da mocinha até o pescoço. Sentiu um cheiro doce. Roçou seu focinho, agora quente, num dos seus pequeninos seios. Sentiu-os desabrocharem como flor. Abriu a enorme bocarra e mamou aquele tenro seio.

Chapeuzinho estremecia inteira, queimava enquanto o lobo deslizava sua áspera e grossa língua por todo o seu rosto. Demorou-se nos olhos e num rápido movimento, deslizou até a calcinha de renda. Inclinou a cabeça, afastou-a com seu focinho fervente e meteu sua língua grossa "no seu dentro". Chapeuzinho lançou-se ao nada. Suas mãos antes catatônicas, apertavam a cabeça do lobo contra o próprio corpo. Queria engolir aquela língua, que ela não sabia assim. De súbito, puxou energicamente a cabeça do lobo para junto da sua. Sentiu a respiração dele sobre o rosto, seu hálito forte e envolvente... O lobo penetrou-a. E Chapeuzinho derreteu-se num grito que se espalhou além–terra, fundindo-se aos sons do mundo. De dois fez-se um! O lobo alcançou a mesma realidade negra. O corpo duplo arremessado ao nada que tudo era... Orgasmo metafísico!

Despertou. Sorriu. Percebeu-se. Por dentro. Roçou, graciosa, seu corpo junto ao chão espreguiçando-se. Sentia sua língua quente e trêmula. Suspirou. Suspirou mais profundamente. Levou uma das mãos à cabeça, retirou seu chapeuzinho e lançou-o longe. Abriu os olhos. Sorriu novamente desde o umbigo. Duas lágrimas saíram-lhe. A língua acusou a sede. Caminhou até o rio. Reclinou-se para beber a água que refletia sua imagem nova, de mulher. Sorriu. Despiu-se e atirou-se n’água confundindo-se com ela.

Escondido, o lobo a observava inebriado. Ela o sabia. Flutuava exibindo os seios displicentemente. Num salto, lançou-se ele também n’água até alcançar seu agora alvo-mulher. Mergulhou, embrenhou-se por entre suas pernas e meteu-lhe a língua adentro. Subiu. Tomou-a pra si e penetrou-a novamente. Ficaram assim colados por muito tempo, deixando-se mover pelo movimento d´água. E nunca mais foram vistos. Chapeuzinho engoliu o lobo e depois, a si mesma.

O amor é uma prisão? A gente vive e depois cumpre pena? Vive momentos de um êxtase
indescritível, depois tem que se justificar, explicar detalhadamente passo por passo,
descrever os cúmplices e se declarar culpada? Quero um Amor livre! Um amor que respire um ar novo a todo o instante, um amor humano, real, um amor-amigo, amor-brincadeira, amor-humor, amor-filhos e amor-paixão sempre! Mas quero também a sensação de “peixe fora d”água”, o tempo de estar só!

Queria reaprender a ter Fé, essa âncora que nos prende em nós mesmos! Sou um morcego voando à luz do dia, cego e enlouquecido. Medo de retornar ao meu útero-habitat natural, a escuridão! The black hole of the existence! Guiada por uma Roda da Fortuna doida e autônoma que dissipa minha Força, Coragem e Personalidade. Mas eu as tenho? Eles têm porque eu sempre acabo me perdendo neles, os Outros. Eles são a salvação e a punição! A liberdade e a prisão! Sigo procurando, dentro e fora. Talvez eu encontre no meio, na intersecção entre Eu e Eles. 


Eu podia dizer um enorme “Não”, mas sigo com “Pode ser"! E me comporto muito bem, passivamente. Não beijo as pessoas que amo porque a minha boca não é minha. Não expresso o meu amor porque ele fugiu de mim há tempos. E não mando os que me enchem pro inferno porque não sei onde fica! Estou aprisionada num Eu que já morreu. Vivo da sombra, do fedor e da deterioração de alguém que já morreu. Um corpo morto dirige os meus passos e atos e palavras e medos e dores e taras e ... 


Começo a acreditar na necessidade do ritual. Um corpo morto deve retornar à terra. Fui
herética, negligenciei todos os meus enterros! E pago tentando despistar os velhos pedaços que insistem em ainda serem meus... Preciso tanto do Outro e, no entanto é ele que me mata. Fugir é covardia, ficar é covardia! Existe algo entre o ficar e o fugir? Dormir... Me faz sonhar e também pago por sonhos. Estou sempre quitando dívidas. Quito-as, mas nunca sei com o quê. Só sinto algo faltando no final da negociação, mas nunca sei o quê foi que levaram... Possivelmente Nada, mas o Outro sempre faz com que eu me sinta menor, lesada...

Talvez fosse mais fácil enlouquecer, uma loucura rápida, radical e fulminante. Um sanatório
qualquer, uma enfermeira qualquer, e eu tratada como uma louca qualquer, sem a
mínima necessidade de me sentir útil. Simplesmente ser... A arte voluntária da retirada da vida - O Eremita!

The Fox
Bsb,27.05.1995


Mãe, quantas vezes quis voltar pra dentro de você? Outras, não podia nem ficar perto. Queria separar nossos pedaços pra ver quem eu era.

Tenho verdadeiro fascínio pela semelhança entre parentes. Posso ficar horas admirando os pés parecidíssimos de dois irmãos. E até uma família inteira com o mesmo nariz! E a voz, ao telefone, de mãe e filha? Não consigo pensar em genética, pra mim é mágica pura. Vários pedacinhos iguais espalhados por aí como se tivessem fugido do original. Talvez eu observe as semelhanças pra achar as diferenças. Medo de repetir os mesmos erros. Encontrar um documento que prove que o meu destino é único, é só meu. Medo do tempo que modifica as coisas rápido demais.

Hoje disfarço e te observo ternamente. Tenho ímpetos de te embalar nos braços, de acariciar teus cabelos... Já não é mais fascínio, nem temor, e nem marca de brasa feito as de gado. Apenas te olho, e me comovo em segredo. Quero te dar a mão, mas ainda temo um passado que me devorava braços e pernas. O tempo passa rápido demais. Estou conquistando isso também, pernas e braços.

Talvez por isso eu escreva. Pra tentar elucidar as pequeninas lacunas que passaram despercebidas por entre as minhas pernas. Tão rápido quanto aqueles pintinhos que eu tentava apanhar no galinheiro quando íamos pra fazenda. A alegria de correr tão rápido quanto eles, somada a sensação de Poder pela esperteza necessária, e que eu tinha, pra evitar um ataque da mãe. A deliciosa sensação de perigo, o risco de levar doloridas bicadas... E principalmente a culpa por querer desesperadamente arrancar aquele pinto de perto da mãe e ter a ousadia de camuflar este ímpeto quase existencial usando o pobre filhote como troféu ou objeto de estudos científicos.

A palavra “resultado” não tinha o mínimo significado, só existia o ato. Dentro de mim o anjo bom brigava com o mau. A obediência me parecia oposta à qualquer ato nobre! Seguir a etiqueta do que vigorava como “certo” soava como vender a alma ao diabo. Outras vezes não. A boa e velha dúvida, sempre! O fato é que acabei por não decidir, escolhi a dúvida, que é a vontade de acertar! Minha amiga mais íntima.

Descobri que decisão é um momento. É um presente que se ganha quando somos abençoadas com aquele ventinho passando por entre as nossas pernas, e num reflexo, agarramos o pintinho! Mas nós não somos tão más assim e, lá pelas tantas, soltamos o bicho pra que ele volte pra mãe, não como cobaia ou troféu de perversas-ingênuas brincadeiras infantis, mas como ele mesmo: um simples e comum pintinho de galinheiro!

Os vários pedacinhos seus, estou tratando, de uma vez por todas, de transformar em meus. Aceitei-os muito antes de optar pela dúvida. E talvez os tenha escolhido. São bons ou maus? Acho que isso não importa, nunca importou o que importa é o ato, não o resultado. E a ato é de amor, sempre foi e certamente jamais deixará de ser.

Anasha (1995)

25.6.94

Cojubim-Naiá

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Num tempo dos antigo bicho nenhum escapulia
Dos trabalhos de preserva tudo que os arrodia
E cada um do seu jeito fazia o que podia
E a Natureza bem cuidada sorria, agradecia!

Nesse tempo não tinha castigo não
E os bicho vivia tudo no cio...
E um casal de índios fazia amor na beira do rio

No meio da estripulia c’os coração em harmonia
Não se aperceberam que dos seus corpo
Suas almas escapolia, voaram feito borboleta
Pousaram nas águas do rio, formando um reflexo formoso
Como nunca se viu.

Nesse mesmo momento surge descendo do céu
O Choro do Sol e o Riso da Lua
Que também apaixonados vem pousando bem encima
Do reflexo dos índios namorados

O ar suspirou, a água gemeu, o fogo gozo e a terra tremeu!
E desse encontro nasceu um espírito que nem eu!
Seu nome eu vou lhes contá: É Cojubim-Náia
Que carrega dentro de si as duas almas perdida
Daquele índio e daquela índia

É Cojubim na metade do dia, um macho cheio de valentia
Que reclama, luta e briga prá mó de acalmar a dor
Que no seu peito ardia saudoso da presença
Da amante que ele tinha.

Cojubim cuida do fogo e da água
Fazendo chover e fazendo queimar
Porque a água renova a vida. E o fogo? Ajuda a matar!
Que é pras coisas se reciclar!

Na outra parte do dia, de noitinha, ele é Naía
A fêmea delicadinha, que dança e ora a Rudá
Cupido da crença índia, pedindo pra trazer de volta
O amante que ela tinha

Náia cuida da terra e do ar e é através da dança
Com seus pesinhos na lama e seu corpinho no ar
Que ela solta uns aroma (Sons de peido)
Uai, pra proteger e perfumá os lugar!

Cojubim-Náia vive a procura do fogo do coração
Do amor, da plenitude da paixão
E depois de encontrar ele pensa em mergulhar
Nas águas daquele rio prá mó de apagar tanto fogo
E acender outro pavio!

Mas nas águas desse rio só entram seres inteiros
Porque é o reino dos deuses e não entra forasteiro
Só então à meia-noite é que ele pode tentar
Porque é mesmo nessa hora que as duas almas de outrora
Voltam a se encontrar formando um só ser que dá gosto de olhar

Cojubim-Náia entra em êxtase e nesse minuto eterno
Faz tudo que é coisa brilhar! Ah ah ah...Hu! Aaaaaah....
Mas é só quando o minuto passa que ele se dá conta:
“De novo, esqueci de mergulhar!”
E assim é Cojubim-Náia!

(O texto acima nasceu a partir das aulas de teatro com a profª Simone Reis, no Deptº de Artes Cênicas da UnB, em 1994 – meu primeiro e fundamental contato com a mitologia pessoal no teatro. Obrigada Simone! Hoje é encenado dento do espetáculo “Contos do Interior”).