(Texto escrito para o meu amigo Adriano.)
Do início da vida
De antes da mulher que veio do barro
Do tempo da mulher que veio primeiro
Nesse tempo do sonho, onde tudo é possível,
Foi feita uma reunião
Com as mulheres originais:
Nossas ancestrais!
Guardiãs do passado, que se faz presente na gente
Passado que sem o novo vai virar futuro
Porque já se sabe: se o novo é impedido tudo é repetido.
Por isso a reunião!
Saber o que se deve guardar e levar consigo
E o que é velho por demais, carcomido
Separar o joio do trigo
Matar o que deve morrer
Dar a vida ao que vida possui
Foi no tempo do sonho
Que nós, mulheres modernas, de computadores, diplomas,
Carros, freezers e microondas,
Mergulhamos nas nossas crisálidas de tecido
Nas colchas que formam nossas vidas
Costuradas pelas antigas
Cada retalho escolhido, cada fio repartido,
O jeito de distribuir as cores, os amores,
O modo de abrir ou fechar as pernas, de fechar ou abrir o coração,
Tudo isso foi traçado pela mão, pelo pé, pela pele, pelo corpo da mulher.
Nossa maior jóia
Lapidada pelas mulheres mais importantes da nossa história
Nossas mães, avós, bisas, tatás, quintas-vós
E a toda a mulherada,
Obrigada por tudo o que vivemos nessa jornada!
Texto escrito durante o processo de criação do espetáculo "Crisálidas"
O beijo, o abraço, o carinho, o contato
Da menina
Que ela dava, despejava, distribuía
Entre todos que bem queria
Mas aí um dia... Ih, tem sempre um dia
Acontece alguma coisa que acaba com a folia:
A mania tão bonita da menina
Foi considerada errada, perigosa, proibida!
(Os outros)
“- A menina tá crescendo, já é quase moça feita. Melhor parar agora ou sua vida tá desfeita!”
(Outros outros)
“- Coisa mais fora de hora, constrangedora, ficar distribuindo carinho assim dessa maneira! Pode não! O que que os outros vão pensar dessa esfregação?”
(Menina)
“- Eu nunca vi dessa maneira. É só meu jeito de gostar, de ficar perto das gentes que quero perto a vida inteira!”
(O maior de todos os outros)
“- Besteira , bobage, lesera! Pode não, e tenho dito! Não se pode ser assim com qualquer um. Você há de aprender: Nessa vida tem UM alguém certo que há de ser seu bem querer.”
(suspiro longo da Menina)
“- Um? Mas eu bem quero a tanta gente! Por que só um escolher? Os beijos e abraços saem de mim sem me dizer. Eles é que escolhem seu rumo. Eu só deixo acontecer!”
(O maior de todos os outros)
“- Chega dessa conversa. Não pode mais e pronto!”
De fato, ninguém disse nada.
Mas pensaram.
E pensamento é coisa forte
Faz guerra, cria intriga, confunde e muda vida de menina.
Ela aprendeu a segurar os seus impulsos.
Cada vez que eles vinham ela tratava de engolir.
Mas, sem conseguir digerir, lhe subiram à cabeça.
E invés de abraço e beijo, ela pôs-se a falar à beça.
E tudo virou blá blá blá.
Falaçâo pra agradar

Muito tempo se passou.
Ela virou mulher feita, dona da própria vida.
Podia fazer o que quisesse com aquela sua mania bonita.
(longo suspiro da Mulher- menina)
“- Ah! Mas logo agora que o coração subiu pra cabeça e se esqueceu de descer?”
E chorou baixinho um choro antigo pra ninguém ouvir.
De saudade da menina que beijava e abraçava a vida!
Muito tempo depois, num quarto pequeno, sozinha
Bem velhinha, ela fez foi morrer...
Mas antes, um minutinho antes, da Vida lhe escapulir
Ela cerrou os olhinhos, se abraçou apertado e se deu um beijinho!
(Velha-menina)
“- Eu me lembro da menina. Sinto-a dentro de mim. Vou me embora junto dela, eu nela e ela em mim”.
Morreu, com sorriso nos lábios
Á noite, no cemitério onde foi enterrada, ouvem-se gemidos e estalos.
De beijos e abraços.
Dizem que é ela, a menina-velha
Que vai, de cova em cova, beijando e acarinhando
Cada um dos ossos dos mortos, ali enterrados
Essa história faz lembrar: um dia a Vida se esvai
E o que se leva da Vida
É o resultado dessa mania bonita
De se querer por demais.
A partir de 1994, passo a utilizar o termo “Umbigo de Eros”, como representação simbólica desta busca, onde o Teatro é religare ao Umbigo (centro) e ao Eros (amor), religando-nos ao Deus em nós (Self). Até 2000 está pesquisa desenvolveu-se solitariamente, através da criação de monólogos. A partir de 2000, além de atuar, passo a dirigir espetáculos e a ministrar oficinas, em especial o Ateliê para mulheres, buscando acessar o “umbigo de eros” neste contexto.
Desse período curto mas intenso, surgiram novas perguntas que me conduziram até a Psicologia Junguiana, hoje, suporte teórico e prático desta proposta expressiva onde o jogo teatral é ponto de equilíbrio, físico, emocional e até espiritual. Ao mesmo tempo em que nos mergulha nas inquietações mais profundas do ser humano, o teatro é uma brincadeira, um “fingimento” profundamente sentido e verdadeiro. Nesse paradoxo, as palavras se confundem, e, teatro, terapia, jogo, ritual e cura parecerem sinônimos absolutos. A única certeza que tenho é que “jogar teatro” nos faz pessoas melhores!
Mais uma vez escrevo para compreender, reunir e organizar inquietudes, desejos, medos e frustrações. Escrevo para compartilhar e para realizar o meu sentido aqui e agora, assumindo novamente o papel libertador e imprescindível de aprendiz. Escrever é descobrir novos caminhos. Mas a ação, qualquer que seja, pressupõe o risco do fracasso. Chegou o tempo de errar, e principalmente de me libertar do acerto!

Era uma vez um menino que gostava muito de bicho
Só que lá onde ele morava, que era um lugar bem redondo
Não tinha bicho nenhum.
Então ele passava o dia era sonhando
Sonhava com o jegue, o galo, a galinha e os pintinhos.
O jegue, o galo, a galinha e os pintinhos.
Esses bichos ele conhecia. Desse sonho que ele sempre tinha.
Tá bom, tá bom. Conhecia também as minhocas
Os caracóis, os cascudinhos, as lagartas, as libélula
Os bezourinho
Mas bicho grande, de pele, pêlo, carne e osso?
Desses ele nada sabia. Elefante? Nem pensar!
Em sua memória não cabia.
Mas a vontade era tanta, de cheirar, brincar, correr
Pular com os bichos, que o menino resolveu:
Ele mesmo faria os bichos que tanto queria!
Pegou uns trapos com a mãe e a cola que o pai fazia
Os gravetos ele mesmo conseguia
Tudo arranjado, partiu pra criação: Blão!
Primeiro veio o jegue, assim todo dengoso
Com uma carinha de bobo
Quando viu o bicho o menino enlouqueceu!
Subiu no lombo do burro que pulava pra lá e pra cá
Eitá. Eitá. Eitá!!!
A alegria era tanta que até as árvores
Começaram a pular
Mas cansado dessa agitação
O menino agradeceu o jegue por ter lhe ensinado
A mexer o corpo com satisfação e partiu pra nova criação
Dessa vez criou o galo todo pomposo
Com cara de Rei do Terreiro
Ele deu logo um ”cocorejo” que o povo se tremeu de medo!
Com seu amigo galo o menino aprendeu a soltar a goela
A cantar para alegrar a galera
Mas tomando cuidado pra não ir parar na panela!
“Cocorocó, cocorocó! Quiquiriqui”!
Ih!
Quando a voz enfraquecia alguém logo lhe dizia:
“Isso não é e nunca foi canto de galo
Esse assim, de ladainha, é cacarejo de galinha!”.
Cocó, cococó!
E foi assim que veio ao mundo
Junto com um montão de pintinhos
A serelepe galinha, ciscando pra lá e pra cá
Ela ensinou o menino a na Terra desenhar
Cisca-rabisca, cisca-rabisca!
Bichos ele já tinha vários
Mas como num quebra-cabeças
Dessa tal felicidade, parece que sempre falta uma peça
O que será que ta faltando pra completar a felicidade do menino?
Ah, é o ovo! “Mas ovo não é bicho!”
“Mas é claro que é!”
“Se não é, um dia há de ser. Então já é, né?”
Passada essa discussão, o menino criou o ovo
Seu último bicho de estimação.
Ai,ai,ai! Mas antes tivesse criado não!
Um dia o ovo rachou e de seu dentro saiu
Coisa que nunca ninguém viu.
Era um, era um, era um... Era um cú! Um cú sim senhor!
Ou fiofó, se ocês achar mio. Um sujeitinho atrevido e safado
Só fala besteira o destrambelhado!
Ah, mas o menino resolveu olhar lá dentro, no fundo
Mas tinha um entupimento bem na porta do dito cujo:
“Saí daí, sai da frente ô que eu quero ver tudo nesse interior!”.
Ele pediu, ganhou! Uma bomba de cocô
Explodiu bem na cara do provocador
Aí ele foi elegante. Limpou a merda de um olho
Limpou a merda do outro. E seguiu adiante
Olhou, olhou, olhou. E viu o coração!
Tava batendo num compasso feito samba canção!
Viu também a língua, a goela, as tripa...
“Eitá, tem um nózinho engraçado!
É o umbigo seu moço. Tá doidinho pra ser desatado!”
Pois o menino foi lá e desatou. Desatou a rir
E a falar muita besteira: “ Peido, côco, meleca,
Pinto, bunda mole, Vômito e xereca!
Peido, côco, meleca, Pinto, bunda mole,
Vômito e xereca!”
E quanto mais falava, mais ria
E a barriga já doía, mas o vício da porcaria
Já lhe tinha tomado inteiro!
A vontade do xixi apertou e foi aquele piseiro
Foi mijo pra tudo quanto foi lado
E desse mijo abençoado o milho brotou!
Já nascia feito pipoca, poca, poca, poca.
E toda aquela bicharada se alimentou.
E tomado desse desatino o menino foi subindo,
Foi subindo, foi subindo... E avoou!
Foi se embora pro Céu pra junto de nosso senhor
É que o céu andava triste, sem graça
E o menino alegrou: Inventava bicho, imitava,
Cantava, desenhava, dançava, corria, peidava
E fazia tanta tonteria que alegrou foi todo mundo
Desde São Pedro até Nossa Senhora da Abadia.
Essa história é pra lembrar
Que nas coisas de Deus, nas coisa do Amor
Nas coisa da Vida, tem que ter irreverência
Brincadeira!
Não se pode levar as coisa assim tão à sério
Se não a alma da gente esgarrrrrrça
Que nem um pano véio!
(O texto acima nasceu a partir de processos de auto-imersão, utilizando imaginação ativa e outras técnicas para acionar conteúdos inconscientes a partir da pesquisa “Umbigo de Eros”. Hoje é encenado dento do espetáculo “Contos do Interior”).
Pesquisa de campo pra um espetáculo... Ando por aí meio sem graça, tentando encontrar um jeito de estar sem ser. Uma pedinte vem em minha direção: “Ô fia, me dá um dinheiro pra me ajudar. (Me olha nos olhos e sorrimos juntas). Ao menos 50 centavos. Fazer um lanche!” Eu respondo: Ô, tenho não! Rimos e nos vamos. Ela com andar trôpego e a mão direita no ar, pra equilibrar... Parecia bêbada mas não estava.
Quem sou eu
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