Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!

10.5.08

Educação afetiva

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Vivemos hoje um ritmo de correria diária, onde, muitas vezes, o afeto fica de lado. Em geral alegamos que isso se deve a falta de tempo. Quantas vezes, nos corredores dos prédios residenciais, nos elevadores, no trabalho cruzamos com pessoas como se elas não existissem? Boa tarde, boa noite, obrigada, por favor, com licença, seguidos de um olhar (é claro), são práticas que vem se perdendo dia a dia. Essa auto-reeducação nos cabe, além da educação de nossos filhos. E a falta de tempo não pode ser justificativa para tal desleixo, já que nesses casos estamos ali cara a cara com alguém. A questão então me parece mais relacionada ao tempo interno do que ao tempo cronológico. Nossa disponibilidade interna para o afeto está precisando de incentivo. Esses exemplos, embora intimamente relacionados à certa dose de inteligência afetiva, estão diretamente relacionados à educação social. 

Mas o que me impele mesmo a escrever hoje é a educação afetiva. Fico pensando nas datas comemorativas da nossa cultura: dia dos pais, dia das mães, dia das crianças, dia dos namorados... Datas intimamente relacionadas ao mercado de consumo, eu sei, mas não só. Podemos extrair-lhes o aspecto construtivo. Penso nos rituais perdidos no tempo onde o papel ou a função de alguns dentro da tribo ou grupo ganhava destaque e homenagem numa valorização coletiva. Talvez essas datas comemorativas, simbolicamente, tragam também esse aspecto. No mínimo, são estímulos externos que podem servir para o exercício do afeto.

Não estou aqui fazendo uma campanha a favor de comemorarmos tais datas, mas apenas aponto-as como um dos caminhos para o exercício da afetividade. Não há hora nem momento para se demonstrar carinho por alguém, mas se existem, culturalmente, dias especiais para certas pessoas, porque não vivê-los? Eles podem ser sim território ritual de muitos resgates... Mas podemos também inventar muitos outros, até que nos caia a tão esperada ficha da sacralidade e da riqueza presente em todos os momentos da vida.

Talvez existam pessoas que não sintam falta de demonstrações de afeto (embora eu prefira pensar que não existam tais pessoas). Mas para a grande maioria, um abraço gostoso, um poema, um elogio, uma flor, um telefonema, um desenho ou um presente, fazem corpo e alma sorrirem juntos! Nós adoramos, nos faz bem, nos anima (nos enche alma).

Retirar-nos e aos nossos filhos desse egocentrismo alienante, que nos coloca numa posição confortável onde sabemos muito bem receber, mas onde nunca há tempo para o dar, é tarefa urgente. Em qualquer relação de amor, de amizade, de trabalho, há que se ter sensibilidade para reconhecer a existência do outro. E cabe, a nós, como pais em mães estimular a afetividade em nossos filhos.

Quando ainda pequeninos, eles imitam o que nos vêem fazendo e vivendo, como nossos afetos. Adoram nos ver beijando, abraçando, porque essa imagem os alimenta da certeza de que também podem expressar seus afetos. Assim como também é importante que nos vejam chorando, expressando raiva enfim, porque isso também os habilita para tal.

Os pequenos curtem muito criar presentes, surpresas e desenhos para oferecer a quem amam. Assim, como adoram o dia de seus aniversários, onde sua importância e o grande amor que inspiram, têm destaque no grupo do qual fazem parte. Eles crescem um pouco mais, e nós como educadores afetivos, os lembramos de ligar para a vovó para expressar-lhes seu carinho, ou sugerimos um abraço um pouco mais caloroso no papai que anda meio tristinho, ou a preparação de uma surpresa para alguém de quem gostam. As possibilidades são infinitas. Desse modo, nossos pequenos vão crescendo e conhecendo o outro lado das relações, o de quem dá, alargando-se para além da posição dos que apenas recebem ou sofrem a ação do amor.

Espero, um dia, receber um maravilhoso elogio de minha futura nora ou talvez ver-lhe estampado na face um regozijo profundo pelo afeto que recebe do homem amoroso que é e será o meu filho. E espero mais ainda ter a lembrança de minhas demonstrações de afeto gravadas na pele dos que amo! A todos e todas, meu abraço gostoso, daqueles de barquinho (que faz os corpos balançarem pra lá e pra cá, num aconchego delicioso).

Afeto
[Do lat. affectus, us.] Substantivo masculino. 1.Afeição por alguém; inclinação, simpatia, amizade, amor: “amou-o assim como se amam as coisas belas, e o afeto de que o envolvia propagou-se em redor” (Rute Bueno, O Livro de Auta, p. 33). 2.Objeto de afeição: Doía-lhe estar ausente do seu afeto. 3.Psicol. O elemento básico da afetividade (2). 4.Psiq. Estado emocional ligado à realização de uma pulsão (2) que, reprimida, transforma-se em angústia ou leva à manifestação neurótica.


Os últimos acontecimentos têm me feito refletir muito. Coisinhas do cotidiano que se tornam grandes no "de dentro"... E gostaria de compartilhar com vocês minhas angústias otimistas.

A forma como lidamos com os conflitos coletivos, pessoais e amorosos, e principalmente, o modo que encontramos para lidar com nossa própria afetividade vai mal. Há praticamente três anos, nosso grupo vem falando incessantemente do "resgate do feminino". Por mais abstrato que pareça o termo, lá no fundo, nós mulheres sabemos muito bem o que ele significa. Sabemos as mudanças que ocorrem quando estamos centradas em nós mesmas, quando baixamos a ansiedade e podemos ouvir a voz do coração, da intuição, da ovulação, dos sonhos... Quando paramos a máquina de fazer e permitimos o sentir.

As crises e os conflitos nos perseguem cotidianamente, desde os pequeninos até os mais cabeludos. Estamos sempre lidando com eles, que, de fundo, são exercícios pra nos fazer amadurecer. Mas ainda, na maioria das vezes, o tal feminino nos escapa e por mais que a intenção seja boa, a forma é um horror. Conflitos com amigos, amores, filhos, trabalho, conflitos internos, medos, sentimentos de solidão e abandono... Estes últimos tão profundos e dolorosos que acabamos travestindo-os de raiva, ou alguma outra emoção mais forte. Afinal, "o importante é não demonstrar nossa fragilidade!" diria a voz da razão. No entanto, está aí a saída. Assumirmos nossas fragilidades, nossa humanidade! E mais, assumirmos nossas expectativas e projeções secretas em relação aos outros, pois são elas que nos afastam de quem gostamos. Esperamos muito dos outros e muitas vezes esquecemos de perceber o quanto estamos nos dando pouco.

As pessoas se separam cada vez mais. Podemos perceber aí uma certa banalização do casamento, mas por outro lado, há também uma sincera necessidade de crescimento, de dar um salto qualitativo em termos de entrega, de cumplicidade. Muitas vezes, a separação é uma possibilidade de abalar as rígidas estruturas construídas ao longo dos anos, trazendo alguma esperança de mudança real. Porque infelizmente nos acomodamos por muito pouco, porque temos um lado extremamente preguiçoso e medroso, que nos faz optar pela mentira, por “abafar o caso” ao invés de encarar a forte e dolorosa verdade. Ser quem se é, é um exercício de descoberta constante. E, infelizmente, em nome do “amor”, muitas vezes, deixamos de ser quem somos.

Se o amor é feito de duas partes integras (como no desenho do yin e do yang), quando uma das partes está rachada, toda a estrutura desmonta. Muitas vezes, notamos, nas várias relações de amor que nos cercam, que ambas as partes estão rachadas, fragilizadas. Terreno fértil para a projeção. Passamos então a cobrar ou a pedir do outro que nos dê o alento para tapar nossos buracos. Trágico engano! Essa é uma tarefa individual. Daí, muitas vezes, a separação pode ser um caminho de crescimento onde cada uma das partes busca se reconstituir, se fortalecer, descobrir o que se é (afinal a vida é para o que se é) para então permitir a reunião com o outro. Aí sim, duas partes compartilham de verdade!

Como típica libriana, as relações de trabalho e as amizades são também casamentos pra mim. E muitos deles também vão mal. Vão mal pelos mesmos motivos acima citados. Por isso eu uivo pra lua: “Cuidemos mais de nós!”. Essa é a semente para toda e qualquer mudança. Olhemos para a nossa criança interna ferida, para a nossa mulher faminta, para nosso homem bobo e infantil ou para o machão sanguinário, para a bruxa vingativa, para a velha sábia... Cuidemos mais de nós! Mergulhemos na solidão interior e cuidemos dessa gente faminta que nos habita!

Achei tão bonito quando os homens (nossos amigos e parceiros) passaram a se encontrar para discutir e assuntar sobre o masculino. Uma luz no final do túnel! Homens se mobilizando em relação a questões afetivas. Sem dúvida, um sinal dos tempos, dos novos tempos. Estamos todos no cume de um momento histórico decisivo. Os padrões rígidos estabelecidos sobre o modelo de comportamento feminino e masculino “adequados” estão caindo por terra. Não há mais um modelo a seguir. Perdidos, olhamos a nossa volta, desesperados em busca de um modelo. Não há mais modelos externos. Há sim um modo de ser, homem e mulher, que só encontraremos dentro de nós.

A mulherada queimou o sutiã e vestiu a gravata. Os homens jogaram a gravata fora e não colocaram nada em seu lugar. Mulheres masculinizadas e homens sem forma. Mais uma vez, crise e conflito para nos fazer crescer. O primeiro movimento foi um grupo só de mulheres, o segundo um só de homens, movimentos pertinentes e necessários. Cada parte se revendo, individual e coletivamente. Mas está perto o terceiro movimento, onde homens e mulheres, sem máscara, e sem esconder as fragilidades e medos, poderão compartilhar aquilo tudo que descobriram na sua solidão de gênero.

Feminino e masculino são partes do mesmo todo. Sua separação possível é meramente didática, não orgânica. Espero que possamos conversar, olhando lá no fundo dos olhos (pois só aí perceberemos o quanto somos iguais na dor) sobre o que tem sido ser humano para cada um de nós. Aquelas(es) que estão atrasadas(os) ou amedrontadas(os), corram, corram para dentro de si mesmas(os). Revejam-se. Cavuquem no “de dentro”, cuidem das feridas internas, resgatem sua integridade primeva. Pois o terceiro movimento é vem chegando. Mas...

“Mas nas águas desse rio só entram seres inteiros, pois é o reino dos deuses e não entram forasteiros. Só então a meia noite é que se pode tentar, pois é mesmo nessa hora que as duas almas de outrora, voltam a se encontrar, formando um só ser, que dá gosto de olhar”.

Encontros de seres humanos para dançar, cantar, contar histórias, trocar experiências de vida e compartilhar a sabedoria humana. Aguardo com fé!!!

(Texto escrito para o meu amigo Adriano.)

24.6.05

Da Crisálida

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Ei,vem cá. Vem cá todo mundo!
É chegada a hora de cessar o lamento
De tirar o lenço e balançar ao vento
Acabou o tempo de interpretar!

A lavadeira chorona, a velha das galinhas, a menina moça, a doidinha,
A pobre coitada, a curandeira, a rameira, a rezadeira... Esse povo todo surgiu de trás das cortinas do tempo, de trás dessa pele fina, que recobre nossos seios, nosso ventre, nossa língua... Esse povo que saiu da memória celular, muscular, sei lá. De muito longe, de tão perto, tão incerto. 


Corpo de memórias, de lembranças primitivas
Do início da vida
De antes da mulher que veio do barro
Do tempo da mulher que veio primeiro

Nesse tempo do sonho, onde tudo é possível,
Foi feita uma reunião
Com as mulheres originais:
Nossas ancestrais!

Guardiãs do passado, que se faz presente na gente
Passado que sem o novo vai virar futuro
Porque já se sabe: se o novo é impedido tudo é repetido.
Por isso a reunião!

Saber o que se deve guardar e levar consigo
E o que é velho por demais, carcomido
Separar o joio do trigo
Matar o que deve morrer
Dar a vida ao que vida possui

Foi no tempo do sonho
Que nós, mulheres modernas, de computadores, diplomas,
Carros, freezers e microondas,
Mergulhamos nas nossas crisálidas de tecido
Nas colchas que formam nossas vidas
Costuradas pelas antigas

Cada retalho escolhido, cada fio repartido,
O jeito de distribuir as cores, os amores,
O modo de abrir ou fechar as pernas, de fechar ou abrir o coração,
Tudo isso foi traçado pela mão, pelo pé, pela pele, pelo corpo da mulher.
Nossa maior jóia
Lapidada pelas mulheres mais importantes da nossa história
Nossas mães, avós, bisas, tatás, quintas-vós
E a toda a mulherada,
Obrigada por tudo o que vivemos nessa jornada!

Texto escrito durante o processo de criação do espetáculo "Crisálidas"

Era uma vez
O beijo, o abraço, o carinho, o contato
Da menina
Que ela dava, despejava, distribuía
Entre todos que bem queria

Mas aí um dia... Ih, tem sempre um dia
Acontece alguma coisa que acaba com a folia:
A mania tão bonita da menina
Foi considerada errada, perigosa, proibida!

(Os outros)
“- A menina tá crescendo, já é quase moça feita. Melhor parar agora ou sua vida tá desfeita!”

(Outros outros)
“- Coisa mais fora de hora, constrangedora, ficar distribuindo carinho assim dessa maneira! Pode não! O que que os outros vão pensar dessa esfregação?”

(Menina)
“- Eu nunca vi dessa maneira. É só meu jeito de gostar, de ficar perto das gentes que quero perto a vida inteira!”

(O maior de todos os outros)
“- Besteira , bobage, lesera! Pode não, e tenho dito! Não se pode ser assim com qualquer um. Você há de aprender: Nessa vida tem UM alguém certo que há de ser seu bem querer.”

(suspiro longo da Menina)
“- Um? Mas eu bem quero a tanta gente! Por que só um escolher? Os beijos e abraços saem de mim sem me dizer. Eles é que escolhem seu rumo. Eu só deixo acontecer!”

(O maior de todos os outros)
“- Chega dessa conversa. Não pode mais e pronto!”

De fato, ninguém disse nada.
Mas pensaram.
E pensamento é coisa forte
Faz guerra, cria intriga, confunde e muda vida de menina.
Ela aprendeu a segurar os seus impulsos.
Cada vez que eles vinham ela tratava de engolir. 
Mas, sem conseguir digerir, lhe subiram à cabeça.
E invés de abraço e beijo, ela pôs-se a falar à beça.
E tudo virou blá blá blá.
Falaçâo pra agradar 


Muito tempo se passou.
Ela virou mulher feita, dona da própria vida.
Podia fazer o que quisesse com aquela sua mania bonita.

(longo suspiro da Mulher- menina)
“- Ah! Mas logo agora que o coração subiu pra cabeça e se esqueceu de descer?”
E chorou baixinho um choro antigo pra ninguém ouvir.
De saudade da menina que beijava e abraçava a vida!

Muito tempo depois, num quarto pequeno, sozinha
Bem velhinha, ela fez foi morrer...
Mas antes, um minutinho antes, da Vida lhe escapulir
Ela cerrou os olhinhos, se abraçou apertado e se deu um beijinho!

(Velha-menina)
“- Eu me lembro da menina. Sinto-a dentro de mim. Vou me embora junto dela, eu nela e ela em mim”.

Morreu, com sorriso nos lábios

Á noite, no cemitério onde foi enterrada, ouvem-se gemidos e estalos.
De beijos e abraços.
Dizem que é ela, a menina-velha
Que vai, de cova em cova, beijando e acarinhando
Cada um dos ossos dos mortos, ali enterrados

Essa história faz lembrar: um dia a Vida se esvai
E o que se leva da Vida
É o resultado dessa mania bonita
De se querer por demais.


Como cuidar do outro se não temos tempo para cuidar de nós mesmas? Como olhar o outro com carinho e respeito, se o nosso olhar sobre nós é demasiado crítico e negativo? Para responder a essas e a outras perguntas, a solidão é fundamental. É nesse momento de “crisálida”, onde, fechadas em nosso casulo, refletimos sobre nossos sonhos, planos e verdades mais profundas. Desse mergulho na escuridão preenchedora, saímos mais íntegras para viver então a “fase da borboleta” - quando estamos no mundo e para o mundo. Mas sem a integridade alcançada na crisálida, facilmente nos perdemos, nos vendemos, nos traímos.

Quando dedicamos um tempo para moldar a argila, estamos nos refazendo. Afinal o corpo da mulher reflete uma verdade da existência: tudo está sempre em transformação. É bom permitir que os seios, o ventre, a bacia, a vagina se expressem através da argila. Sem preocupação com o resultado, o que importa é o processo de criação. È permitir uma expressão mais fluida, e por isso, profundamente relaxante. Assim criamos espaço para ouvir uma outra voz, mais instintiva e visceral: a voz do corpo que nunca mente!

E se “não temos tempo”, vamos então aprender a aproveitá-lo melhor! Prolongar a hora do banho com uma auto-massagem carinhosa, passar um bom creme no corpo com carinho, colocar uma música gostosa e dançar enquanto fazemos as tarefas da casa... O que importa é criar momentos gostosos para ouvir e respeitar a voz do corpo. Só assim poderemos moldá-lo de acordo com nossas necessidades mais profundas. Afinal, se somos a argila, somos também as artesãs que moldam sua forma. E se não gostamos dela, basta desmanchar e tentar outra vez. Taí outra grande verdade da vida!

Desde muito cedo o teatro se apresentou como uma mandala capaz de me reconduzir ao centro, e assim como a psicologia, sempre me fascinou. Felizmente minhas duas paixões possuem profundas interfaces. 

Lembro da comunhão que se estabelecia quando, com seis ou sete anos, parentes e vizinhos, assistiam ao meu teatro de fantoches. Momento mágico onde eu demonstrava carinho por aquelas pessoas, estreitava vínculos, esboçava teorias em relação ao mundo, provocava, e me sentia feliz com a cumplicidade e as gargalhadas. Íntegra na ação de representar outros “eus” em mim, eu me alargava, criando espaço interno para o novo, para o lúdico, para o mágico. Sobretudo, eu era pertencente e co-atuante daquela comunidade e descobria assim a minha função nesse mundo.

Na universidade, a prática tradicional do teatro transformou o jogo dramático livre da infância num jogo em busca do “melhor desempenho" (em relação a um ideal bastante objetivo e rígido até). À época, relacionei tudo isso ao texto dramático (o discurso alheio) . E na busca pelo meu próprio discurso, reconheci na criação cênica em campo mítico-pessoal um caminho autêntico e libertador, que me permitiu não apenas falar sobre temas conflitantes, mas vivê-los simbolicamente, para compreendê-los e transformá-los. Abriu-se assim uma janela por onde entrou novamente a menina que brincava a vida!

A partir de 1994, passo a utilizar o termo “Umbigo de Eros”, como representação simbólica desta busca, onde o Teatro é religare ao Umbigo (centro) e ao Eros (amor), religando-nos ao Deus em nós (Self). Até 2000 está pesquisa desenvolveu-se solitariamente, através da criação de monólogos. A partir de 2000, além de atuar, passo a dirigir espetáculos e a ministrar oficinas, em especial o Ateliê para mulheres, buscando acessar o “umbigo de eros” neste contexto.

Desse período curto mas intenso, surgiram novas perguntas que me conduziram até a Psicologia Junguiana, hoje, suporte teórico e prático desta proposta expressiva onde o jogo teatral é ponto de equilíbrio, físico, emocional e até espiritual. Ao mesmo tempo em que nos mergulha nas inquietações mais profundas do ser humano, o teatro é uma brincadeira, um “fingimento” profundamente sentido e verdadeiro. Nesse paradoxo, as palavras se confundem, e, teatro, terapia, jogo, ritual e cura parecerem sinônimos absolutos. A única certeza que tenho é que “jogar teatro” nos faz pessoas melhores!

Mais uma vez escrevo para compreender, reunir e organizar inquietudes, desejos, medos e frustrações. Escrevo para compartilhar e para realizar o meu sentido aqui e agora, assumindo novamente o papel libertador e imprescindível de aprendiz. Escrever é descobrir novos caminhos. Mas a ação, qualquer que seja, pressupõe o risco do fracasso. Chegou o tempo de errar, e principalmente de me libertar do acerto!

(texto de introdução da tese "Teatro e terapia: A utilização de aspectos da Psicologia Junguiana na pesquisa teatral em campo mítico-pessoal, FACES/Ibehe 2005) 

1.9.03

O menino Criador

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Era uma vez um menino que gostava muito de bicho
Só que lá onde ele morava, que era um lugar bem redondo
Não tinha bicho nenhum.

Então ele passava o dia era sonhando
Sonhava com o jegue, o galo, a galinha e os pintinhos.
O jegue, o galo, a galinha e os pintinhos.

Esses bichos ele conhecia. Desse sonho que ele sempre tinha.
Tá bom, tá bom. Conhecia também as minhocas
Os caracóis, os cascudinhos, as lagartas, as libélula
Os bezourinho

Mas bicho grande, de pele, pêlo, carne e osso?
Desses ele nada sabia. Elefante? Nem pensar!
Em sua memória não cabia.

Mas a vontade era tanta, de cheirar, brincar, correr
Pular com os bichos, que o menino resolveu:
Ele mesmo faria os bichos que tanto queria!

Pegou uns trapos com a mãe e a cola que o pai fazia
Os gravetos ele mesmo conseguia
Tudo arranjado, partiu pra criação: Blão!
Primeiro veio o jegue, assim todo dengoso
Com uma carinha de bobo
Quando viu o bicho o menino enlouqueceu!
Subiu no lombo do burro que pulava pra lá e pra cá
Eitá. Eitá. Eitá!!!
A alegria era tanta que até as árvores
Começaram a pular

Mas cansado dessa agitação
O menino agradeceu o jegue por ter lhe ensinado
A mexer o corpo com satisfação e partiu pra nova criação

Dessa vez criou o galo todo pomposo
Com cara de Rei do Terreiro
Ele deu logo um ”cocorejo” que o povo se tremeu de medo!
Com seu amigo galo o menino aprendeu a soltar a goela
A cantar para alegrar a galera
Mas tomando cuidado pra não ir parar na panela!
“Cocorocó, cocorocó! Quiquiriqui”!

Ih!
Quando a voz enfraquecia alguém logo lhe dizia:
“Isso não é e nunca foi canto de galo
Esse assim, de ladainha, é cacarejo de galinha!”.
Cocó, cococó!
E foi assim que veio ao mundo
Junto com um montão de pintinhos
A serelepe galinha, ciscando pra lá e pra cá
Ela ensinou o menino a na Terra desenhar
Cisca-rabisca, cisca-rabisca!

Bichos ele já tinha vários
Mas como num quebra-cabeças
Dessa tal felicidade, parece que sempre falta uma peça
O que será que ta faltando pra completar a felicidade do menino?
Ah, é o ovo! “Mas ovo não é bicho!”
“Mas é claro que é!”
“Se não é, um dia há de ser. Então já é, né?”

Passada essa discussão, o menino criou o ovo
Seu último bicho de estimação.
Ai,ai,ai! Mas antes tivesse criado não!
Um dia o ovo rachou e de seu dentro saiu
Coisa que nunca ninguém viu.

Era um, era um, era um... Era um cú! Um cú sim senhor!
Ou fiofó, se ocês achar mio. Um sujeitinho atrevido e safado
Só fala besteira o destrambelhado!
Ah, mas o menino resolveu olhar lá dentro, no fundo
Mas tinha um entupimento bem na porta do dito cujo:
“Saí daí, sai da frente ô que eu quero ver tudo nesse interior!”.
Ele pediu, ganhou! Uma bomba de cocô
Explodiu bem na cara do provocador
Aí ele foi elegante. Limpou a merda de um olho
Limpou a merda do outro. E seguiu adiante

Olhou, olhou, olhou. E viu o coração!
Tava batendo num compasso feito samba canção!
Viu também a língua, a goela, as tripa...
“Eitá, tem um nózinho engraçado!
É o umbigo seu moço. Tá doidinho pra ser desatado!”

Pois o menino foi lá e desatou. Desatou a rir
E a falar muita besteira: “ Peido, côco, meleca,
Pinto, bunda mole, Vômito e xereca!
Peido, côco, meleca, Pinto, bunda mole,
Vômito e xereca!”

E quanto mais falava, mais ria
E a barriga já doía, mas o vício da porcaria
Já lhe tinha tomado inteiro!
A vontade do xixi apertou e foi aquele piseiro
Foi mijo pra tudo quanto foi lado
E desse mijo abençoado o milho brotou!
Já nascia feito pipoca, poca, poca, poca.
E toda aquela bicharada se alimentou.

E tomado desse desatino o menino foi subindo,
Foi subindo, foi subindo... E avoou!
Foi se embora pro Céu pra junto de nosso senhor
É que o céu andava triste, sem graça
E o menino alegrou: Inventava bicho, imitava,
Cantava, desenhava, dançava, corria, peidava
E fazia tanta tonteria que alegrou foi todo mundo
Desde São Pedro até Nossa Senhora da Abadia.

Essa história é pra lembrar
Que nas coisas de Deus, nas coisa do Amor
Nas coisa da Vida, tem que ter irreverência
Brincadeira!
Não se pode levar as coisa assim tão à sério
Se não a alma da gente esgarrrrrrça
Que nem um pano véio!

(O texto acima nasceu a partir de processos de auto-imersão, utilizando imaginação ativa e outras técnicas para acionar conteúdos inconscientes a partir da pesquisa “Umbigo de Eros”. Hoje é encenado dento do espetáculo “Contos do Interior”).

O Setor Comercial Sul, de Brasília, das 9h30 ao 12h em 26/8/2003...

Pesquisa de campo pra um espetáculo... Ando por aí meio sem graça, tentando encontrar um jeito de estar sem ser. Uma pedinte vem em minha direção: “Ô fia, me dá um dinheiro pra me ajudar. (Me olha nos olhos e sorrimos juntas). Ao menos 50 centavos. Fazer um lanche!” Eu respondo: Ô, tenho não! Rimos e nos vamos. Ela com andar trôpego e a mão direita no ar, pra equilibrar... Parecia bêbada mas não estava.

Por toda a parte, homens vestidos de terno e gravata surrados, carregando maletas, cabelos ensebados, rostos brilhantes. Vendem ouro, apólices de seguro e sabe lá o que mais, tentando fazer a mimesis dos grandes executivos...

Sentado na passarela/escada, há um senhor negro, vestido em tons de cinza: Chapéu, paletó aberto, camisa listrada, calça e havaianas pretas. Está sentado com uma perna dobrada e a outra apoiando o cotovelo cuja mão chacoalha uma pequena bacia de metal com moedas. O barulho substitui as palavras. Basta mostrar a bacia! Com a outra mão, fuma um cigarro forte e fedido. A mesma mão que segura sua bengala. Tem ainda uma sacola branca pendurada ao pescoço. O fundo musical dessa região é bem gospel. Um cara tem tudo montado ali. Vende CD’s e sonoriza o SCS.

Vejo uma moça nova, uns 20 anos, sentada no chão com duas crianças: uma bebê e outro de uns 3 anos. Eles brincam com encartes de supermercados. Sento quase em frente e disfarço. Me sinto mal por estar observando essa miséria pra transformar em Arte... Ela amamenta o bebê enquanto espera a esmola de um homem de Rybam. Ele demora pra encontrar. E quando encontra lhe entrega uma moedinha. O menino se afasta um pouco, e olha seu xixi que cai no fundo do bueiro. O xixi termina e ele continua ali, como que em êxtase.

Susto! No capô de uma belina branca, de Valparaiso de Goiás, há um saco cinza de onde se vêm saindo quatro pernas humanas! Me aproximo: são manequins. O carro está em frente a galeria CAL, e eu nem sabia de sua existência. No vidro, há uma frase legal: AS IMPRESSÕES NO CHÃO DA CIDADE ESTÃO QUEIMADAS NAS RETINAS E FIXADAS NAS MENTES DE QUEM VAI E VEM.

Na Galeria percebo que não sou a única escrota nas artes. Um painel com fotos de peitorais masculinos sarados – fotos retiradas da internet. Arte! No outro canto, até me emociono: Há um vestido de renda branco, pequenino, e na altura do coração pisca uma luzinha vermelha. Na parede próxima uma foto (montagem?) de uma bebê (boneco?) num clima de morte e velório. Parece morto! Ai, ai... São 10h45. Há mais pessoas agora e a tendência é aumentar. Jovens vestidos de adultos carregam pastas, celulares, tentando vencer a síndrome social do Puer Eternus. Como todos nós! Na lista de presença vejo nomes conhecidos. Imagino todos eles passando pelo SCS, cheios de nojo! Projeção!

Século 21 e o lema ainda é: Vigiar e punir! Caras do Detran, andam por todas as ruas, multando carros que estão estacionados em lugares onde todos nós estacionávamos há um mês atrás. VAGA Fácil! Onde estarão os flanelinhas? Talvez tenham sido incinerados a mando do governador. Eram tantos e não há nenhum! Esse lugar é estranho sem eles. “Vigia aí, dona?” Frase em extinção! Lembrei agora da Terra dos meninos Perdidos, do Pinóquio. A promessa da felicidade, sem os adultos por perto. Todos felizes dentro do caminhão. Será que os flanelinhas foram seduzidos assim para a morte? Delirius burguesis!

Dos novos produtos do comércio de rua, a mais esdrúxula novidade, são perfumes vendidos em bandejas de isopor cobertos com plástico transparente, como frutas! Cheirar, nem pensar! “Olha o vale. Olha o vale! Cartão pra celular! Cartão pro orelhão! (chavão da mulher, vendedora de meias coloridas)

Iniciei alguns papos comerciais tipo “Quanto custa? Bonito, heim!”, mas não consegui desenvolver o assunto. Pensei em me travestir de pesquisadora e argüir sobre problemas no comércio de rua. É sempre mais fácil ser outra! Numa loja, ouço:
-          Bom dia gente. Eu tô na correria aí atrás de emprego. Será que não tem uma vaga aí? Eu trouxe o meu currículo!
-          Deixa aí, mas agora não tem nada não.
-          É que eu tô na precisão. Minha filha tá doente. Eu faço qualquer serviço. Me dando um salário, eu faço qualquer serviço”.

No orelhão uma mulher ao telefone é esperada pela filha na cadeira de rodas – Sarah – Reabilitação Infantil. A vida é frágil! “Vale e tique! Vale! Vale!” Me sento. Já deve estar perto da hora marcada. Sento pra descansar. “Moça, posso te fazer uma pesquisa? É rápido. Só cinco minutos: Quantas televisões, freezers, geladeiras, vídeo cassete, banheiro etc, a senhora tem em casa? Dos produtos que sua mão usava, qual te vem à mente?” Bombril!!! “Como você se sente usando esse produto?”Eu adoro, me sinto super realizada. Bombril pra mim é tudo! A moça fica feliz com a resposta e me mostra fichas, quadros, tabelas e por fim devo colocar as fichas com adjetivos (de gente) nas tabelas referentes aos produtos:  MINUANO   OMO   BRILHANTE  PINHO  SOL   IPÊ     MON BIJOU. É uma pesquisa louca! Delicada, idealista, sensual, confiável, decidida, discreta, carinhosa, ambiciosa, agressiva, dependente, apagada, arrogante, fútil. E eu me pergunto: Se Pinho Sol é fútil, eu seria o quê? No início, tento criar uma lógica. A mulher tá colada em mim. Oba! Pintou outra freguesa. Aproveito e espalho aleatoriamente as fichas pela tabela enquanto anoto alguns adjetivos no caderno. Acabou, né?! Me levanto decidida.

Olho pro estacionamento e não vejo a Kombi. Ué? Ando mais adiante e nada. Que estranho! Vou até o orelhão. Nada! Não aceita ligaçâo a cobrar. Outro e nada! Oba! Cartões telefônicos. Não dá. Que absurdo: Quatro reais o mais barato. Eu só tenho 3 reais. Outro orelhão. Consegui! Caralho! Estou acima do local combinado e atrasadíssima. Me vem uma sensação infantil de “fiz merda e vou levar bronca". Puxa, depois de me divertir tanto! Vou descendo a rua tentando criar uma cara menos culpada. Chegando lá, estavam putos, claro, mas não demonstraram. Que bom, uma bronca naquele momento estragaria o resto do meu dia! Se bem que lá pelas tantas ouvi: “Já era de se esperar!” Que fama! Sabe, talvez aos 32 anos eu deva mesmo aproveitar essa fama e deitar e rolar na cama. Doido pode tudo!