Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!

28.7.11

ALEATORISMO

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foto aleatoriamente sugerida por jhcordeiro.


Desapego mesmo é permitir o “aleatorismo” (termo inventado por um amigo, já que não existe no dicionário). Tipo sair de casa sem saber pra onde, deixar-se levar. Permitir o inusitado. Qualquer hora você vai lembrar-se de um lugar legal, vai ver uma placa sei lá, no máximo, volta pra casa. É o aleatorismo, quase primo da Lei das Probabilidades, da Física Quântica, onde tudo pode acontecer. Será parente também da Sincronicidade?


Imagina passar meses montando uma playlist pra festa super dançante, você estuda minuciosamente as melhores transições, que música dá melhor seqüência pra outra, escuta mil vezes, faz mudanças cotidianamente, até que um belo dia considera que alcançou a melhor composição, ufa! Chegando à festa, você resolve deixar o CD tocar no modo aleatório ou randômico. Quer desapego maior? Certamente, depois da primeira música, você vai querer controlar a coisa, principalmente se a pista esvaziar, mas se conseguir permitir... Ilumina!

Tô falando aqui de momentos onde desapego é sabedoria. Mas sem essa bandeira ao desapego exagerado! Hoje em dia o apego é o grande vilão, no entanto, no dicionário, é sentimento de afeição, de simpatia por alguém ou alguma coisa, e tem como sinônimos, afeto, amizade, amor, benevolência, fraternidade, simpatia, ternura... Então cuidado ao destruir seus apegos, afinal a vida se faz de vínculos, de apegos, de Eros... Sou apegada aos meus afetos, amores, amigos, à minha casa, às minhas coisas... Se eu as perder, suportar a perda não será exercício de desapego (ou desinteresse, falta de amor) e sim de maturidade, já que desde sempre soubemos que tudo um dia vai morrer, vai findar... Nunca fomos enganados a esse respeito.

Já no aleatorismo o desapego é ingrediente vital, já que pressupõe o desinteresse em controlar, em acertar, em garantir qualquer coisa. O lance é permitir que a melhor escolha nos escolha. Confesso: eu vivi a saga da playlist citada acima! E, com um agravante: eu tinha um parceiro, que também havia gravado a sua, e ambas deveriam se harmonizar em uma hora de discotecagem! Definimos previamente que a dele tocaria primeiro.  No entanto, na hora H, cogitamos o aleatorismo, movidos pela ansiedade de que as músicas não agradassem, claro! Bom, eu sim, ele não sei, já que é anarco-budista assumido e nunca dá pra saber muito bem o que se passa com ele...

Graçasaosdeuses, não optamos nem pela ordem estabelecida e muito menos pelo randômico. Fomos mexendo tudo, ali, ao vivo, jogando as músicas, curtindo-as e dançando simultaneamente... E sem perceber, fomos Djs e, ao mesmo tempo, convidados, já que a parceria nos permitia também dançar as nossas músicas - Djs interativos! Ao final, meu parceiro pareceu feliz. Pra ele, a nossa escolha também foi fruto do aleatorismo. Talvez tenha razão. E viva o anarco-budismo!

E viva festa, o ambiente mais aleatório que conheço, onde, tudo pode acontecer, e acontece mesmo! ( Babados só revelo sob tortura!) Onde o ser brincante, gaiato e alegre que nos habita, mostra as caras e nos diverte, merecidamente numa epifania coletiva!  E viva o Adriano, em seus 40 anos de vida, que pretendeu fazer uma festa que, ao final, virou rave! Olha o aleatorismo aí de novo! E viva a Amy que deve tá fazendo festa no céu, ou no inferno, ou em outro lugar aleatório do espaço! 

Saiba mais sobre anarco-budismo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anarquismo_budista

Namastê

Anasha
Bsb julho 2011  


















desarvorar (de-sar-vo-rar)

v.t.Náutica Tirar os mastros a 
(uma embarcação).
v.i.Fugir atropeladamente; safar-se.
v. pr.Desnortear-se,
ficar desorientado.
Inquietar-se; exaltar-se; 
espavorir-se.



Sou uma desarvorada, sem dúvidas. 
Tem a ver com desejo? Sempre.
Com ciclo mensal? Certamente.
Me desoriento, me inquieto, perco o mastro e sigo à deriva...


É o momento em que não tolero mais alguém, alguma coisa ou alguma situação. E o basta vem mais forte que um furacão, basta! Sem vista grossa, sem cumplicidade... Ao mesmo tempo, gosto de ver a minha força se colocando dessa forma, impondo limites duramente porque foi necessário. Quantas vezes me calei pra não causar confusão? E fiquei ruminando aquilo, me enchendo de um troço que nem era meu...


Nessa intolerância, o corpo fala mais rápido que a mente, que é o que mais adoro! Brota uma sinceridade ontológica e celular! Dá medo porque não dá pra controlar, e esse é também o grande barato. Vem como uma possessão, que se for dirigida pro alvo certo, vira benção, cura. Se compulsão, vira violência gratuita, doença. Uma linha extremamente tênue as separa. 

As grandes peias de “desarvoramento” que levei da vida foram sempre cíclicas. Num primeiro momento, vitimizada, sou jogada na rua da amargura, do abandono. Pra sair dessa lama, só uma energia muito forte. Então sou reerguida pela raiva, pela incompreensão que brota de um profundo sentimento de injustiça que alcança Deus, a divindade dentro e fora de mim. Minha fé é abalada. Sem fé, sou empurrada pro livre arbítrio, e assumo as consequências dos meus atos, ui! Fardo solitário e pesado esse de assumir o próprio destino!  Deus então se faz necessário, já que acreditar suaviza, humaniza... Peço colo pra Deus e me reconecto. Mas se eu ficar muito tempo sentada aqui, capaz de não levantar nunca mais, fui! E perco a conexão sendo novamente lançada ladeira abaixooooooooo. Desarvoramento existencial!

O desarvorar feminino é assim, meio bipolar, quica entre dois pólos e nunca consegue perceber que há um “entre”... É intenso, quente... O corpo quer contato mas, sem tato, acaba trombando nos outros corpos, sendo frio e metálico... Quando na verdade queria tocar, sentir, sentir-se, permitir... Caçamos algo pra nos dar limite, pra comprimir tamanho descontrole, pra abraçar nos delimitando... E queremos briga sim, mas essa visceral, essa que vejo nos meus sobrinhos e no meu filho quando se atracam no chão, “brincando” de lutinha! Não entendia isso. Se machucam, choram, mas continuam ali no chão, rolando e se batendo. Hoje invejo isso.

Se nos fosse estimulado na infância esse “atracamento”, quem sabe  fossemos menos desarvoradas... Também precisamos dessa mistura de adrenalina, com afeto e contato, poxa! O futebol tem isso também... Essa integridade corporal no homem eu invejo. Acho todos os homens mais encarnados em seus corpos do que nós mulheres. Podem ser o que forem, mas moram em seus corpos... Nós podemos até morar um tempo, mas qualquer furacãozinho nos tira dele. E lá vamos nós buscar a cabeça rolante pra juntar num corpo, que, muitas vezes, nem reconhecemos como nosso...

Enfim, nos momentos de desarvoramento, a insatisfação é tempero garantido. Seja como doença, quando entro na eterna e repetitiva queixa ao outro, para que me restitua aquilo que me faltou. Ou então como provocação, na exigência de uma satisfação além do limite comum, que não se contenta com a demonstração de afeto do homem. E peço ainda mais, mais além das evidências. Por outro lado, se não fosse esses eventuais ataques de insatisfação, talvez ainda estivéssemos morando em cavernas. Tem algo de visionário na insatisfação feminina, vai.

Dias depois de toda essa crise, menstruei! Era mesmo TPM, da braba! Desarvoramento mensal!


"Não entendo, apenas sinto. 
Tenho medo de um dia entender e deixar de sentir." 
Clarice Lispector

Anasha
Maio 2011

Recebi muitos emails solidários de mulheres, algumas emocionadas e identificadas com a camelisse em si e outras indignadas, solicitando que eu matasse de uma vez essa tal “mulher-camêlo” – metáfora da mulher carente que me habita, entre tantas outras. Mas a coisa não é tão simples assim.

Em primeiro lugar, segundo minha filosofia, baseada no pensamento junguiano, tudo o que aparece na nossa vida tem lá sua importância e um sentido, muitas vezes oculto, que tem algo a ensinar. Segundo, a camelinha faz parte de mim, me constitui e se ela deu as caras, é porque tá precisando de atenção, de cólo e principalmente, de espaço pra se expressar positivamente. Afinal, só há sombra porque há luz.

Por traz de sua extrema carência, chatisse, controle etc e tal, a mulher-camelo guarda uma luz forte, quente e revigorante. E também uma enorme capacidade de entregar-se e de amar, com integridade e profundidade, de modo livre e, ao mesmo tempo, aconchegante. E certamente, seu avesso de luz não habita o deserto e sim a terra fértil, abundante, colorida e auto-suficiente do seu próprio corpo-mundo. Nesse universo, um outro entra, não pra tapar buracos ou complementar nada, e sim pra curtir junto, simplesmente.

De modos variados, venho entrando em contato com muitas dessas gentes que me habitam. Sombrias ou iluminadas, essa gente faz parte de mim, seja porque já as trouxe comigo, seja porque as assimilei durante a jornada. Assim, sigo brincando com a teoria junguiana, inventando novos modos de jogar com as técnicas, criando novas, que favoreçam a expressão dessa galera interna. E assim, a assassina sanguinária incorpora também sua fragilidade e medo profundo e chora feito criança; a medrosa, cagona quase paralizada desnuda sua força e coragem; a mal-humorada, raivosa e bélica encontra espaço para pedir cólo, carinho, contato, desmontando a couraça, e se permitindo mostrar sua dor. E assim, sigo liberando as vadias em marcha, dentro de mim!

Semana passada, vi um montão dessas gentes, saídas de outras mulheres. Finalmente libertas, mostraram sua escuridão e, na sequência, tanta luz e beleza que nos deixaram surpresas. Então, recebam com carinho o obscuro que lhes habita, que com certeza, só vai brotar coisa bonita!

“A abundância é escavada da abundância,
e ainda assim a abundância subsiste”
Upanishads

Namastê

Anasha
junho/2011

“O amor romântico é o maior sistema energético dentro da psique ocidental”. Com esta frase impactante Robert Johnson começa seu livro WE, onde discute o relacionamento amoroso a partir do mito de Tristão e Isolda. O autor aponta o amor romântico como um fenômeno de massa peculiar ao Ocidente. Até aí tudo bem, o problema é que acostumados a conviver com as crenças e suposições do amor romântico, acabamos por considerá-lo como a única forma possível de amor.

Para Jung quando um fenômeno psicológico marcante acontece na vida de uma pessoa, traz junto um tremendo potencial energético que amplia a consciência. Assim também ocorre coletivamente quando uma nova possibilidade, idéia, crença surge trazendo uma nova maneira de encarar o universo. O amor romântico está em crise e sendo colocado em cheque dia a dia, o que abre brechas históricas pra algo novo, ou talvez extremamente antigo e orgânico e do qual nos perdemos.

Concordo com o autor ao afirmar que se homens e mulheres compreenderem os mecanismos psicológicos que atuam por traz do amor romântico, poderá emergir uma nova consciência e relacionamentos muito mais saudáveis. Mas pra saltar pro futuro é preciso escarafunchar bem o presente. Afinal, quais são os mecanismos ocultos do amor romântico? Regina Navarro, psicóloga aponta especialmente 6 máximas que povoam esse universo:
• Só é possível amar uma pessoa de cada vez;
• Quem ama não sente tesão por mais ninguém;
• O amado é a única fonte de interesse do outro;
• Quem ama sente desejo sexual pela mesma pessoa a vida inteira;
• Qualquer atividade só tem graça se a pessoa amada estiver presente;
• Todos devem encontrar um dia a pessoa certa.

Para a autora, o amor romântico faz parte do pacote do patriarcado, pressupõe a projeção de nossas fraquezas no outro, além de simbiose e dependência. Inicialmente lemos a lista acima e achamos que não temos nada a ver com isso. E ainda, claro, lembramos imediatamente de vários casais tipicamente românticos e de suas neuroses e feridas expostas. Mas ao investigar mais profundamente vai dando um mal estar... Por mais modernos que sejamos, por mais sinceros e liberais, em maior ou menor grau, ainda agimos em consonância ou em rebeldia ao amor romântico.

Vivemos um momento de desintegração das estruturas rígidas do relacionamento tradicional, embora, saibamos, há pessoas ainda pautadas em relações machistas, onde cabe à mulher submeter-se às vontades masculinas, anulando sua existência como sujeitos autônomos, independentes e com desejos próprios. A grande maioria das mulheres que atendemos no Programa Roda de Mulheres vive sob esses preceitos. Mesmo quando a mulher é a provedora, ainda assim a estrutura permanece intacta, já que a mulher, sem autonomia psíquica, segue projetando no homem seu poder. Urge ajudá-las a ampliarem suas visões e especialmente, suas afetividades (incluindo outras gentes) e sexualidades (incluindo outras fontes de prazer).

Mas quero falar de uma parcela da sociedade que realmente está vivenciando e questionando conscientemente a mudança, grupo no qual me incluo. Vivemos um momento de extrema fragilidade. A quebra do padrão clássico e tudo que vinha no kit abriu novos caminhos de liberdade, o que é maravilhoso mas causa ansiedade já que não há mais certezas nem amarras. Em verdade, tínhamos uma ilusão de segurança. Hoje estamos todos tendo que aprender a lidar com nossos amores de forma mais leve e livre... Ao mesmo tempo, em contraponto à rigidez anterior, hoje os relacionamentos são como comida instantânea, fast food, muita variedade, não gostou trocou. Tudo muito rápido e pautado na busca pelo prazer imediato. Nesses tempos de fast love vejo uma rebeldia ao estado anterior, compulsiva mas necessária. Para alcançar o caminho do meio, mais saudável e maduro, talvez tenhamos que sentir na pele os dois lados da moeda, pra adquirir distanciamento crítico e um maior discernimento.

Nesse percurso será impossível não rever nosso conceito de liberdade. O que é ser livre pra mim? Como exerço minha liberdade? E ainda encarar a freqüente confusão entre liberdade e libertinagem. Libertinagem como o uso da liberdade sem bom senso, acabando por transformá-la em um veículo nocivo a si próprio ou aos outros. A dificuldade aí está no fato de que ambos os conceitos são construções pessoais. Para alguns, decidir passar cada noite com uma pessoa diferente é uma característica da liberdade, para outras é libertinagem. Neste sentido, diferente do modelo anterior onde esse e tantos outros assuntos vitais numa relação eram tabus, necessitamos tratar disso com os(as) parceiros(as) deixando claros os nossos limites e conhecendo os limites do outro.

Outro conceito em cheque é o da fidelidade. Fidelidade a quem? Se é impossível ser fiel ao outro sendo infiel a si mesmo, devemos fidelidade aos nossos sentimentos, basicamente. Em seu livro “A Alma Imoral”, o pastor Nilton Bonder trata desse tema com maestria, recomendo. Enfim, historicamente, nunca fomos tão livres para escolher. Mas sempre vale pesquisar o grau de liberdade dessa escolha já que, muitas vezes, estamos cega, inconsciente e compulsivamente repetindo padrões familiares que conscientemente abominamos.

Como geração da transição, sobrou pra nós e pros nossos filhos a oportunidade de reelaborar uma forma particular de relacionamento, uma nova ética do amor. Venho construindo a minha sobre a qual tenho uma única certeza: sua base é o slow love no agora. Tudo bem devagarinho, vivido no aqui e agora e sem expectativas. Bom, criar a cartilha é fácil, difícil é pôr em prática. Sigo tentando.

“Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho,
mais preparado estará para uma boa relação afetiva”. 
Flávio Gikovate

Namastê

Penso na impossibilidade da expressão da palavra exata... Há momentos em que a língua trai e saem da boca palavras que não traduzem o que queremos realmente dizer. A língua é o único músculo voluntário do corpo humano que não fadiga. Se a língua não cansa, como faze-la parar? Ao mesmo tempo... Podemos beijar incansavelmente... Ah, então não dá pra culpar esse maravilhoso músculo, ator principal dos delírios de prazer de um beijo bem beijado!

Queria resgatar a etimologia das palavras bem como suas relações com outras... Por exemplo: Libido, liberdade e lubrificante têm a mesma raiz latina lib. Faz sentido já que sentir amor erótico significa ao mesmo tempo libertar-se, estar desimpedido, lubrificado...

Enfim, cada um de nós tem seu repertório de palavras que precisa de limpeza e atualização constantes. Desapegar-se de palavras gastas faz bem! Limpar seus usos viciosos ... Assim como substituí-las por novas, menos impregnadas de nossas próprias limitações... Palavras viciadas, em sintaxes impeditivas, repressoras... Seguir essa arrumação sabendo que nesse nosso baú de entendimentos há uma parte indelével, que não dá pra apagar... Mas essa é uma outra história...e a mesma.

Escrevo em estado de ressaca moral, obviamente. E queria poder percorrer o trajeto interno das palavras... Desde o nascimento daquilo que quero expressar até sua expressão (ou não-expressão). Hum, interessante seria também percorrer o trajeto interno do beijo...

Vamos lá. O beijo, exemplo desta utópica excursão dissecativa, começa no “estou sendo beijada”. Nesse momento mítico e mágico, cujo tempo, sendo subjetivo, não se pode medir, milhões de informações são geradas no corpo, na mente e no espírito. A experiência (beijo) faz brotar um sentimento ou emoção (onda) que deflagra um complexo esquema de comunicação interno. A onda segue seu caminho atualizando a galera: pele, ossos, células, músculos, linfas, hormônios, sistemas energéticos, útero, vagina, pés, mãos, tudo enfim, e cada qual a seu modo, começa a reagir ao beijo, fonte primeira. Das profundezas do corpo brota um progressivo aumento de ritmo e intensidade que alcança a superfície da pele refletindo-se no aumento de temperatura, da umidade (fluídos como suor, lágrimas e outros podem ser expelidos), dos batimentos cardíacos ... E dos pensamentos, claro! E é aí que a porca torce o rabo! Os pensamentos intensos bloqueiam o movimento anterior, tirando automaticamente os processos corporais do foco. E passamos a pensar a situação ao invés de vivê-la e somos lançados ao passado ou ao futuro. Eficiente serviço de impedimento da felicidade, já que essa só rola no presente!

Conclusão: a mente, ou melhor, o eggs (meu jeito carinhoso de chamar nosso ego metido à besta que de tão chique só pode ser mesmo escrito em inglês e no plural, já que vale por dois de tão fenomenal!) é um sabotador da nossa felicidade. Depois de maravilhosa jornada rumo ao êxtase, do beijo deflagra-se um outro percurso de comunicação, cuja lógica é tosca e neurótica: insegurança, medos, ansiedades, carências, experiências negativas do passado, questionamentos, dúvidas, o desejo incontrolável de controle da situação, de saber o que acontecerá depois: Por que esse beijo agora? Foi tão bom pro outro quanto pra mim? 

Olho pro ser humano cuja língua me pegou de jeito e dou um jeito de afastá-lo de mim! Minha Torre de Babel (que significa a "porta do céu" ou a "porta de Deus") erguida à base de trabalho interior e meditação, é atingida por um raio de fogo e se desmancha no chão. Quem mandou parar de meditar?

"Liberdade, em filosofia, designa, de uma maneira negativa, a ausência de submissão, de servidão e de determinação, isto é, ela qualifica a independência do ser humano. De maneira positiva, liberdade é a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional. Isto é, ela qualifica e constitui a condição dos comportamentos humanos voluntários”.(O Grande Google)

O exercício da liberdade é árduo. Saber-si dona de si... Mais fácil projetá-la sobre alguém... Sufocando gentes de nós... O processo que se dá dentro das mulheres do agora, entre 30 e 50 anos, independentes, livres, sabendo exatamente do que se libertarem... E mesmo assim presas... Ah, dei-me a liberdade de fazer parceria neste texto, com nosso amigo Google.
"Para Sartre, a liberdade é a condição ontológica do ser humano. O homem é, antes de tudo, livre. O homem é livre mesmo de uma essência particular, como não o são os objetos do mundo, as coisas. Livre a um ponto tal que pode ser considerado a brecha por onde o Nada encontra seu espaço na ontologia. O homem é nada antes de definir-se como algo, e é absolutamente livre para definir-se, engajar-se, encerrar-se, esgotar a si mesmo. A liberdade é absoluta ou não existe”.
Lembrei de uma parábola. O aprendiz vai ao mestre cheio de perguntas. O mestre permanece em silêncio e diz algo como “a sua xícara/mente está muito cheia, não há espaço. Posso lhe dar repsotas mas você não irá ouvir. Esvazie-se, crie espaço interno”.
"A liberdade é como o espaço, e que depende do ser humano que
ela seja, também como ele, mais ampla ou mais estreita, vinculada ao
controle dos próprios pensamentos e das atitudes. O conhecimento é o grande
agente equilibrador das ações humanas e, em consequência, ao ampliar
os domínios da consciência, é o que faz o ser mais livre". 
Sigo tentando me esvaziar, do inútil, do feio, da grosseria, da má companhia... Tenho também encontrado beleza, doçura, ternura, dentro e fora. Assim como me preenchido de experiências, sensações e imagens de liberdade que alimentam profundamente minh’alma. O documentário sobre o amor de Saramago e Pilar Del Rio, a exposição do Esher, Tom Zé ao vivo, Nina Simone, dançar com meu filho, uma visita inesperada, ouvir experiências felizes, beijar na boca...

Beijar na boca é uma das coisas mais gostosas do mundo! Perguntei pra um monte de gente e todos concordaram. É uma epifania de liberdade! Quase um vôo, um plainar sobre as nuvens com sabor, quentura, presença... A liberdade da brincadeira... de tocar um outro que naquele instante é também você... O medo e a liberdade andam lado a lado... Em contraponto à liberdade, tenho visto coisas horrorosas - os cárceres da alma expostos à luz do dia - como a lavagem de dinheiro dos políticos brasileiros. É doloroso ver dinheiro, que é energia de vida, sendo desviado de forma tão tosca.
"A liberdade humana revela-se na angústia. O homem angustia-se diante de sua condenação à liberdade. O homem só não é livre para não ser livre, está condenado a fazer escolhas e a responsabilidade de suas escolhas é tão opressiva, que surgem escapatórias através das atitudes e paradigmas de má-fé, onde o homem aliena-se de sua própria liberdade, mentindo para si mesmo através de condutas e ideologias que o isentem da responsabilidade sobre as próprias decisões".
Enfim, falo às mulheres do agora. Que tal fundir nossa Prostituta Sagrada à Mulher Invisível, ou pedir emprestado o laço da invisibilidade da Mulher Maravilha... Aprender a estar sem ser vista, sem ser foco... Libertar nossa Amante Divina de uma certa imagem romântica, estática e ilusória... Ensinar nossa Puta Santa a ficar de boca calada, e guardar em si as experiências preciosas, para que se desenvolvam, nos envolvam, nos cresçam... Guardar em si os mistérios... Só o tempo refina a observação rumo a escolha da alma...
"Cada um acredita de si mesmo a priori que é perfeitamente livre, mesmo em suas ações individuais, e pensa que a cada momento pode começar outra maneira de viver [...]. Mas a posteriori, através da experiência, ele descobre, para seu espanto, que não é livre, mas sujeito à necessidade, que apesar de todas as suas resoluções e reflexões ele não muda sua conduta, e que do início ao fim da sua vida ele deve conduzir o mesmo caráter o qual ele mesmo condena."
Dá-lhe Schopenhauer, o precursor do movimento punk! Essa visão que dá ênfase a impossibilidade já não me atrai. Me vejo em eterno movimento de mudança. E confesso que tenho repetido o tal "só por hoje" dos AA como um mantra. Só por hoje serei feliz feliz de chorar. Só por hoje vivo a paz interior que é minha e que eu batalhei pra conquistar. Só por hoje vou vestir a roupa nova de festa para ir na padaria. Só por hoje a vida vai me emocionar a cada passo que eu der. Só por hoje, todos os dias. Todos os dias, só por hoje.
"Basicamente o homem está preso ao conceito de “liberdade”. Ele acha que liberdade pode ser alcançada ao ir-se contra algum sistema ou normas existentes na sociedade. “Liberdade” é essencialmente um estado interno da existência onde você não mais interage no mundo tendo como base o medo. Deste modo não há mais pressão ou resistência contra qualquer estrutura, lei ou valores impostos pela “sociedade”. A liberdade não é uma revolta contra algo. A Liberdade é um estado de consciência que não tem oposto."
Sri Bhagavan
Namastê
Anasha

15.3.11

Afeto

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"As palavras sem afeto nunca
chegarão aos ouvidos de Deus."
(William Shakespeare)

Penso na impossibilidade da expressão do afeto. Já escrevi sobre o assunto antes, no texto “O dragão arrogante ou a sina da menina” de 2005. O tema persiste.

O humano é naturalmente afetivo, carrega em si essa força. Imagino quanta carga de energia será necessária pra represar o afeto... Os trajetos internos percorridos rastreando as quantas miúdas e potentes nascentes de afeto... sendo obstruídas lentamente... E depois quantos anos para fazer o caminho de volta, meudeus...

Isso vai acontecendo com a gente. Nascemos afetivos e se não tomamos cuidado morremos secos de afeto. Sempre que, naturalmente, me vem o impulso de beijar, abraçar, acarinhar alguém e eu o permito, alimento profundamente minha alma, minha menina, meu deus, minha carne...

Entrei 2011 assim, rodeada de gente que amo, alimentando-me. Divaguei um pouquinho sobre a diversidade daquela gente, suas características, desejos, jeitos. Os detalhezinhos, as peculiaridades de cada um, que justamente os fazem amados... Logo cansei do exercício mental e simplesmente senti o amor, o amor em mim dirigido aquele povo todo...

Dia desses, teclando com um amigo, jogamos “as melhores coisas do mundo”: a cada frase minha seguia-se uma dele e assim ficamos um tempão, mergulhados em nós, pescando do fundo, as coisas que realmente nos são importantes... Ver os filhos se divertindo; escutar música; caminhar no mato; assistir a um filme que mexe comigo e sair do cinema de carro, passeando chorando, berrando; parir meu filho; a preparação de uma festa até a festa; rir, rir de chorar; conhecer gente interessante; fuçar as histórias do passado da família; pôr do sol na praia; estar grávida de uma idéia, projeto, amor; dormir de conchinha...

Me lembrei de quem sou e sem perceber, recheei-me de afeto, por mim.
Gracias a la vida!

Anasha
Vale conferir Deleuze falando do amor: http://www.youtube.com/watch?v=OlnJL4Mv1vM
http://www.youtube.com/watch?v=OlnJL4Mv1vM

16.12.10

Salve a liberdade

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Escrevo este texto em protesto a outro que recebi há pouco. Nele, o autor ou autora pretende convencer o leitor da inutilidade de um praia naturista na Paraíba. Um de seus argumentos é que: “...nem mesmo a faixa extensa do Ceará, infinitamente maior do que o da Paraíba, tem se dado ao luxo de ocupar tamanha extensão com a atividade lúdica do naturismo”. Mas isso não deveria ser motivo de orgulho pro Estado?


O texto por demais simplista não leva em consideração que uma praia naturista, onde quer que esteja, atende a interesses de uma minoria sim, mas que só é minoria porque ainda vivemos numa sociedade repressora e tivemos uma educação repressora. De fundo, a maioria das pessoas gostaria sim de ficar nua, como todos nós já fizemos quando éramos crianças, livres, soltas ao vento... mas não pode, não consegue, não se permite. Se assim o fizesse descobria uma liberdade tão grande em si... Liberdade nos dá integridade, autonomia, coragem. Mas os "poderosos" desde sempre obstruíram a liberdade para que o ser humano ficasse frágil, medroso e encarcerado em si, porque desse modo é mais fácil dominá-lo, enganá-lo, usurpá-lo.

A existência de praias naturistas atende a democracia e dá espaço para o exercício do naturismo de uma minoria que busca a liberdade, a beleza, a natureza e sobretudo viver a sua corporeidade de modo tranquilo. Um outro argumento usado para o fim de Tambaba me parece ter sido um caso de pedofília na área. Quanto a isso, podemos então dizer que nenhuma criança deveria jamais ter contato com uma igreja ou padre católico, já que não são poucos os casos de abusos “na área”.

Um viva as praias naturistas que possibilitam rica discussão em relação a corpo, saúde e porque não, sexualidade, lembrando que sexualidade engloba muito: nossos afetos, o modo como lidamos com o nosso corpo e com o prazer não apenas em relação ao ato sexual. Deliciar uma boa comida, dar um abraço gostoso num amigo, ficar nu numa praia tranquilamente, ler um bom livro, dançar, enfim, alimentar o prazer na vida é sexualidade.

E se alguns ainda consideram que o fato de alguém querer ficar nu significa que quer fazer sexo, taí mais um motivo para a existência e a manutenção das praias naturistas, pois elas ainda tem muito a nos ensinar. Neste sentido, o naturismo é educativo além de libertário, claro. Pena que alguns ainda temam tanto a liberdade.

Namastê

Anasha