Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!


Se a sensação é a de ter perdido o centro, sinal de que em algum momento ele estava aí. Então, ao invés de nos apegarmos à sensação da ausência, tentemos  lembrar de como era estarmos centrados. Tem dado melhor resultado do que chafurdar na confusão. Mesmo porque faz pouco tempo que estive nele. E o corpo, as células, a pele, lembram muito bem desse lugar em mim... Lembrei de uma história infantil que meu filho adorava ouvir: "Mamãe perde e acha". Ele, sempre perdia tudo, e na história, quem perdia era a mãe. Aquilo devia lhe dar um alívio enorme... Me alivia agora lembrar da luz, da minha, e da naturalidade com que convivi comigo mesma, tranquila e amorosamente durante 30 dias. Eu sei que é mais fácil viver a própria beleza e encontrar a serenidade num lugar diferente, com pessoas desconhecidas, e onde o cotidiano é pura novidade. Sim, é verdade. Mas tem quem não se sinta bem consigo mesmo nem em situações assim. Se conseguimos, talvez valha a pena investigar um pouco esse processo. 

Ninguém está centrado o tempo todo, rateamos muito, mas talvez seja possível prolongar um pouco mais a bem aventurança reconhecendo o que nos tira do prumo. Comigo, dessa vez, está bem claro: Me deixei levar afetivamente pela situação, me esparramei perdendo totalmente o discernimento e os observadores, interno e externo, foram pro bebeléu. Quando vi, eu e a situação difícil éramos a mesma coisa. Como dar jeito em algo que sou eu mesma? Tô aqui separando o joio do trigo... E reconstruindo esse lugar em mim, que perco e acho. Não à toa, nessa semana, uma caixa com compartimentos que guardavam e separavam várias miudezas, se esparramou no chão. Lá fui eu, separar cada coisinha e colocá-las em seus lugares. Fiz isso duas vezes na mesma semana! Além de paciência, essa ação me obrigou a refletir sobre a tendência de me acoplar, seja a uma situação ou pessoa, perdendo minha individualidade, meu centro. E ainda jogando sobre o outro a minha responsabilidade. O medo faz isso. E o medo foi tão grande, mas tão grande que saltei, pra fora de mim mesma.

Enfim, lá, no momento do centramento, natural era, por eu ser literalmente estrangeira ali, observar a vida e as pessoas, buscando respeitar a dinâmica delas, não ser invasiva nem impositiva. Não foi uma atitude pensada, me é natural quando viajo sozinha. Talvez por isso eu goste tanto de viajar só. Como tudo é desconhecido e tudo pode acontecer, e não conheço ninguém, só posso contar comigo. Esse sentimento fortalece meu centro, mas nem por isso me afasta das pessoas. Pelo contrário. Me deixa aberta pro encontro de um modo muito gostoso. Faço amigos queridos. Quem sou eu e quem são os outros me fica muito claro. E não há cobranças nem apego, afinal estou ali de passagem. Estamos aqui de passagem! Lembrar disso pode ajudar...

No mais, tô cuidando do medo, que foi quem começou essa bagunça. O medo do que pode acontecer. Ou melhor, da possibilidade de algo ruim acontecer. E ai vejo o tanto que esse mecanismo é tosco e não ajuda em nada. Se é pra criar expectativa, que seja de que algo muito bom vá acontecer. Melhor ainda seria não criar expectativa, essa prima-irmã do apego que também adora bagunçar. O medo me faz me apegar. De novo, o medo... Phobos em grego, filho de Ares e Afrodite... Deus da Guerra e Deusa do Amor... Tem coisa ai pra gente investigar, já que, como dizia Jung, "Os deuses tornam-se doenças...". A doença, enquanto arquetípica, é universal e necessária pois os Deuses, ou melhor, os mitos descrevem padrões necessários à nossa completude.

"O encontro entre Ares e Afrodite expressa uma polaridade simbólica. Ares, deus da guerra, fator masculino, ativo, auto-afirmativo, dinâmico e tudo o que pudermos pensar em relação a isso, e Afrodite, deusa do amor, fator feminino, receptivo, passivo, acolhedor, não auto-afirmativo, mas reconhecedor do outro. Não é de se estranhar que não se trate de uma relação permanente, assentada, mas um encontro bem tumultuado, visto que se trata de uma expressão bem extremada desta polaridade. O contato entre pólos tão extremos produz grande tensão, mas, ao mesmo tempo, há uma enorme possibilidade de fertilização. Desse encontro nasceram três filhos: Fobos (o medo), Deimos (o terror) e Hermione ou Harmonia, "a que une". Há, portanto, uma possibilidade de entendimento e integração entre os opostos. Se a fobia é fruto de um encontro conflituoso entre determinados aspectos do masculino e do feminino, traz também a possibilidade de harmonia entre eles". (http://www.padrefelix.com.br/psicologia25.htm) 

Agora vou ali, botar meu Medo no cólo, fazer cafuné, contar historinha pra que ele se lembre que a Coragem é a luz do Medo, e que Harmonia é sua irmã, e tá bem aqui pertinho, pronta pra ajudar. 

Namastê 

Anasha




Criei uma casca aqui, litlle by litlle, e agora tô começando a perdê-la, como os eucaliptos no verão... A casca grossa, criada e parida no frio, vai se desgrudando com o calor... Vivo o verão aqui, diferente do nosso, mas ainda verão. E nele fui criando uma casquinha leve, que me cobriu de uma suavidade nova, doce, relaxante... Com a proximidade da volta, e especialmente, com notícias fortes vinda de Brasília, comecei a voltar pra lá ainda estando aqui. Na verdade, fiquei em lugar nenhum dois dias. Espaço de uma solidão absurda, sem saída, escura, densa, onde o melhor em mim tentava acolher o medo maior que carrego... Desespero contido na pele... Acho que fiquei sem pele... 

A coisa se acalmou no de dentro e se inicia a preparação pra volta, pro de fora, que encontrarei no Brasil, com nova pele. Já a sinto crescendo, sutil e decidida desde ontem... Vai nascer lá, no inverno frio e seco, pressinto as primeiras contrações, imaginando que se iniciarão no avião... Que seja uma pele de leoa, forte, amorosa, pra eu cuidar da minha cria... Quando meu filho nasceu, cantei, uma música inventada, parida ali, vinda das entranhas junto  com ele... Cantarei novamente agora, nem que apenas aqui dentro. Amor de mãe é um sentimento indescritível, inenarrável... Amo tudo o que crio, mas filho é uma mágica outra. Ser saído das profundezas da minha carne... Como não amá-lo com todas as forças que possuo, e mesmo com as que nem tenho?

Conhecer gente é estimulante, um universo tão diverso encostando no nosso, abalando, chacoalhando as estruturas, fazendo repensar, aumentando o leque de possibilidades em níveis transcendentes... E se essa gente é filho então... Gente tão igual e ao mesmo tempo tão diferente... Fora de mim, universo outro, de repente, crescido, enorme, maior do que eu... Que questiona, ama, sofre, experimenta, descobre, sofre, corre, grita, desespera, ama, se amplia à mercê de mim... Impossível contê-lo nos meus braços como quando era pequenino... Espero que, algo lá dentro dele, guarde a memória desse cólo de mãe ainda e sempre vivo na carne do mundo... Cólo de mãe é talvez o mito maior, o verdadeiro paraíso perdido... O meu tá aqui, eternamente aberto, pra ele, marcado por ele, só dele... Nascido da pele da minha pele... Maior amor da minha vida! 

"A mãe reparou que o menino gostava 
mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos". 
Manoel de Barros

Namastê
Anasha 

24.7.13

The Supers

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Once upon a time... There was a cute boy with very white skin, pink cheek and skate board, a typical teenager with typical problems with parents, school tests, girls and stuffs like that. But he has a secret: his super powered wave hair! If somebody is in trouble with bad guys, for example, he touch his wave hair and tchan tchan, he becomes Pasta Boy, a modern hero, with a super gun that can shoot pasta: pizza, fettuttine, spaguetti and it can paralyze bad guys untill the police cames. There is just one thing that can stop our hero: his mama! If she calls him, forget it! What a shame, Pasta Boy! Well, I dont need to tell that he lives in Italy, of course!

And now, our second character, Maria from Spain! She's a beautful girl and a very good dancer. She can dance salsa, samba, rock, hip hop and everything. But when she dances flamenco, it's amazing, so fantastic that Maria reveals Maria Bonita, the most beautiful girl in Spain. She mesmerizes everybody like Medusa did in Greece. So, she just dance flamenco when are troubles to be stopped!

There are more special characters in this history:Three beautiful girls, also typical teenagers with their dreams, loves, musics, clothes and everything. They are from Taiwan and  they  also have a secret identity: They are the Super China Girls! The first one is a silent girl and we never listen to her voice, but If she open her mouth, the sound is so peacefully like a soft song for children that can transforme people's heart, bad people become good ones. The second girl can transform things: a tablete samsung in an iPad from Apple, chinese pasta in mcdonald's hamburguer, cookie in carote, or the Eiffel Towel in Torre de TV in Brasília, wherever. And the last one can investigate everything in her super iPod: Murders, cause of deaths, where lost things are, how to beat a super bad guy, answers for everything... But she can't find the answers about her fellings! 

There is one more character, a polite lady from Japan. She takes care of her daughter with love and  knowledge. But she also has a secret: At midnight she becomes The Princess, a super heroine. She can fly and see what are in people's heart. Its impossíble to lie to her. And about me? Well, I'm a Trouble Woman, always looking for fun, new places, new people, new cultures, new musics... Unfortunatelly I never find trouble. My Secret power is to figure out a solution and to break trough the boring lifes and stoped people's regret. There are three others interesting characters from Spain, France and China, but, fellows, you must wait for the next chapter to The Supers.

The big question is: What those people have in commom besides their superpowers? How can Pasta Boy save people in Europe just speaking italian? How Maria Bonita can to stoped stupids wars around the world, just speaking spanish? How the Super China Girls can send to prison bad polítics in Latin America just speaking in chinese? How can I found troubles in Berlin, Madrid or Bali just speaking portuguese? So, we meet each other in a super english course, and our professor is the same guy that teaches english to superman when he comes from his planet! James, our teacher, has a secret identity too: he is a magical hippie from 70' that can play beautiful piano's songs and tell us funny jokes! When people laught, life becomes nice, don't you think? 

Namastê
Anasha

Certa vez, ouvi uma lenda sobre as Mulheres-pássaro. Elas podiam voar e assim observar suas vidas de cima, com distanciamento e em detalhes, já que possuíam a precisão da visão da águia. Do alto podiam perceber os diversos aspectos que compunham suas vidas, e então definir, quais deles necessitavam de maior atenção e cuidado no momento. Me sinto exatamente assim, daqui do meu "topo do mundo"... Em verdade, poucas vezes parei pra pensar na minha vida aqui, mas algo em mim se pensa, by the way. E agora, que tenho apenas mais cinco dias aqui, o Brasil, e sobretudo minha vida, pedem atenção.

Saí de Brasília com a cidade, o facebook e o Brasil pululando de manifestações, sentindo certo frisson, misto de alegria e expectativa pela inesperada mudança na atitude política da nação, que trouxe à tona muita luz, e também certo medo, por tudo o que guarda a sombra, parte inseparável da luz (neste caso, a violência, especialmente). Daí chego aqui, e no dia seguinte, meu primeiro programa é justamente político: a Gay Parade em São Francisco, que teve gosto especial pois mės passado o Estado da Califórnia aprovou definitivamente o casamento gay! E agora, nesse exato momento, tô assistindo a chegada do Papa no Rio na TV5monde, avec ma cunhadô. Eita mundão velho sem porteira! E manifestantes a favor do casamento gay manifestam-se pro Papa... Sincronicidade pouco é bobagem.

Chegar e cair direto na Gay Parade foi um presente que pude abrir aos poucos. Primeiro porque fomos de Caltrain pra São Francisco, uma experiência bem diferente, desde a compra dos tickets na máquina, a paisagem até a diversidade de pessoas ali, maioria jovem, fantasiada pra Parade. E eu, por primeira vez, tendo que me comunicar em inglês com uma amiga de minha irmã. Enfim, vivi um dia totalmente atípico, a americanada tava mais livre, solta, rindo mais, afinal era quase carnaval! Bonito ver cada novo grupo entrando na "avenida" deles, a Market Street. Os invisíveis ganharam visibilidade ali como os gays asiáticos, os estrangeiros sem documento, famílias gays, gays latinos, escoceses, brasileiros, cowboys e tantos outros, organizadamente separados, cada grupo com seu carro alegórico. Vez por outra passava um carro aberto com algum político envolvido com direitos humanos, eu acho, já que o público curtia a presença deles (ah se fosse no Brasil...) além de alas de grandes empresas como facebook e grandes cadeias de hotéis. Tamanha diversidade e tolerância me causou estranhamento e talvez, certo incômodo. Minorias junto com grandes empresas foi muito pro meu provincianismo.

Legal também tem sido estar vendo e vivendo a vida cotidiana aqui, sobretudo na casa da minha sweet sister. Sem dúvidas, a mais doce de nós quatro, de uma delicadeza que me preenche fundo a alma feminina... Mesmo sendo periodo de férias, dá pra sacar a dinâmica da vida cotidiana, compras da casa, comida, arrumação, vida social deles e do Gabriel, ma petit sobrinhô. Enfim, sou muito grata por poder aprender com eles, assim tão de pertinho, outras formas de viver, de amar, de fazer a vida valer a pena. Isso sem falar dos meus classmates, colegas do curso de inglês, que vem de outros países e me contam sobre tantas outras diferenças, cotidianas, culturais, expressivas que rolam mundo à fora.

Sobrevoô o mapa do Brasil, e voô direto pro Planalto Central, sobre o qual falei muito no curso, exumando um amor por Brasília que eu nem sabia tão grande. Mas vou direto pra minha casa, sobrevoando o quintal até entrar pela janela. Hum, e já sinto o cheiro peculiar dali, que eu nem sabia que havia... Cheiro do Lucca, o meu, o nosso impregnado nas coisas... A história dessas coisas... E quando chego no centro nervoso, no coração da casa, a cozinha, vejo a linha divisória imaginária entre o pessoal e o social. De um lado, quartos e sala, do outro trabalho, ateliê e o quarto mágico que já recebeu muita gente legal, vinda do mundo, acrescentando saberes ao nosso viver. Casa-mundo! E agora vivo o contrário: Mundo-casa! Diferentes e tão complementares...

Well, the bird woman can see much things... Vejo meu amor se derramando sobre o que prescinde de amor, amor que pressupõe certa dureza, vez por outra... Manter a pele acordada, daqui, também me parece vital. Aqui, percebi que quando a boca falha no entendimento, a pele salva, é nela que mora a intuição, pelo menos a minha. Ingrediente indispensável pros relacionamentos afetivos, amorosos, todos...Fazer comida em casa agora parece muito mais possível, divertido e nada boring. Pascal, meu pacato cunhado, tem um jeito só dele de fazer as coisas, simples e ao mesmo tempo, inusitado, deixa tudo mais leve, mais possível, mais bonito, A casa e a comida. Troca de famílias, sabe aquele programa? A gente aprende mesmo se infiltrando na casa alheia, seja ela casa ou país.

Acredite, as portas do mundo, dos mundos, reais e imaginados, estão aí, pra serem abertas. E se ainda não der pra atravessar portas, dá pra se divertir muito espiando pela janela.

Namastê
Anasha






"Mirror mirror on the wall, who's the most beautiful woman of all?" Aprender uma nova língua é um grande desafio. Nos obriga a pensar de outro modo, a expressar o que sentimos, queremos, gostamos por meio de novas sonoridades e códigos. O cérebro fica meio doidinho no início. Tive uma crise aqui no primeiro dia em que me vi rodeada de gente, just speaking in english. Num dado momento, simplesmente desliguei. Eu ouvia o som saindo da boca das pessoas mas a mente se negada a tentar compreender. Talvez estratégia pra amenizar o estresse. Naquele rapido instante, me senti profundamente livre, livre da necessidade de entender. E quem me conhece sabe o quanto isso é raro. Senti na pele o quanto não saber pode ser libertador... Eu não tinha como entender significantes e isso me deixou livre pra interagir de um modo outro, mais intuitivo. Foi uma espécie de epifania cultural, aliás, múltipla, assim como orgasmo multiplo mesmo. Em verdade, sigo tendo isso, cotidianamente, de modos outros...

Aqui na Califórnia, na região onde estou, San Francisco Bay Area, convive-se com muitos chineses, latinos, americanos, franceses...  Me sinto não simplesmente em outro país, mas no mundo! Perceber que, mesmo com esse meu inglezim mequetrefe (que tá melhorando vai!), posso me comunicar com gente do mundo todo, foi uma espécie de breake through, algo que transforma a vida completamente (verbo preferido de uma brasileira que conheci aqui! O meu é Figure out!), já que amplia meu mundinho substancialmente, assim como meus sonhos. Esvaziei um tanto de medo por aqui. Sorry about it but.... tô deixando alegria, entrega, leveza... Acho que eles estão precisando, pelo menos aqui no Silicon Valley, lugar de gente série, os vencedores da cadeia alimentar, ops, da cadeia do conhecimento tecnológico. A kind of Intercâmbio cultural existencialista, voilá!

Água aqui não se compra. A da torneira é potável e qualquer restaurante vai te servir água, naturalmente. O garçom nunca deixa seu copo vazio. Em lanchonetes não é assim, mas vc pede água e eles te dão. No entanto, em Miami, no aeroporto, compra-se água, embora tenha bebedouro. Como no Brasil. Aliás, aeroportos e shoppings são iguais em todo lugar do mundo. Aquele cheiro de loja, ambiente meio inóspito apesar de pé direito alto, tudo caríssimo e tals. Enfim, o Brasil tem água em abundância, não é potável e pagamos muitíssimo por ela. Paradoxos do capitalismo. 

Coisinhas interessantes: Azul é, definitivamente, a cor de esmalte preferida pelas mulheres por aqui. Banca de jornal não existe, aliás quase tudo se faz por meio de máquina. Compro meu ticket  do Caltrain numa delas, todo dia. Aquele papinho furado gostoso nos pequenos serviços não rola. Abastecer carro é a mesma coisa: do it by yourself! 

Banca de jornal "muderna"

Mão de obra vale ouro: Faxina aqui dura 2 horas e custa 90$! Falo de Palo Alto, of course. Mas como aluguel é caríssimo nem se anime em fazer faxina nos States. Comida barata é a mexicana, chinesa e os sandubas tipo mc'donalds, o resto é mais caro. Gente de todas as idades usa bicicleta como meio de transporte, que, além de saudável e necessário (nem sempre há vagas pra carros, como nas grandes cidades) é cool! Gente rica anda de bike. O ar da Califórnia é o mais puro dos USA porque eles aprovaram uma lei que proíbe a adicão de venenos no combustível. Isso faz uma grande diferenca, super perceptível. E tem muita fruta e vegetais orgânicos e deliciosos, caros, como no Brasil. Aliás, achei que aqui essa coisa de healthy food estivesse mais avançada, no sentido de ser mais consumida e por isso mais barata. Que nada, falou que é orgânico, é mais caro, ainda. Nos mercados, lojas de conveniência e tal, tem de tudo, a maioria comida nada saudável tipo cookie, muito pão branco, queijo, bacon, doces lindos e apetitosos... Tive que ser forte diante de tanta porcaria deliciosa!!! Mas também tem opções saudáveis, muito mais do que aqui, e em qualquer lugar. Sempre vai haver um pote de salada com ou sem carne, ou só com verduras cruas.


Outras peculiaridades: Agora, aqui, estamos no verão e anoitece as 21h. Esquilo aqui é praga. Na montanha onde caminho, eles pulam na grama como pipoca na panela. Americano acha ridículo os estrangeiros, como eu, tirando fotos deles, que são fofos. Criança aqui morre de medo de mosca, mosquito, abelha e etc. É uma sociedade bem higienista, eles passam máquina de matar insetos constantemente nas ruas. Barata e formiga eu nunca vi, apesar do alto consumo de açúcar. Compras? Sinceramente, o que vale a pena comprar, são eletrônicos e, às vezes, tênis. Roupa e sapato aqui tem um estilo nada a ver com o nosso, eu não gosto, mas se você quiser comprar casaco legal, de couro e tal, vale a pena tentar as lojas de roupas usadas, existem várias, fora isso, você vai pagar bem caro.

Americanos? Povo educado. Ok, são fisicamente mais contidos nos gestos, quase travados vai, isso é fato, mas se tornam praticamente latinos, se comparados com os asiáticos. Meu, na China não tem festa nunca, nem em aniversario, casamento, formatura. O nome deles é trabalho. Soube disso com meus colegas chineses (a maioria) do curso de inglês. Eles adoram os EUA, que, por sua vez, adoram a América latina, e assim, segue a vida.

No meu primeiro dia de piscina, me senti constrangida com meu biquíni brasileiro, nem um pouco fio dental, mas, demais, por aqui. Comprei um americano, que tapa a bunda toda. Brasileira aqui tem fama de puta sim. Por vários motivos que os antropólogos saberão apontar melhor do que eu. Cito apenas um: brazilian waxim ou depilação brasileira. Nome que eles dão aqui pra uma depilação total, que não deixa nem um pelinho pra contar a história, total mesmo! Faz muito sucesso com a mulherada na faixa dos 20. Que eu saiba, nem a depilação chamada "profunda" no Brasil, é total. Mas pra eles, pelo jeito,  a mulher brasileira não tem pentelho ou, quem sabe, mantém a perereca eternamente infantil, vai saber!

No mais sigo fazendo uma "eu"tnografia, percebendo o que rola comigo aqui... Uma coisa é inegável: Tenho sido muito mais amorosa comigo mesma e uma ótima companhia! Tipo de coisa que a gente só percebe quando tá longe do conhecido, do automático. Sempre me amo mais quando viajo sozinha. Guys, viajar é preciso...

Namastê
Anasha

Assisti ao filme Verônica e gostei muito. Li várias críticas, a maioria elogia a atuação de Andréa Beltrão, que achei primorosa, e reclama do final inverossímil, no que discordo. Sou amante e não crítica de cinema, e nesses anos de amor o que tenho notado é que, gostar ou não de um filme, depende não apenas do filme em si mas do meu estado de espírito naquele momento. Quantas vezes recomendei um filme que amei, e que ao rever, num estado de espírito mais tranquilo, achei água com açúcar!? Ou possuída de mau humor, desgostei de muito filme incrível, que tive a sorte de rever pra amar?! Ou então, tomada de desejo, paixão ou coisa do gênero, com o objeto de desejo ao lado, nem pude prestar atenção a filme algum, por mais interessante que fosse!? Devo logo confessar: Apertei o play naquele estado de cansaço corporal de quem acaba de menstruar, querendo ficar quietinha na cama e suscetível ao choro...

O que mais me chamou a atenção no filme foi a jornada mítica vivida por Verônica, uma mulher comum, insatisfeita com seu trabalho, com sua vida, sem grandes perspectivas, entrando na meia idade e na metanóia da vida! Metanóia vem do grego e significa arrependimento, conversão (tanto espiritual como intelectual), mudança de direção e de mente; caráter trabalhado e evoluído. Jung retoma o termo para indicar a transformação psicológica que se dá na meia idade (depois dos 40-45 anos) quando há uma inversão radical de todos os valores que nos pautavam anteriormente.

Na primeira metade da vida nosso ego está no comando da aventura: Busca realizações, desejos, posições, status, profissão, relacionamentos, casa, casamento, bens materiais, filhos e etc e tal. Já na segunda metade o danado vai baixando a bola, dando lugar pro Self, que passa, ou deveria passar a nos guiar. O Self ou Si Mesmo guarda todos os nossos potenciais não desenvolvidos, toda a vida não vivida, que eclode e flui de dentro pra fora.

"A metanóia exige uma espécie de transgressão, por provocar muitas transformações tanto nos comportamentos quanto no pensamento e no caráter das pessoas, produzindo rompimentos de valores, relacionamentos e até de visão de mundo. Muitas vezes surge na forma de crise e queixas, fazendo com que os indivíduos repensem seu existir. Sendo que, na base dessa crise está uma experiência simbólica de morte e de renascimento, em direção ao servir. Ou seja, a superação da metanóia, para mim, acontece quando a pessoa encontra o entusiasmo em servir ao Si Mesmo e, conseqüentemente, ao outro. Por isso a individuação é uma meta coletiva", conclui Waldemar Magaldi, meu eterno professor de Psicologia Junguiana.

A metanóia fala da velhice e do próprio envelhecer como possibilidade de desenvolvimento humano e crescimento espiritual. A decadência do corpo (antes tão identificado com o ego) nos leva para além da matéria e nos voltamos pra dentro de nós mesmos. E nesse mergulho, nossa psique passa por profundas transformações diante de uma verdade que a juventude ofusca: morreremos. O passado é reavaliado com serenidade (ou não) gerando (ou não) a aceitação diante de fracassos e erros. E a depressão é comum nessa fase, podendo traduzir uma tentativa da alma de se reorganizar e se fazer notar ou a não aceitação do próprio envelhecer. Atualizar-se é preciso, afinal velhos mapas são inúteis em novas terras.

Toda jornada tem início quando o herói/heroína se encontra estagnado. E algo dentro dele, que se reflete fora e vice-versa, surge como contraponto e devasta aquela vidinha acomodada e insatisfatória, lançando-o rumo a aventura que é a vida, colocando-o em situações que levam ao crescimento interior, na marra! Verônica não foge à regra. Essa professora de escola primária da periferia do Rio não tem gosto e nem paixão por nada, nenhuma paciência com seus alunos, é solitária e tem apenas uma amiga. Sua vida se resume a casa e trabalho. Uma vidinha morna pra lá de sem sal que ganha tempero repentino a partir de um acontecimento cotidiano banal: Um de seus alunos fica só na escola esperando os pais que não chegam.

Verônica decide levar o menino em casa, numa favela no morro. Chegando lá, sente o clima pesado e logo percebe que os pais do menino foram assassinados. E, sem opção (aparente) o leva pra sua casa (faz uma escolha, ainda que inconsciente). Porém, o garoto traz consigo um pendrive que o torna alvo dos bandidos que assassinaram seus pais. A partir daí se inicia um jogo de mocinho e bandido, bem no estilo Cidade de Deus. E em meio a fugas, desespero e adrenalina, vemos o desenrolar do conflito interno de Verônica, que tenta se livrar do garoto ao mesmo tempo que se aproxima cada vez mais dele, afetivamente. Até então nada parecia afetá-la (Afeto = Disposição de alma, sentimento. Amizade, simpatia).

Apesar de conviver cotidianamente com o garoto como professora, é nessa jornada louca que ela realmente o vê, como também a si mesma. Aos poucos, o garoto, com as cores e a curiosidade próprias da infância, a tira de sua alienação e torpor, lançando-a na gangorra do quero-não quero, vivida quando somos pegos de surpresa por um grande amor. A vida pode realmente ficar morna e sem graça, e não há nada melhor pra nos mostrar a força da vida do que conhecer um ser humano que nos afete/toque.

Enfim, Verônica me afetou. No início do filme, sua mediocridade, pequenez de espírito, falta de habilidade com as gentes e sua vida desbotada fazem dela uma anti-heróina. Ela  nos causa uma rejeição imediata já que representa nossa própria mesmisse e falta de coragem. No final vemos nela nossa capacidade de transformação. Me vi naquela mulher desistente que se tornou uma heroína destemida e apaixonada. Verônica deixou-se permear pela vida que nos rodeia, e me alcançou.

Links do filme:

Namastê
Anasha