Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!



Passei quinze dias em Tambaba, uma praia naturista na Paraíba. A beleza descomunal do lugar, com suas falésias gigantescas, ocupa o primeiro lugar da lista de motivos que tornaram a viagem inesquecível. A primeira vez que estive numa falésia deu vontade de chorar, rir, gritar, tamanha a sensação de grandeza! Logo em seguida, quando me chamaram a atenção para o que poderia, ou não, haver abaixo dos meus pés, fui tomada pela sensação de perigo. E assim seguiram-se os dias, com Tambaba me mostrando o quanto a vida é maravilhosa e perigosa, ao mesmo tempo.

Adoro o mar, mas quase sempre sinto receio. Dessa vez foi diferente. Seu mar intenso me recebeu de braços abertos e eu me joguei com vontade. Nunca me senti tão entregue! Me lembrei de um verão da infância quando passei férias com os primos no Guarujá. Eles, mais velhos, me encorajaram a ir mais fundo, mais fundo ainda... Fui, apesar do medo, porque me sentia protegida por eles. Foi aí que aprendi a me relacionar com as ondas. Senti essa menina em Tambaba comigo, protegida, indo mais fundo e mais alto, corajosamente.

Passar parte dos 15 dias completamente nua na frente de outras pessoas também ganha destaque. Foi um processo gradual, onde, dia a dia, eu ultrapassava um pouquinho a educação moralista que ainda vivemos e o meu próprio recato, claro. Logo percebi que eu seria a única mulher sozinha ali. As mulheres estão sempre acompanhadas e homens não podem entrar sozinhos (com exceção dos sócios da associação naturista, o que achei muito estranho. Ou pode ou não pode!) Enfim, eu havia sonhado tanto em estar ali que encarei o desafio. Entrava de cabeça erguida e cumprimentava todo mundo tranquilamente.

Tambaba, como toda a nossa sociedade, é como uma cebola com várias camadas e níveis de realidade e consciência: a dos freqüentadores acidentais, a dos curiosos moralistas, a dos punheteiros escondidos na mata, a dos naturistas de verdade, a dos casais buscando sacanagem, a de quem vive do turismo ali... Cada um sintoniza no canal que achar melhor. Livre arbítrio na veia!

No início algumas situações me deram medo e tive vontade de recuar. Logo percebi que uma mulher sozinha estaria sujeita à isso em qualquer praia normal. E que estar sozinha é sempre um desafio. O lado bom (sigo acreditando que sempre há um lado bom em todas as experiências) foi que não fugi do “perigo”. Fiz questão de exercer o meu direito de estar ali nua e simplesmente recusei educadamente os convites que recebi. E me descobri mulher, de verdade.

Risquei um item da minha lista de “coisas que gostaria de fazer antes de morrer”: perder meus “calos“ - gíria naturista para as marcas de biquíni e sunga. Inenarrável o que senti quando me vi inteiramente morena. Mas foi só quando cheguei em casa que percebi porque uma coisa tão boba me era tão importante: Minha menina está feliz por ter a mesma cor de pele do papai! A família do meu pai é morena, de descendência indígena, e eu sou branquela. Finalmente sou índia! (por mais alguns dias, pelo menos).

Quase risquei da lista também o item “ficar sobre uma prancha e surfar pelo menos um minuto”. Juro que quase aprendi, quase mesmo e com um professor extremamente estimulante: Bilú, um cara incrível de 55 anos, que tem problemas numa perna e é cego de um olho. Apesar das limitações, ele surfa todo santo dia como um ritual. ”É pra manter o menino acordado!”, ele dizia. Porém, além da habilidade física necessária eu teria que surfar nua. Aí o bicho pegou. Simplesmente não pude.

Já fui minha própria tirana, me obrigando, cega e compulsivamente, a transpor limites, qualquer um. No fundo, era o desejo de ir além, de ampliar-me, de liberdade, que sigo sentindo. No entanto, antes a coisa acontecia de um jeito tosco e grosseiro para comigo mesma. É claro que me torturei um pouquinho tentando achar um motivo para “aquela covardia”, iniciando assim um julgamento severo: "Foi recato, moralismo! Vergonha! Medo de machucar o corpo! Medo do ridículo! Covardia mesmo!" Até que mudei de canal, ufa! E reencontrei "o conteúdo da minha concha", que é o significado de Tambaba. Quando soube, pus-me a divagar sobre seus/meus possíveis conteúdos, as pérolas... Mas Bilú disse logo: “Não é nada disso. Pros índios, a concha é a piriquita da mulher”. Vixi Maria, mais uma camada da cebola pra descascar!

Com o passar dos dias, já conhecia todos os personagens do lugar: o dono do único bar-pousada que há beira mar, dentro da área naturista (mas que não é naturista nem seus funcionários que ficam vestidos. Outra camada da cebola!), os funcionários da associação (que abordavam as pessoas que entravam de roupa solicitando sua retirada), a única vendedora ambulante da praia, que usava apenas um avental, e outras figuras moradoras daquela região. Esses tantos, fui conhecendo aos poucos, através das narrações daquela que se tornaria minha amiga e madrinha, mas que inicialmente foi minha "guia espiriturística". Fizemos passeios incríveis sempre recheados de boa prosa.

Rosana é dessas nordestinas arretadas, com sotaque carregado, intenso, dramático e contagiante. E ótima contadora de histórias. A descrição das pessoas e acontecimentos, muito minuciosa, trazia à tona pequenas manias e detalhes, me fazendo viajar, como quando lemos um bom livro. Tive a honra de conhecer alguns dos personagens e foi delicioso. Gente é tudo de bom!

Essa é uma grande vantagem de se viajar sozinha: faz-se muitos amigos. Uma companhia pode gerar segurança, acomodação e menos disponibilidade. Ao mesmo tempo, descobri um tempo só meu. E dispunha dele de um jeito muito próprio. Houve uma noite em que passei 3 horas contemplando o céu. Se eu tivesse companhia talvez fosse diferente porque um outro pressupõe acordos, combinados... Num outro dia, decidi "tirar férias das férias" e passei o dia fazendo Nada - que Tudo era.

Na Paraíba, ouvi menos a minha voz. Andava muito sozinha observando as árvores, os bichos, as pessoas e ouvindo os sons da Natureza, que eram também os meus. Senti a Paz e a Beleza, fora e dentro de mim e me senti maior, ou melhor, com mais espaço interno. Minhas audição e visão cresceram.

Quando cheguei à Brasília e entrei no meu apartamento, senti um aperto no peito. Sentei no sofá e pus-me a olhar para a janela, como quem olha de dentro de uma prisão, nostálgica e sôfrega. Graçasaosdeuses, mudei de canal! E logo reparei na folhagem de um enorme fícus que fica em frente à minha janela, o vento batendo suave, as folhas se movendo como se dançassem... Pude ouvir pássaros cantarolando, contemplei o azul lindo do céu... Ai, ai. É preciso saber perceber a Beleza em qualquer lugar!

Anasha (Mudei de nome! Batizei-me em Tambaba, mas essa é uma outra história...)

24.9.09

Experiência zero

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Fui na palestra de um cara que dizem ser “Iluminado”. Calma, o cara não engoliu uma lâmpada e peida luz, e muito menos é santo. Me pareceu simplesmente ser um cara que sacou que a gente não veio aqui pra sacar nada, e sim pra ser. Mas essa foi apenas uma das minhas leituras, ou melhor, da minha mente ou ego – no meu caso eggs, já que o meu é chique demais e vale por dois!

Piadas à parte, eu gostei muito. Tenho grande simpatia pelo povo do Osho - por esse jeito bem humorado e sacana de falar da espiritualidade, como sendo algo simples e que rola aqui e agora, já. Sei que há e sempre houveram controvérsias, especialmente em relação a questão do dinheiro, dos carrões e mansões do Osho, que deixaram os raladores da terra do tio Sam e de tantos outros países, de cabelo em pé. Muita dicotomia pra cabeça da galera!

Enfim, o lance é tirar o ego de campo nas horas que ele não tem que estar lá. Então quem joga em seu lugar? Ahá, aí é que tá, só indo lá ouvir o cara. Gostei muito do SatyaPrem, nome do figura, um cara igualzinho a todo mundo, de brinquinho na orelha, corte de cabelo de funcionário público, camisa social com os botões de cima despojadamente abertos... Um gato! Juro que não ia comentar, mas não resisti.

Enfim, nas duas horas de palestra, SatyaPrem mostrou-se um exímio “adestrador de egos”. A cada pergunta “cerebral” da platéia, uma resposta que desconcertava e desfazia todo o raciocínio visivelmente estruturado após ferrenho e cansativo embate interno. Lembram do Tom Zé, com o seu “tô te explicando pra te confundir...”? Era isso. Bom demais, porque em verdade não tem nada o que entender mesmo nem o que se buscar, tá tudo aí.

Mas devo confessar que apesar da identificação com a proposta (tá, eu sei que eu sou facinha facinha pra essas coisas!), de achar graça de tudo, principalmente da simplicidade da vida, meu eggs ficou bem quietinho e morrendo de medo. Tenho certeza absoluta que se tivesse aberto essa santa boquinha, ia levar uma chulapada daquelas –e teria meu eggs frito! Imagine meu lindo inteligente, perspicaz, dinâmico, criativo, eficiente eggs amarrado num mastro, e o SatyaPrem ao redor, lançando chibatadas sobre minha auto-importância!? Perdi grandíssima oportunidade!


Conheci Palmas, um lugar mágico e muito quente. Casas baixas, poucos prédios, ruas largas e balões tão enormes que dá pra construir duas casas em cada um! Muito espaço e natureza pra todo lado. Na palma de Palmas, as linhas de um amanhã a ser inventado pela imaginação do homem... No seu rosto, as marcas do Brasil em cores, sotaques e gestos. Muitos casais jovens, moderninhos, buscando construir a vida. Palmas é um “novo mundo” onde o futuro é evocado a cada espaço vazio e o passado parece não existir.

Ao mesmo tempo, Palmas me fez viajar para o meu passado. Lembrei de Cuiabá, quando chegamos em 75, e havia muito mais natureza do que cultura. Claro que eu, naqueles tempos, no auge dos meus cinco anos, não atinava pra nada disso. Só sentia. Sentia tudo muito diferente da São Paulo de onde eu vinha, cinza e fria. Cuiabá era colorida, cheirosa e quente! O Sol, em sua quentura constante, tornou-se meu amigo e conduziu meu corpo com amor até sua própria liberdade desconhecida! Eu e todas as menininhas sempre só de calcinha, pra lá e pra cá, sentindo a vida na pele. Ali, conheci a natureza em toda a sua plenitude. Nas carrocerias das camionetes soube do meu amor pelo vento. Nos rios e cachoeiras descobri que não vivo sem água. Foi lá que percebi que dava pra reconhecer as pessoas e os lugares só pelo cheiro. E, tomada pela magia do olfato, pari minha “bruxa interior”.

O mundo inteiro suava e a vida mostrava as vísceras: lembro do cheiro dos meus pais, do da minha irmã, do dos meus primos, o cheiro da fazenda, dos bichos, dos rios, da minha casa, da casa dos outros... Ali, ao reconhecer meu cheiro, finalmente me reconheci. Quando meu filhote nasceu, juro que antes de olhá-lo, eu o cheirei profundamente. Assim como cheirei visceralmente aquela terça-feira de manhã, onde o sol brilhava forte, alaranjado e vigoroso, e o céu era mais azul, do mais azul dos azuis. E minha alma era quietude e lugar!

Cuiabá, ao aproximar-me da origem das coisas, deu maturidade e refinamento aos meus sentidos. Comíamos peixe fresco, recém pescado do rio... Hum, farofa de banana! E as frutas? Comia fruta do pé como quem nasceu fazendo, sem lembrar o quanto me era recente essa experiência! E as cobras? Elas existiam mesmo, assim como aquelas aranhas enormes, e não só na fazenda, mas no meu quintal! E era uma farra quando apareciam. Correria, gritaria, histeria até aparecer alguém pra salvar a pátria.

Lembro de ver matar cobra só uma vez. Nesse tempo de que falo não se fazia isso. Não matar os animais era parte da ética do mundo, da ética do meu “novo mundo”! Aliás olhar o diferente como mau é coisa de agora. Lá, o Outro podia até parecer perigoso, mas antes de encerrá-lo no universo limitado de nossa primeira e maldosa leitura, a gente dava uma chance pra ele se mostrar um pouco mais. No tempo do “meu paraíso perdido” era assim. Acho que no “meu futuro encontrado” também será...

Sabemos que logo o Brasil de maioria jovem dará lugar a um Brasil de pessoas mais velhas, o que trará a mudança dos mitos que movem a nossa sociedade. A Velocidade, a Forma, o Vigor e a Juventude darão lugar a novos mitos, que nos aproximarão mais do que é essencial. Acho que estar, pelo menos teoricamente mais próximos do fim, nos faz rever a lista de prioridades. Tudo isso pra falar que Palmas traz na palma também a vanguarda e a inovação. Lá conheci a UMA – Universidade da Maturidade, um programa de extensão da Federal para pessoas acima de 45 anos. Uma proposta visionária, e totalmente de acordo com o caminhar do mundo, do nosso “novo mundo” sempre prestes a ser reinventado. Conheci sua mentora, a Dona Gilda, no auge de seus 70 e poucos anos. Uma figura excepcional em ética, energia e criatividade. Em sua alma de artista e cabelos prateados como a lua, lembrou-me minha mãe. E de novo sou lançada longe, no “tempo do meu início”.

Em Cuiabá, minha mãe liberava a parede dos fundos da casa à nossa criatividade. Pintávamos tudo com guache e no dia seguinte, uma mangueirada de água e começava tudo outra vez. Não tínhamos piscina e a santa mangueira era companheira diária de banhos e aventuras. Foi justamente por não ter piscina que conheci meus novos vizinhos, que a tinham, graçasadeus.

Assim que chegamos, dois irmãos da mesma idade que eu e minha irmã, foram lá em casa nos convidar pra “banhar”. Foi quando, numa conversa sobre televisão falei de Vila Sésamo. “O que é isso? Aqui não passa isso não". Eu, metida: "Pois na minha tv passa, e você vai adorar!” Quando ligamos a dita, meu mundo caiu! Pelo menos aquele mundo que eu vivera até então. Tudo estava diferente na tela, só haviam dois canais e nada de Vila Sésamo. Nossa TV ficara igual a todas as outras dali. Fui chamava de mentirosa e nem entendi muito bem o porquê. Mas, ganhei um “novo mundo” onde a natureza era rainha, e a cultura era sentida, e não mediada.

Palmas me lembrou também Brasília, no seu tempo de “novo mundo” dos candangos. Seu glamoroso lago, forjado e nascido sobre as árvores do cerrado lembra o nosso Paranoá, mas é maior, muito maior. Pra quem tem facilidade de abstração, se transforma no mar rapidinho. Foi justamente no “mar” do Toca, que vivi minha maior aventura. A lancha, que nos levara num passeio maravilhoso, pifou, no meio do nada. Os celulares out e eu tendo que estar em Palmas às 16h para trabalhar! Às 15h30, ainda sem nenhuma perspectiva de mudança, pari uma: “O que não tem remédio, remediado está!” Relaxei totalmente e mergulhei no momento, e nas águas daquele mágico lago nascido do homem.

Quem me conhece sabe que não me faltam temas para filosofar. E mesmo que faltem, filosofo. É assim que aprendo e apreendo a vida, de modo que aprendi muito naquelas 4 horas “à ermo”, e mais ainda nas 60 horas em solo tocantinense. O Toca me tocou fundo, me fez lembrar da substância de que sou feita!

“Viajar é preciso, viver não é preciso”.


Era um dia deliciosamente tranqüilo. A mulher foi tomar banho, sem nenhuma preocupação, nenhuminha siquer. Nossa, a quanto tempo não se sentia assim? Curtiu aquele banho como um presente: deixou a água morninha, escolheu um xampu bem cheiroso, o creme... Finalmente havia chegado o dia de usar aquele creme de banho caríssimo. Riu de si mesma, dessa mania boba de guardar as coisas boas prum momento especial. Não que esse não fosse um deles, mas porque nesse dia, percebeu que todos os momentos o são. E seguiu debaixo daquela água morna, cantarolando uma cantiga inventada ali mesmo.

Foi passando o creme no corpo, apalpando sua pele com carinho, sem pressa. Viu-se cuidando de si mesma e de novo sorriu, feliz. Mas no passa a mão aqui passa acolá, sentiu uma feridinha perto dos pelos púbicos. Dobrou-se e levou a cabeça mais perto dali. Ah, besteira, era só um pelinho encravado! No entanto, na lenta subida de volta, levou um susto: seu umbigo estava imundo! “Meudeus, a quanto tempo eu não olho pra ele”. Pegou um cotonete e pôs-se a limpar delicadamente a região.

Era um umbigo fundo, bonitinho, mas fundo. Lembrou de outros umbigos que já vira e definitivamente o seu era fundo. Cutucou, limpou, e ficou ali, curvada, absorta, observando aquela buraquinho tão intrigante, cheio de pregas. “Ele tá preso onde? Mas que parece uma costura mal acabada, parece. Ou um nó mal dado”. Foi olhando, olhando, e não é que o dito cujo foi ficando cada vez mais fundo, mais fundo, mais fundo... E numa espécie de sucção, o umbigo pôs-se a engolir o próprio corpo...

No final do banho, a água ainda escorria morna e no piso do box jazia o umbigo, largado, pequeno, esquisito. Rolou pelo ralo e sumiu. A polícia taí, investigando pra descobrir onde raios foi parar a mulher que sumiu. Só eu sei o que aconteceu, mas não vou contar. Ninguém vai acreditar mesmo. Então deixa a polícia trabalhar, né não?



















Ele, silêncio, quietude, lugar, presença. Constância. Trabalho, labuta. Matéria.
Ela, liberdade, borboleta, Alma, vento. Celebrante dançarina da constante transformação da vida.

Diferentes
Conflito inevitável
Contato
Rejeição
Contato novamente
Separação
Contato de novo. Encontro de almas.
Mas como ninguém sustenta tanto...
Distanciamento
Distanciamento crítico

É agora que a metalinguagem, e sua áspera língua,
Nos mete adentro o terrível fato de que,
Ambos, Ele e Ela,
Habitam o mesmo corpo
Corpo que reunido é um terceiro
Por isso o três é também um e dois!
E guarda em si a Imperatriz e o Mundo.

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Transformam-se:
O Escavador de Celebrações
A Celebrante dos Silêncios
Re-união
Corpo e alma
Encarnação

Sentir encarna
Cheirar encarna
Rezar encarna
Fazer amor encarna
Amar encarna
Viver verdadeiramente encarna

A Celebrante encarnou na Terra
O Escavador encarnou no Céu
Voltaram aos seus habitats de origem
Re-equilíbrio
Encontro Definitivo
Gozo metafísico
Vazio


Fui a uma festa de 40 anos, das melhores! Saí de lá as 8h da manhã depois de apreciar o nascer do Sol coletivamente com o som da Dj ainda ao fundo, em harmonia total com aquele presente da natureza. Uma coisa! A energia, o clima, o visual e a galera muito alto astral. Gente bonita demais! Mas eu que sou uma esponja, quanto me vejo no meio de muita energia, as vezes, tenho que dar uma paradinha para respirar. Nessas horas me ponho num canto e só observo. É quando me regozijo e rio sozinha da graça de ser gente.

Bom, quem me conhece sabe que festa pra mim é ritual, momento mágico. Eu chego até a me preparar, sério. Especialmente nas minhas. Às vezes até rezo pedindo firmeza porque sei bem os caminhos que a coisa pode tomar. Enfim, adoro festa desde sempre. Uma vez fiz uma regressão e me vi cantando dentro da barriga da minha mãe. Festa solitária, mas festa, do umbigo até o caroço!

O maravilhoso da festa é que é sempre um jogo social onde se instauram novas e silenciosas regras, diferentes das do cotidiano e muito mais permissivas, graçasaosdeuses. A azaração é geral e todo mundo se põe mais bonito, mais disponível. Pra alguns a bebida ou outra substância que altere a consciência dá acesso a novas possibilidades de ser. Verdadeiras transformações acontecem. Gente que nunca fala se põe a tagarelar; gente recatada meio travada de repente se solta, libera geral; gente que nunca se viu bate altos papos, coisa profunda mas efêmera. Eu conversei com tanta gente que nunca vi numa intimidade que dava gosto... Não foi mentira, era parte do jogo, daquela brincadeira gostosa.

A pista de dança tava bombando: Dj Lelé, recomendo demais! A cozinha, uma maravilha, só de lembrar dos caldos dá água na boca. Até o caminho pro banheiro era um acontecimento: o tanto de gente interessante que eu cruzei nesse percurso... FSem falar da fogueira e da lua maravilhosa no céu!

Fui à festa com amigas queridas, com as quais eu só cruzava de vez em quando, afinal aquele mundo de gente estranha tava tentador demais para que nos prendêssemos umas as outras. Estávamos todas na mesma “vibe” - adoro essa gíria! Sem falar naquele povo conhecido que eu não via há anos. Ai como eu adoro gente! E os homens? Como disse uma amiga, quando a gente não tá a fim, não dispensa, joga pro final da fila. kkkkkkk

Hoje é quinta-feira. A festa foi no sábado mas tá rendendo até hoje. Explico. Sagrada festa que me tirou de algumas roubadas na semana. Sabem quando problemas ou pessoas cheias deles passam por nós abalando tudo? Nossa, essa semana começou cheia disso. Mas como a festa me deixou muito cheia de mim, deixei a problemaiada passar, afinal nada daquilo me pertencia. E saí ilesa. E me vi sábia.

E gostei mais ainda de ver uma festa de quarenta anos tão alto astral. Ah, outro ponto muito legal da festa é que a maioria da galera tava na mesma faixa etária, entre trinta e poucos e cinquenta e poucos. Um povo jovem, no sentido mais profundo do termo. O que me fez lembrar das pessoas de quarenta que eu conhecia quando era criança: um povo velho, careta, mal humorado. Essa comparação me fez refletir.

Desde menina já me imaginava aos 30 anos cheia de sabedoria emocional, espiritual, sexual, intelectual, profissional, au au au... Só latindo. Enfim, me olhei no espelho aos 30 e faltava muito pra tanta expectativa. Entrei em crise, claro. Agora, faltando pouco para chegar aos 40, nem vestígio de crise. Então percebi que a expectativa que criei pros 30 tá combinando bem mais com os meus 40. A juventude tá se estendendo, sei lá. Deixo pros antropólogos uma análise mais profunda da coisa mas que estamos ganhando juventude estamos. Conheço gente de 50, 60, 80 anos super ativa, jovem, bonita, pensante, atuante, vibrante, dançante...

Resumo da ópera: A juventude é um estado de espírito assim como a velhice. E vamos combinar: festa é tudo de bom. Ah, um beijo pro Chapinha, o aniversariante, claro!

Ah,e sabendo de uma festa boa, me liga!



Agora que virei blogueira, ando visitando blogs. O do João me fez refletir, porque traz textos curtos e bem humorados. Libriana que sou, comparei e me fiz o desafio de escrever um texto mais light. Quem conhece os meus, sabe bem do que estou falando. Opa, é preciso deixar claro que não estou brigando com a minha escrita, apenas provocando-a um pouquinho. Vamo lá.

Entrei 2009 decidida a vender meu carro, uma Parati 97, que foi quase "minha marida" nos últimos doze anos. Enfim, a venda do carro encabeçava o item número um de minha lista. Sim, eu sou dessas pessoas que, no início do ano, faz uma lista de metas. E funciona!

Curti férias maravilhosas e voltei pra Brasília naquele ritmo lento de início de ano. Fevereiro chegou. Levei o carro para dar uma geral antes da venda. Dois dias depois peguei o carro no Seu Clever, o lanterneiro do Guará. No mesmo dia, divagante e distraída, BUM! Bati na traseira de um infeliz. Dia seguinte tava eu de novo: “Pelamordedeus Seu Clever, agiliza esse conserto, eu preciso vender esse carro”.

Dias depois peguei o carro. Mas o mês seguiu enrolado, início de ano letivo, madrugar pra levar menino na escola... A tal ligação para fazer o anúncio da venda do carro no jornal não teve seu tempo. Últimos dias de fevereiro e o carro ali. "É hoje!" Amanheci decidida. Fui buscar as crianças na escola.Estacionei o carro na última vaga, entre o meio fio e um poste. Olhei bem pro poste pra me lembrar dele quando saísse da vaga. A gurizada chegou animada, o sol a pino e BUM! Bati o carro no poste. “Seu Clever, não diz nada, apenas pense na minha situação e faz um precinho camarada, pelamordedeus”.

Dias depois peguei o carro no Guará, cheguei em casa, imprimi um anúncio, colei no vidro do carro e fiz um email divulgando a venda. De tarde liguei no jornal. E dormi como um anjo! A essa altura março já estava aí e com ele, caramba, a produção da festa de aniversário do meu filho! Corre pra lá, corre pra cá, atende telefone daqui e de lá. Era o povo querendo comprar o carro, eu agendando visitas, convidando o povo e agilizando a festança. Sexta-feira 13, aniversário do moleque. De manhã cedinho fui à concessionária, fechei o negócio do meu novo carro, completamente otimista de que a venda do outro aconteceria no final de semana. E fomos almoçar, eu, meu filho e meu pai, comemorando o carro e o aniversário, cuja festa seria no dia seguinte.

Deixei meu filhote no futebol e meu pai no Setor de Hotéis. Peguei aquela pista grandona saindo dos hotéis,no sentido Torre-Congresso(qual o nome mesmo?)rumo a minha casa onde eu encontraria o provável comprador do carro para fechar negócio. Som ligado, estômago cheio, alma leve... Fui diminuindo a velocidade já que o sinal tava quase pra fechar. Aquele sinal ao lado do Conic. BLULURUM! Virei estátua total, em choque! O carro tremeu, a terra tremeu, e meu ouvido quase explodiu com aquele som de bomba. Meu Deus, alguma coisa caiu do céu! A essa altura hollywood já tava pulsando na minha cabeça, guerra nuclear etc etc e tive medo de olhar pra cima. Até que um cara do carro ao lado, me olhou e disse: “Alguma coisa caiu encima do seu carro, encosta, encosta”. Fui pegando a esquerda pra entrar na rodoviária e parei. Quando desci, não acreditei no que vi: uma pedra de concreto enorme amassara todo o teto do carro!!! Eu ria e chorava enquanto o cara, santo homem, sugeria que eu anotasse seu telefone, caso fosse necessário uma testemunha. Foi quando me dei conta de que eu estava sem celular. Entrei no carro tremendo, e segui pra casa neurótica ao passar debaixo dos viadutos, claro!

Fui pra delegacia fazer ocorrência, liguei pra minha advogada (eu tenho uma, não é demais?), fomos ao local do crime e vimos de onde a pedra se desprendeu quando resolveu cair justamente encima de mim! A culpa é do GDF! (De algum modo, isso me acalmou). Mais tarde, o comprador do carro quando viu a bagaceira, murchou. Ai meu Deus! Olhava o carro de todos os ângulos, lentamente sem dizer nada. "Caramba, ele vai desistir". Me preparei, já ensaiando uma frase para encarar o seu Clever de novo... . Foi quando ele abriu a boca: "Abaixa o preço do carro que eu cuido do estrago". Não podia ser melhor, santo homem!. Era sexta, na segunda o negócio seria fechado. Fui enrolar brigadeiro.

Dia seguinte, já embriagada de tantas emoções, economizei na bebida. A festança rolou tranqüila, o moleque "de boa", como diria o próprio. À noite, a mãe dormiu tranquila, mas a dona do carro nem tanto. Na segunda logo cedo, o cara liga desistindo do negócio. Meudeusdocéu, eu devo estar pagando algum pecado! Mais tarde recebo um email do João, o do blog. Ele recebeu o email da venda do carro e se interessou. Taí um meio de divulgação que comigo funciona demais! Enfim, iniciamos uma negociação virtual, enquanto o carro já estava novamente nas mãos de Seu Clever. Dessa vez, quando nos vimos, fiquei calada, forjando um relaxamento falso que doía. Juro que queria ser uma mosquinha pra ouvir os prováveis comentários que ele e sua equipe devem ter feito a meu respeito, tipo: “Que mulher azarada da porra”.

Hoje a Parati é do João. E foi ainda lendo seu blog, na semana passada, que me lembrei do meu e botei no ar. Santo João.

Dedico este texto a minha irmã Marília, pela coragem e inspiração que me passa a cada desafio que vence. E também porque hoje é seu aniversário!

O homem tem sede de símbolo, de magia, de rito. Nossa mente é simbólica, se move em eterna criação de imagens, que vão constantemente brotando, se transformando e resignificando nosso existir. Assim vamos, simultaneamente, seguindo-as e deixando rastros. Rastro de consciência cada vez mais intensa, reunindo céu e terra, corpo e mente, masculino e feminino, velho e novo, passado e futuro... Casando memória e lembrança, corpo e alma, músculo e osso, umbigo e caroço. A polaridade é uma ilusão didática porque, de fundo, está tudo juntinho na gente. Somos símbolo vivo!

Vivamos nossas imagens interiores, permitindo sua expressão, mergulhando nos extremos, para depois, mesmo com medo, encarar a re-união. Símbolo reconstituído é energia de vida liberta! Mas é preciso tempo e espaço para ritualizar nossas jornadas interiores. E onde estão os rituais do agora? Acredito que qualquer espaço que acolha a criatividade e o ser criativo que somos, é um espaço ritual. Torna-se laboratório sagrado como o dos alquimistas, onde misturamos elementos aparentemente incompatíveis, gerando novas criações, remodelando as antigas, desenhando as futuras, sempre em busca do ouro interior. Estar no processo, empreender a jornada, eis o ouro e a cura. Aproximar-se cada vez mais do que se é de verdade, individuar-se, eis a grande meta!

A doença é a fixação numa única forma ou padrão, numa mesma imagem, pensamento, sentimento ou emoção. Repetir a mesma história, as mesmas crenças, insistir nas impossibilidades... Temos tanto de tudo para experimentar que estagnar numa só forma nos faz rio de água parada e acorda o doentio em nós. Em verdade, somos oceano, profundos em possibilidades e mistérios, e não há nada que possa mudar isso. Aceitar-se oceano e cessar de fingir-se uma poça, eis a questão!


O Ateliê para Mulheres e o Programa Roda de Mulheres têm sido pra mim território ritual. Pude adentrar no universo da mulher em seus vários momentos, a mulher que sou, jovem que fui e a velha sábia que serei, aprendendo muito sobre o desabrochar do feminino e sua maturidade. Gracias a la vida!

Vivo a arte como um território ritual, o laboratório sagrado da criatividade onde viajamos para dentro do nosso corpo-casa-templo-mundo em suas várias idades e fases. Corpo forma contorno conteúdo. O corpo e o olhar de fora desvendando a estória. “Era uma vez um corpo...” de mulheres em brasa, em fogo, queimando no desejo da criação, remexendo o caldeirão, bruxas, princesas, fadas, deusas em iniciação...

Assim, mergulhamos no universo mágico de nossa mitologia pessoal: a história preferida da minha infância – meus heróis e eu; era uma vez uma princesa que era eu e um príncipe que era o meu namorado; outra vez era um gato muito esperto que também era eu, e um lobo muito mal que era carente coitado. E dessa vez foi o gato xadrez que cagou em vocês três!

Acredito que nós mulheres, independente da idade, seguimos buscando a divindade Mulher em nós, nossa porção feminina estruturante, que a sociedade tradicionalmente masculina em que vivemos, insiste em menosprezar. E claro, buscamos também o ser Brincante, que nos conduz com leveza, humor e liberdade, fazendo da vida uma grande brincadeira e acordando nossa eterna infância-criança, desperta para o jogo da vida! Outras gentes sempre aparecem e são acolhidas calorosamente.

Confissão sincera: Fujo do tormento e do esforço de pensar em mim. Tirei férias de atormentar-me. Mas a arte reconecta, religa, traz nova perspectiva. Assim, não pensei, mas algo em mim me pensou, me guiou, me levou nos braços... E fui profundamente repensada.

Namastê
Anasha