Eu podia dizer um enorme “Não”, mas sigo com “Pode ser"! E me comporto muito bem, passivamente. Não beijo as pessoas que amo porque a minha boca não é minha. Não expresso o meu amor porque ele fugiu de mim há tempos. E não mando os que me enchem pro inferno porque não sei onde fica! Estou aprisionada num Eu que já morreu. Vivo da sombra, do fedor e da deterioração de alguém que já morreu. Um corpo morto dirige os meus passos e atos e palavras e medos e dores e taras e ...
Começo a acreditar na necessidade do ritual. Um corpo morto deve retornar à terra. Fui
herética, negligenciei todos os meus enterros! E pago tentando despistar os velhos pedaços que insistem em ainda serem meus... Preciso tanto do Outro e, no entanto é ele que me mata. Fugir é covardia, ficar é covardia! Existe algo entre o ficar e o fugir? Dormir... Me faz sonhar e também pago por sonhos. Estou sempre quitando dívidas. Quito-as, mas nunca sei com o quê. Só sinto algo faltando no final da negociação, mas nunca sei o quê foi que levaram... Possivelmente Nada, mas o Outro sempre faz com que eu me sinta menor, lesada...
qualquer, uma enfermeira qualquer, e eu tratada como uma louca qualquer, sem a
mínima necessidade de me sentir útil. Simplesmente ser... A arte voluntária da retirada da vida - O Eremita!
Os vários pedacinhos seus, estou tratando, de uma vez por todas, de transformar em meus. Aceitei-os muito antes de optar pela dúvida. E talvez os tenha escolhido. São bons ou maus? Acho que isso não importa, nunca importou o que importa é o ato, não o resultado. E a ato é de amor, sempre foi e certamente jamais deixará de ser.
Anasha (1995)

Num tempo dos antigo bicho nenhum escapulia
Dos trabalhos de preserva tudo que os arrodia
E cada um do seu jeito fazia o que podia
E a Natureza bem cuidada sorria, agradecia!
Nesse tempo não tinha castigo não
E os bicho vivia tudo no cio...
E um casal de índios fazia amor na beira do rio
No meio da estripulia c’os coração em harmonia
Não se aperceberam que dos seus corpo
Suas almas escapolia, voaram feito borboleta
Pousaram nas águas do rio, formando um reflexo formoso
Como nunca se viu.
Nesse mesmo momento surge descendo do céu
O Choro do Sol e o Riso da Lua
Que também apaixonados vem pousando bem encima
Do reflexo dos índios namorados
O ar suspirou, a água gemeu, o fogo gozo e a terra tremeu!
E desse encontro nasceu um espírito que nem eu!
Seu nome eu vou lhes contá: É Cojubim-Náia
Que carrega dentro de si as duas almas perdida
Daquele índio e daquela índia
É Cojubim na metade do dia, um macho cheio de valentia
Que reclama, luta e briga prá mó de acalmar a dor
Que no seu peito ardia saudoso da presença
Da amante que ele tinha.
Cojubim cuida do fogo e da água
Fazendo chover e fazendo queimar
Porque a água renova a vida. E o fogo? Ajuda a matar!
Que é pras coisas se reciclar!
Na outra parte do dia, de noitinha, ele é Naía
A fêmea delicadinha, que dança e ora a Rudá
Cupido da crença índia, pedindo pra trazer de volta
O amante que ela tinha
Náia cuida da terra e do ar e é através da dança
Com seus pesinhos na lama e seu corpinho no ar
Que ela solta uns aroma (Sons de peido)
Uai, pra proteger e perfumá os lugar!
Cojubim-Náia vive a procura do fogo do coração
Do amor, da plenitude da paixão
E depois de encontrar ele pensa em mergulhar
Nas águas daquele rio prá mó de apagar tanto fogo
E acender outro pavio!
Mas nas águas desse rio só entram seres inteiros
Porque é o reino dos deuses e não entra forasteiro
Só então à meia-noite é que ele pode tentar
Porque é mesmo nessa hora que as duas almas de outrora
Voltam a se encontrar formando um só ser que dá gosto de olhar
Cojubim-Náia entra em êxtase e nesse minuto eterno
Faz tudo que é coisa brilhar! Ah ah ah...Hu! Aaaaaah....
Mas é só quando o minuto passa que ele se dá conta:
“De novo, esqueci de mergulhar!”
E assim é Cojubim-Náia!
(O texto acima nasceu a partir das aulas de teatro com a profª Simone Reis, no Deptº de Artes Cênicas da UnB, em 1994 – meu primeiro e fundamental contato com a mitologia pessoal no teatro. Obrigada Simone! Hoje é encenado dento do espetáculo “Contos do Interior”).
montada que já não se gasta tempo impedindo as pessoas de serem felizes, elas fazem
sozinhas. Eu me estupro, me machuco, me corrompo, minto pra mim mesma, construo
muros de medo e dúvida, me visto de roupas que não me pertencem, me aproprio de
palavras que não cabem na minha boca, me obrigo a comer o que não gosto e a vomitar
o que quero em mim. E mato tudo que amo. E perdida, permito que tomem conta do que é
meu. E perdidos permitimos que tomem conta do que é nosso.
Assoprar a ilusão, destruir os espelhos, apagar as sombras. QUERO A COISA EM SI, todo
o resto é especulação. “Quando eu estico os braços, entrelaço-os pelo seu pescoço e te
abraço, este ato de amor não seria o ato da oração?”, A saída e a entrada. Corpo-templo
tão sensato e MEU!
que vejo e respiro estão castrados no meio de tudo que falo. Falo demais e só ouço o que
eu mesma falo, deixando de lado as outras vozes - que não aprendi a ouvir. Preciso acreditar
que estou aqui mesmo quando não ouço a minha voz. Estou impregnada do eu que vive
aqui fora, no AR, onde está a minha voz.
CALAR pra ouvir o eu de dentro. Respirar e levar ar-voz pro EU de dentro, que tem fome.
Está faminto, miserável, escasso de mim. Ouvir com o ventre a minha mulher e sentir
com a vagina o paladar do meu homem. E deixar o coração ver com olhos andróginos.
Matar o eu e deixar o eu nascer..
Desconstruir a forma-mundo
Quem sou eu
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