Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!



1.    A Vila dos Mistérios – um olhar sobre a prostituta sagrada”

Em 2007, estudando a remota prática da prostituição sagrada, a partir do livro “A Prostituta Sagrada”, da analista junguiana Nancy Qualls-Corbett, dentro do projeto “A Prostituta Sagrada”, reuniu-se, num processo que, num processo colaborativo de criação,  profissionais de várias áreas. Houverae grupos de estudos, oficina para mulheres e o ciclo de debates “Corpo, Sexualidade e o Sagrado” com o intuito principal de coletar material para a criação de espetáculo-solo teatral sobre o tema. O projeto teve apoio do FAC - Fundo de Arte e Cultura do DF. À época, para compreender melhor todo o processo de desenvolvimento da mulher, fui levada à investigar minhas próprias fases de meninisse e adolescência, mergulhei em minha história pessoal e corporal, de onde nasceu o monólogo “A Vila dos Mistérios – um olhar sobre a prostituta sagrada”.

“A Vila dos Mistérios” era um local ao norte de Pompéia, na Roma Antiga onde eram representados os Mistérios Dionisíacos, e onde, havia a prática da prostituição sagrada. Nele, a sacerdotisa do templo da Deusa se entrega com devoção ao amor e ao Estranho - homem comum que penetra o templo em busca de receber as dádivas da Deusa em sua vida. Seus rosto e personalidade não importam. No templo, são homem e mulher, revivendo nesse encontro o hieros gamos, o casamento sagrado entre o masculino e o feminino. 

O Estranho, metáfora do masculino que nos habita e o encontro com ele, bem como com a sua amante, a prostituta sagrada, talvez nos ajude a reunir masculino e feminino, o carnal e o espiritual, entre outras polaridades que insistimos em rivalizar. O termo “prostituta sagrada” representa um paradoxo para a nossa mente ocidental que dissocia o sexual do divino, fazendo escapar seu significado mais profundo, relacionado à natureza do feminino. Segundo a autora, “(...) natureza feminina – do latim natura, significa nascimento ou universo. ‘Natureza’ implica naquilo que é inato, real, não artificial”.

“Dentro da evolução da consciência humana, não estamos no mesmo ponto em que estavam as prostitutas sagradas de outrora. Séculos de divisão entre espírito e matéria nos deixaram distantes tanto de compreender quanto de experimentar a matéria como algo sagrado. Diariamente a terra é violada. Diariamente a sabedoria do corpo humano é devastada pela mente. Enquanto permanecemos inconscientes da divindade inerente à matéria, a sexualidade è manipulada para preencher desejos do ego; a prostituta sagrada não está presente, nem a deusa é invocada...” pág 10

Após a estréia do espetáculo, em dezembro de 2007, havíamos remexido em tantas imagens e emoções, que senti a profunda necessidade de “deixar aqueles conteúdos dormirem” para retomá-los num outro momento. Em 2010, e após ter conduzido oficinas com mulheres jovens, a imagem da prostituta sagrada foi novamente despertada.


2. A Adolescência da mulher e auto-imagem

Em 2009, a ONG Instituto Arcana, onde atuo, passou a incluir como público beneficiário do Programa Roda de Mulheres, além de mulheres acima de 21 anos, também meninas adolescentes do ensino médio de escolas públicas do DF. E, mesmo inicialmente inconsciente, fui novamente penetrando "os mistérios da vila", e percebendo como o  arquétipo da Prostituta Sagrada pode auxiliar no desabrochar feminino da mulher jovem, permeado de obstáculos especialmente relacionados à auto-imagem e a aceitação corporal.  

Antes de iniciar a oficina Roda de Mulheres Jovens, realizou-se grupo de estudos no intuito de adequar os conteúdos para esta faixa etária, e também para familiarizar as focalizadoras do universo jovem das periferias do DF. Averiguou-se alto de índice de violência, de gravidez, de não-uso de preservativos, além de falta de limites, promiscuidade, desconhecimento sobre sexualidade até a falta de perspectivas e estímulo para progredir.

Entretanto, nos três primeiros grupos que conduzimos, o tema que mais me chamou a atenção foi a imagem corporal distorcida que as adolescentes tinham de si mesmas. É claro que uma parte desse problema é natural nessa fase da vida onde as mudanças corporais e psicológicas são intensas havendo inclusive a vivência do luto da infância, bem como do corpo outrora infantil e agora estranho.   

No entanto, observamos que hoje, essa crise têm sido deflagrada bem mais cedo (ás vezes aos 9 anos) e com uma intensidade maior e mais perigosa do que foi a nossa própria adolescência, há 20 ou 30 anos atrás. O bombardeio estético da mídia parece ser o maior responsável por esse fenômeno, somado, talvez, a ausência dos pais, levando ao agravamento de problemas com auto-imagem, que acabam sendo detectados tardiamente.

Num dos encontros da oficina, trabalha-se a auto-imagem por meio da modelagem em argila. As jovens modelam seus corpos como o sentem, de olhos fechados. Todas as quinze participantes da oficina que ministrei demonstraram problemas com auto-imagem e distúrbios de alimentação. O que chama mais a atenção é que nenhuma das participantes poderia ser considerada gorda ou obesa, estando todas dentro de um padrão estético considerado “adequado”.

Abaixo alguns depoimentos e relatos:

  • “Fechei os olhos e tentei fazer uma forma humana, depois desfiz, e fiz novamente um corpo e desfiz. Tive que abrir os olhos. O olho não deixou e quis corrigir. (...)  Até os 9, 10 anos eu era muito gordinha, comia sem parar, até vomitar. Quando entrei na adolescência comecei a parar de comer para emagrecer. Aí emagreci e fiquei anêmica. Nessa época, eu ficava muito sozinha em casa e ninguém percebia, eu passava mal e ninguém sabia. Foi uma professora que me ajudou, falando sobre anorexia e bulimia e me mostrando imagens assustadoras”. Vera (17 anos, nome fictício).

  • “Me sinto uma bola” Babi (15 anos, nome fictício). Babi fez uma bola, com uns furos feitos com dedo representando os olhos, nariz e boca, na primeira vez fez a boca sorrindo, depois desmanchou e fez uma boca neutra. Depois relatou que era gorda e perdeu 15 kg no ultimo ano, com muita força de vontade, porque na escola todos falavam mal, inventavam apelidos e isso começou a afetá-la. Resolveu emagrecer. A família é toda obesa e foi uma conquista perder peso.

  • Joana (15 anos, nome fictício) também fez uma bola. Disse que pensou no próprio corpo e que se sente completamente gorda. De todo o grupo, Joana é aquela que mais poderia ser aproximada á imagem aceita hoje, sendo muito bonita, magra, cabelos lisos. No entanto ela não se reconhece assim. “Eu tenho um tio que exige beleza. Quando a mulher dele engordou, ele se separou dela, e depois voltou com ela quando ela emagreceu. (...) Eu só como só de vez em quando. Ano passado eu passei muito mal mas ninguém lá em casa percebeu. Quando eu sinto fome bebo água. E acho que tem que ser assim porque eu não gosto de malhar, senão vou engordar”.

  • Ana (17 anos, nome fictício) permaneceu o tempo todo de olhos fechados e pareceu ter entrado profundamente no processo. Aparentemente imersa, fez rapidamente uma forma humana com movimento. Tentou fazê-la em pé, mas a forma não se sustentava. Então a sentou. Relatou que fez a forma como se vê que há uns 2 anos atrás comia muito, de tudo. A mãe e os tios a controlavam muito e começou a vomitar. Ficou deprimida, não comia direito. Passou mal algumas vezes. Ficou muito magra e parou com isso sozinha.

O trabalho com argila funcionou bem e as levou para a discussão em relação a auto-imagem. As jovens deste grupo tinham conhecimento sobre distúrbios alimentares, demonstrando que o problema está relacionado a auto-estima, amor próprio e valorização pessoal, e, em certa medida, alienação corporal.

Outra questão não menos importante é a nutrição, educação e qualidade alimentar da adolescência de hoje. E mais uma vez não só a oferta de alimentação do mercado pode ser a única responsabilizada, mas também os pais que deixam seus filhos sozinhos em casa, decidindo por si, o que comer. Neste grupo, por não praticarem exercícios físicos (e não querem praticar), acreditam que devem comer pouco ou quase nada e acabam pulando as principais refeições para não engordar.

Num outro encontro, trabalhou-se sexualidade por meio da confecção de uma boneca, onde muitas questões vieram à tona e outros tantos relatos. A descoberta mais reveladora foi a certeza de que o conceito de sexualidade deve ser trabalhado não apenas com enfoque no ato sexual em si e na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez, mas em toda a sua abrangência. Isso significa incluir o desenvolvimento de nossa afetividade e o modo como lidamos com ela nas várias situações que a vida nos oferece.  Sexualidade é um conceito amplo, que engloba atos, situações, práticas e pessoas que nos geram prazer. Neste sentido, é condição conhecer o próprio corpo, seus gostos, desgostos, alegrias e desprazeres. E estas é uma tarefa individual. Muitas das jovens confessaram que delegam ao parceiro essa tarefa, distanciando-as ainda mais de seus corpos.

Acredito que a sexualidade está presente em qualquer situação onde o princípio de Eros esteja atuando, no sentido originalmente elaborado por Jung. Eros descreve a lei interna de energia psíquica no que se refere ao estabelecimento de relações, ligações e mediações. A sexualidade envolve, portanto todas as experiências que vivenciamos no exercício do amor que vivenciamos, seja por nós mesmas ou por outras pessoas, projetos, ideias... E urge que tratemos de ampliar esse conceito desde cedo junto às nossas crianças, incentivando assim uma vivência mais integradora do processo amorosa da espécie humana.

Num dos encontros, passamos um “prazer de casa” que era tomar um banho gostoso e demorado, num momento onde não serão incomodadas, passar creme no corpo, fazer carinho e dar-se um tempo para realmente conhecer as partes de seu próprio corpo. Ana (17 anos, nome fictício), após o “exercício”, teve um insight: “Percebi que ninguém cuida de mim melhor do que eu!”. Que maravilhosa, reveladora e essencial descoberta aos 17 anos. Toda mulher merece e precisa descobrir essa grande verdade.


 3. A Sacerdotisa e o Estranho

A imagem arquetípica da sacerdotisa (prostituta sagrada) me vem à mente como meio de auxiliar a mulher, sobretudo as adolescentes, a compreender o processo de honrar seu corpo e seu espírito tendo a sua sexualidade como algo sagrado. Esta imagem nos aproximaria de uma relação mais adequada com nosso próprio corpo já que:

  “A mulher que tem consciência da deusa cuida de seu corpo com alimentação e exercícios adequados, e aprecia os rituais como banhar-se, vestir-se e aplicar cosméticos. Não se trata de propósito superficial de apelo pessoal, relacionado à gratificação do ego, mas sim de respeito por sua natureza feminina. Sua beleza deriva de ligação vital com o Si-mesmo. Tal mulher é virginal. Isso não tem nada a ver com estado físico, mas com atitude interior. Ela não é dependente das reações dos outros para definir seu próprio ser. A mulher virginal não é apenas o reverso do homem, seja ele pai, amante ou esposo. Ela mantém-se em pé de igualdade em relação a seus direitos. Não é governada por idéia abstrata do que ela “deveria” ser ou “do que as pessoas vão pensar” pág 81


Esta imagem agrega em si os lados sagrado e profanos da mulher, possibilitando uma ampliação de nosso olhar ocidental, extremamente limitado e excludente:

 “A Prostituta Sagrada trata de um aspecto da natureza da mulher: a faceta instintiva, erótica e dinâmica da natureza feminina, especificamente, os aspectos positivos inerentes a imagem arquetípica da prostituta. Essa imagem possui dois lados: o sagrado e o profano. O lado escuro conhecido de imediato; ele manifesta as maneiras mesquinhas em que a sexualidade feminina é impropriamente usada. Os aspectos positivos, são menos conhecidos pois os elementos sagrados foram separados” pág 22

E ainda, dentro do mito da prostituição sagrada, a figura arquetípica do Estranho, pode clarear a relação da mulher com seu próprio aspecto masculino, a qual todas nós temos que ter consciência para ter relacionamentos saudáveis. Na psicologia da mulher, o estranho é um aspecto daquilo que Jung chamou de animus, o lado contrasexual da psique feminina – um homem interno, por assim dizer.

“A Palavra animus em latim significa espírito. O animus positivo inspira a mulher, conduzindo-a para fora, para o mundo dos objetos, da criatividade das idéias. Fornece senso de direção, discernimento e continuidade ordenada a todos os esforços” pág 98

“O animus aparece em muitas formas além da do estranho, como a mulher velha e sábia, como um Adônis juvenil, ou até como um bebê menino, e cada manifestação possui significado psicológico particular. Em sua forma negativa, ao animus pode aparecer, por exemplo, como estuprador ou ladrão que leva os pertences mais estimados da mulher, símbolos de sua natureza feminina”. Pág 99

“O conhecimento e a diferenciação das várias formas externas do animus envolve uma submissão a algo que é parente do rito de iniciação onde a mulher é capturada e penetrada pelo espírito masculino. Não se trata de processo psicológico, pois envolve também o corpo. Pág 99

Na melhor das hipóteses, o animus funciona como ponte entre o ego da mulher e suas próprias fontes criativas. Na pior, ele se manifesta através de opiniões e pressupostos que destroem seus relacionamentos, quando o denominamos de animus negativo: “Alguma coisa em mim quer matar-me” pág 164

“Mulheres sexualmente promíscuas, a quem falta laço emocional ou até que abrigam ressentimento profundo em relação ao parceiro, encontram-se desvinculadas de sua natureza feminina essencial. Essa é precisamente a situação que alimenta o animus negativo. O animus é tão negativo na vida interior dessa mulher quanto o é o modo como ela vê o homem em sua externa. Ele mostra-lhe face cruel, podando toda tentativa de avanço por parte dela. Quando mais inexoravelmente ela acredita serem os homens seus inimigos, menos ela é capaz de compreender que o inimigo está dentro dela mesma” pág 100

“Atitudes que rebaixam o feminino devem ser confrontadas. Trata-se de um processo de diferenciar o que verdadeiramente pertence a “mim”, a partir do que alguma coisa diabólica dentro de mim está tentando fazer-me acreditar sobre mim mesma. Aí, então, um senso da deusa e de sua devota, a prostituta sagrada, pode emergir, permitindo e estimulando a mulher a amar” pág 174

Não tenho respostas a respeito de como trabalhar a sexualidade junto à mulher jovem hoje. O que sinto é que a imagem da Prostituta Sagrada me guia me levando a compartilhar seus ensinamentos sem que seu nome ou seu mito seja citado, pois sei que, nem nós mulheres adultas ocidentais temos ainda condições e abertura para compreender a profundidade deste mito, que poderia gerar confusão ao ser apresentado para jovens tão novas. Mas sigo seus rastros e certamente ela me guiará.

Namastê


Anasha 


Quando eu tinha 4 anos...
meu umbigo fugiu de mim!
E me levou pra passear,
Me apresentou outros umbigos,
E me contou:
Todos os umbigos,
vez por outra,
fogem de seus donos.
Mas nem todos topam
o passeio.


Ler um bom livro é viajar longe. Voares altíssimos. Pra dentro, pros sertões nossos. Vivência tanto profunda quanto solitária. Um bom livro transforma. E transformação é troço solitário. E um bom livro é também muito perigoso assim como "Viver é muito perigoso", diz Guimarães-Riobaldo, em Grande Sertão Veredas. Viver à dois, perigo dobrado. Leitura à dois, vôo às escuras.

Minh'alma é tímida. Levei anos pra perceber e respeitar isso em mim. Tem coisa que só sai íntegra, vinda das profundezas mesmo, quando tô só, completamente só. Embora tenha tentado com afinco fazer isso em cena, acho que consegui poucas vezes. Cantar profundamente, com emoção, por exemplo, é solitário pra mim. O Outro me esvazia da inteireza que só a solitude me dá. E da voz que só é aquela na solitude. Ler livro é emoção solitária também. Achava. Sobretudo ler em voz alta. Ler mesmo, de verdade, deixando-me levar pelas palavras e movimentos do texto, sendo arrastada pelas emoções contidas ali, e, em mim... É viajar pra muito longe. É escancarar-se demais.

Tem uma eu que só eu vi, verei e vejo, que só aparece comigo, pra mim. Uma eu só minha. E isso é parte do mistério de tudo.

Mas... Desachei. Que ler livro é coisa solitária. Ler um bom livro à dois, mantendo a profundidade da solidão é puro mistério. Fundamenta a relação numa outra dimensão. Chora-se. Ri-se. Sofre-se, dos profundos. Leva tempo e pede entrega e confiança. Muda tudo. Almas nuas frente a frente. 

Ler na presença dele. Ler com ele. Ler para ele. Ao vivo ou por telefone, ritual novo, abençoado, sagrado. Ler esquecida da presença dele, e, de repente, lembrada, vergonha funda. Que ameniza mas nunca passa. Parte do mistério de tudo.

Ao início. Lemos "Os trabalhadores do mar" e seu autor preferido. Me apaixonei perdidamente por Gilliard, instinto e força em sua pureza brutal. Me vi, o vi, seu autor preferido conta dele pra mim. Me aproxima do inexplicável, terrível, maravilhoso e único desse que amo. O mais sólido em ímpeto, constância, altivez, entrega e amor. Depois, "Os Miseráveis", o século 19 e suas estruturas, o miudinho do humano visto por um olhar social, antropológico, poético. 

E então, "Grande sertão: veredas", lido e relido por ele inúmeras vezes. Eu, em primeira vez, me vendo Riobaldo, Diadorim, sendo sertão... Vou me identificando, me vendo no outro ali, e de repente o jogo vira e Riobaldo me escapa. E nasce "o meu Riobaldo", "a minha Diadorim", criados da mistura das projeções minhas com as invencionices de Guimarães. Reflito sobre ética, constância, caráter, amor, entrega, coragem, medo, fidelidade, liberdade... E vejo ali o mais integralmente amado dos homens que tive. Ele me motiva, me orgulha, me ensina, me cresce e me expande de mim mesma. É bem isso o amor, na essência. Não o sabia, no antes. Agora sei, Ser Tão a gente, e ainda assim eu mesma. 

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. 
Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar 
as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E
 o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. 
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar 
essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não 
simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do 
que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

Amyr Klink

Anasha Gelli

15.3.16

O Senhor Bolinha

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Depois de amassar, pisotear e picotar os papéis, botando pra fora um tanto de emoções, olhamos pra aquela profusão de "restos". E a partir dali, o exercício era criar um ser.

O meu, ainda no meio de sua criação, já me dizia que era um ser masculino, batizado Senhor Bolinha! Um cara azul, amoroso, afetuoso e muito trabalhador. Seu cabelo longo e esvoaçado, também azul, mostra certa rebeldia, que ele mantém preso, pra não atrapalhar seu trabalho de terras e afagos.

Ele é definitivamente um imã para abraços calorosos. Não há quem olhe seu corpo e não queira se lançar na sua gostosura, tendo sempre acolhida garantida no seu corpinho quente. Senhor Bolinha adora abraços, e quem se joga no seu corpo fofo, eterno puff do bem querer, também se sente profundamente abraçado, embora o Senhor Bolinha não tenha braços, mãos nem pernas e pés. Apesar disso, ele toca e se movimenta muito. Ele se vira, gira, rodopia, amassa, acolhe.

E como todo ser vivo, também tem um papel especial nesse planeta-casa: O Sr. Bolinha, com seu corpo cilíndrico, rola faceiro por sobre a terra, afofando-a e deixando-a preparada para o plantio. Terra sulcada pelo Sr. Bolinha é colheita garantida.

Mas o mais intrigante sobre este serzinho é o fato de ele ter nascido de mim! Gerado a partir do encontro da necessidade de expressão somado à oportunidade, esta, em geral, sempre perto. O essencial, muitas vezes, invisível aos olhos. Tudo o que criamos é parte nossa e diz muito sobre nós. E o Senhor Bolinha me aparece agora trazendo que mensagens? Fiquei matutando, e acabei compartilhando a estória do Sr. Bolinha com meu companheiro, que mais faceiro impossível, me disse: "Mas esse sou eu!" E não é que ele tem razão? O Sr. Bolinha tem muito dele. E parte disso já é meu também, ou sempre foi, fenômeno que só o amor pode explicar. Quando os talentos do outro, de repente fazem casa na gente! E nos damos conta de que sempre estiveram ali, à espera de uma brechinha para se mostrarem pra nós. Talvez a gente já ame no outro justamente o que temos na gente...

"O amor é quando o outro nos mostra o nosso melhor". 

Namastê
Anasha

Ando pensando muito sobre o peso das pessoas. Gente curvada que carrega peso demais, grande parte talvez nem seja mesmo delas ou gente muito leve, sempre de boa, sem responsabilidades reais, cujo peso certamente outra pessoa carrega. Porque é bem assim que funciona nas dinâmicas familiares. Não fica peso solto no chão. Esse tipo de peso mora nas gentes, se atrai por gentes, daí que alguém sempre o carregará, mesmo que não seja seu verdadeiro dono.

Tô chamando de peso aquilo tudo que constitui nossa história, os caminhos que percorremos, as gentes que conhecemos, as escolhas que fizemos, os sucessos, os aprendizados, as consequências de todos os nossos atos e omissões, os amores, os desafetos, enfim, tudo o que criamos na jornada até agora. No google pesquei que "O Peso de um corpo é a força com que a Terra o atrai, podendo ser variável, quando a gravidade variar, ou seja, quando não estamos nas proximidades da Terra". De modo que é, justamente esse peso construído, que nos aterra, nos faz pertencentes e participantes ativos do mundo. Se eu não crio peso/história, eu me alieno. Se alguém toma pra si responsabilidades e consequências que são minhas, me aleija. Se eu tomo pra mim o peso de outro, eu o aleijo e o impeço de crescer, de aprender, de ser. Mães e pais são experts nessa prática, que é cultural e traduz um amor negativo e imaturo.

Complexas são as dinâmicas entre pais e filhos. Pais irresponsáveis que jogam excessivo peso, bem prematuramente, sobre seus filhos, que se tornam mais pais do que os próprios. Filhos irresponsáveis cujos pais privaram do peso, deixando-os leves demais, soltos demais, sem âncora na realidade. Sem falar nos pesos inconscientes, de filhos que pegam pra si, por exemplo, sonhos irrealizados dos pais. E depois se frustram ao descobrir que pegaram carona no bonde alheio. E tem ainda os pesos familiares de gerações e gerações, de guerras, abusos, tudo isso nos ronda. E há os pesos conhecidos, de atitudes e pensamentos desatualizados, que insistimos em carregar. A vida pedindo mudança e a gente ali, insistindo na velharia. E a mochila vai ficando pesada, de um monte de coisa morta que a gente insiste que ainda vai nos servir um dia. Apego cria peso ruim. História cria peso, simplesmente. 

Hoje, sinto meu peso, reconheço a maior parte dele e gosto da minha história, mas ando de olho mesmo (procurando ainda) numa parte dele, que sinto profundamente, não é minha. Certamente é composto de pesos de várias gentes. Medos e impedimentos familiares antigos, históricos, karmáticos, ui. Sinto uma linha tênue que me atravessa e que vem de muito longe mesmo. E lembro de algumas práticas orientais que reverenciam os antepassados... E penso em fazer festa pra eles, cantar, ninar, perdoar, agradecer... Talvez o simples reconhecimento de que existiram e deixaram rastros, e colaboraram pra eu estar aqui e agora, baste pra dissipar o peso ruim... Ou não!

Namastê

Anasha 


Matutando acerca da viagem da segunda metade da vida - parte 2", me pego rindo porque daqui pra frente essa será minha estrada, até a parte que me caberá viver. Enfim, seguindo na vibe da reflexão sobre chegar e até ultrapassar a metade da vida, e todas as questões filosóficas, existenciais, corporais, psicológicas e espirituais que o fato suscita, percebi, essa semana, um movimento interessante.

Em um nível intensamente sutil, a vida já vem me empurrando prum novo lugar (em mim) há alguns anos, durante os quais a luta foi (e segue sendo) ferrenha. Velhos sonhos e ideais perdendo o sentido, assim como práticas, atitudes, lugares e até pessoas. Mas eu me negava a ver e insistia, batia de frente, me rebelava, tentando manter meu status quo construído à duras penas, enquanto a vida, numa onda tsunamica invisível, queria detonar com tudo... O tsunami continua aqui, acontecendo, constantemente, dia a dia, minuto a minuto. Mas paralelamente à devastadora desconstrução da velha colcha, sinto que há uma outra sendo costurada em algum nível. Talvez esteja pequenina ainda mas ela caminha, a seu tempo, para fazer-se viva. Tudo isso se dá num outro Tempo, no tempo da meia idade. Esse que só compreendemos na meia idade!

A vida nos conduz para o centramento, para a meditação, para uma vida mais calma e equilibrada, porém,  há um lado em nós que esteve e ainda está desesperado com tudo isso, porque lê esse movimento como ENVELHECIMENTO. Claro que se apegou a um só dos lados do conceito, o lado sombrio do envelhecer que é o deixar de brincar, de sorrir, de cantar, tornar-se sério, triste, chato e resignado, o velho ou velha mal humorados e ranzinzas de nosso imaginário clássico. Esse é um dos fantasmas da meia-idade, o medo do envelhecer do espírito, que é muito mais profundo do que o do corpo.

A força oposta é a da JUVENTUDE, e que justamente por se colocar em oposição (e não em complementação) já vem compulsiva na busca por prazeres, alegrias e ilusões. E talvez a fuga de certas responsabilidades para com a gente mesmo e nosso bem estar. E assim acionanos também o lado sombrio da juventude. De fundo, sem saber, buscamos o equilíbrio entre os arquétipos do Senex e do Puer. Essa é uma luta antiga, a luta das polaridades, que antes se dava entre a normose e a busca por originalidade, e a vida se dividia entre os chatos normóticos e os loucos buscadores. Hoje a briga é mesmo entre a velhice e a juventude, dois lados da mesma moeda, complementares em essência. Sigo, observando o processo, amorosamente, buscando alcançar e acolher também o lado luz de cada um.

Hoje me sinto ENTRE, meu lugar do agora. Lugar da mulher de 43 anos, que carrega em si tanto a calmaria, a sabedoria e a fé próprias do amadurecimento e do tempo já vivído, com a entrega e o amor que só o envelhecer proporciona, nadando em meu ritmo próprio, ao mesmo tempo em que vivo também a curiosidade, a disposição, a indignação da juventude, que questiona, que inventa, que dança, que se apaixona e que investe nos sonhos porque os tem. Ainda dá xabu, na maioria das vezes, mas, sigo tentando fazer com que a luta vire dança!

Difícil mesmo é apaziguar os ânimos dessa gente interna que quando resolve ir pra briga, faz estragos demais por acreditar que uma postura exclui a outra. Aprendemos a excluir e não a incluir. Excluir dá sensação de poder e incluir parece fraqueza, o que me lembrou do conto "A princesa que era alta demais", que assim, como "Alice no país das maravilhas", nos fala sobre encontrar nosso próprio tamanho, natural, nem maior nem menor do que ninguém. Quando trabalho esse conto, proponho uma vivência corporal sobre sentir-se pequena, natural e grande. E a fala da maioria das mulheres com as quais já trabalhei é de que o sentir-se grande inclui sensações boas enquanto apequenar-se só traz sensações negativas. Parece haver algo errado ai. Parecer maior, mais importante, mais inteligente, mais bonita, foi o que aprendemos a almejar, sem nenhuma consideração para o fato de que estar no alto me afasta de quem, supostamente, está abaixo, e impede qualquer relação real.

Enfim, sentir-se grande ou pequena pressupõe comparação. Só me comparando pra poder avaliar. Mas enquanto seguimos nos comparando aos outros, o véu de maia continuará nos cegando. Só podemos nos comparar a gente mesmo, antes. Aí sim podemos avaliar se estamos maiores ou menores do que já estivemos. Enquanto o parâmetro for o outro, esquecemos de procurar, encontrar e acolher o que realmente importa: nosso tamanho natural, ser quem somos de verdade!

Bem vind@s a meia idade! E pros que não chegaram lá, espero que cheguem. Como cantou Arnaldo Antunes, na música Envelhecer: "(...) Não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer. Eu quero é viver pra ver qual é e dizer venha pra o que vai acontecer (...)".
Namastê
Anasha

Link da música:

https://www.youtube.com/watch?v=MHgcQ76vRM8

"Dizem que antes de um rio entrar no mar, ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada que percorreu, para os cumes, as montanhas, para o longo caminho sinuoso
que trilhou através de florestas e povoados,
e vê à sua frente um oceano tão vasto, que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira.
O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entrar no oceano é que o medo desaparece, porque apenas então o rio
saberá que não se trata de
desaparecer no oceano,
mas de tornar-se oceano."

Osho


Filósofos e psicólogos e toda essa gente que estuda a alma humana, apontam esse inevitável fenômeno que começa a acontecer quando alcançamos a metade da vida, mais ou menos entre 40 e 50 anos. Momento onde olhamos pra traz e já temos muita História e Tempo nas costas. E avaliar o que já passou vem numa onda inevitável como respirar, em longos suspiros de regozijo diante de lembranças felizes, e respiração entrecortada diante de dificuldades e obstáculos ultrapassados de forma não tão saudável e madura. Daí vem esse olhar de agora, mais amoroso com a gente mesmo (coisa que só a idade traz) e diz baixinho: "Você deu o que tinha pra dar! Fez do melhor modo que pôde fazer!" E lamentar o como agimos ou deixamos de agir vai parecendo uma bobagem muito grande. 

Em resumo, aquela voz chata que nos guiou até então e que, com um garfo espetado na nossa bunda, vivia vomitando regras malucas que a gente se virava pra cumprir, vai cessando. Regras muito muito desmedidas, máximas vindos do Ego, recheadas de auto-importância e sem Sentido pra Alma, vão desvanecendo. Dá medo, muito medo, um medo paralizante até, deixar de ouvi-la, afinal ela nos fez companhia durante muito tempo. E, de repente, aquilo tudo que estruturava nosso pensamento e ação entra em choque. A gente sente falta do comando e é justamente nesse vazio que se esconde o trampolim pra novos saltos. 

Não há saída, já que voltar pra trás não é opção possível, embora existam pessoas que fingem que o tempo não passou e seguem agindo como se tivessem 20 anos. O jeito é encarar o vazio, olhar pra ele de frente, bater um papo franco, vários, na verdade. A surpresa é que, por traz da voz de comando nazista, começa a se fazer presente uma outra, mais amorosa e iluminada, que não envia regras e sim estados de ser. É uma voz mais integrada com o corpo todo, não apenas com a mente, a alma da pele, talvez. É bom senti-la nos embalando nos momentos difíceis, ela que será nossa melhor companhia na jornada da segunda metade da vida. Ela que nos lembra quem somos de verdade, e que nos faz ficar em nós, o melhor lugar do mundo! 

O grande lance dessa fase é o ENTRE, entre o passado e o futuro, entre uma voz e outra, entre os condicionamentos de uma vida inteira e o vazio de agora... Entre, quando ainda não pisamos completamente no Agora. Talvez ainda existam questões pra se olhar lá trás, mas olhar de um novo lugar, mais ampliado, pra resgatar sabedorias e entendimentos. O Agora, lugar muito novo, assusta, porque pra estar nele é preciso permitir o Vazio. É um lugar onde o antigo não funciona, daí que pressupõe a ousadia de fazer diferente. E talvez seja justamente este o ponto da tal meia-idade que mais atormente: Esses momentos onde, sem ter onde nos apoiarmos, agimos mecanicamente, como no passado, o que obviamente não funciona, além de exaurir corpo e mente intensamente. E o novo nos escapa, e ficamos sem ação, paralizados. Medo, paúra, pânico, processo mais do que natural e que paraliza mesmo, momentaneamente, depois passa. Há gentes que não suportam, e daí vem as crises de pânico e os tratamentos psiquiátricos, afinal vivemos numa sociedade onde o medo não tem lugar e só os fortes vencerão.

A meia-idade traz um novo olhar sobre o duplo da vida, faz cair a ilusão e traz os entendimentos de que força é símbolo que traz em si também a fraqueza, de que medo é ingrediente vital da coragem, de que tristeza guarda em si alegria e por aí vai. E vamos, dia a dia, revendo velhos conceitos, antes parciais e capengas, recheando-os de uma parte que lhes é vital (e que antes considerávamos negativa). Não é à toa que é justamente nessa fase da vida que nos deparamos mais diretamente com a morte, real e simbólica. E também aí costuramos saberes profundos porque vida e morte são irmãs gêmeas e siamesas. E saímos da doce infantilidade de considerar algo bom ou ruim, ou alguém bom ou mal. 

E aprendemos a nos ajeitar pra alcançar um melhor ponto de visão, que seja também confortável. Tem isso, a noção de confortável cresce, pelo menos comigo tem sido assim. Antes, suportar o inconfortável era tão comum, que eu ficava nele horas, meses, anos, sem nem notar. Era movida a tensão e consequentemente, a ansiedade, sem nem me dar conta. Hoje, tem uma consciência ampliada, essa mesma que mora na pele da alma, que logo apita o desconforto e a pressa. E num suspiro profundo, que alcança o fundo da Terra, encontro o confortável em mim e desacelero. E lembro que urgente mesmo é estar aqui e agora e habitar meu corpo com amor, seja ele meu próprio corpo ou o corpo da terra...

Sinceramente não troco a experiência de agora pela dos meus vinte anos, sucumbindo assim a uma sociedade doente que valoriza a parcialidade e prega uma vida playmobil - aqueles bonequinhos todos iguais, com um sorriso único no rosto, eternamente jovens e felizes. Tudo tem seu tempo e sua hora. E o Agora tem sido experiência interessantíssima. Novos medos, novos processos e percepções onde a não-prontidão pro novo segue sendo o maior tormento. Ao mesmo tempo em que ver essa prontidão em ação tem sido de um regozijo profundo. Ver-me agindo numa velha situação de um jeito novinho em folha, de um modo mais sábio e cheio de Sentido humano, é experiência inenarrável, que me lança no aqui e agora, na Terra e no Céu, no dentro e no fora, e sou eu mesma, do melhor modo possível. E exerço aquilo que vim fazer aqui: Anashar, Vanessar, Ser!

Dói, dói muito, trocar de pele, de lugar, sair do conhecido. Tem momentos que parece insuportável. E daí vale lembrar do que nos faz felizes, do que alimenta nossa alma profundamente: pessoas, lugares, atividades... E vamos atrás de alimentar nossa alminha sedenta. E se não sabemos o que nos faz felizes, damos uns passinhos pra tráz na estrada, pra descobrir. Afinal, a sacolinha das felicidades é ingrediente vital na viagem da segunda metade da vida. Só não vale fazer disso uma missão dolorosa, que aí, o tiro sai pela culatra. É bom começar pelo pequenino: pisar descalça na grama, abraçar alguém de verdade, tomar sorvete de chocolate, fazer cocô lendo gibi da Mônica, dançar sozinha enquanto lava a louça, andar de bicicleta na calma da noite...

Além da certeza da morte, a meia-idade traz também outra: a de que a única pessoa que estará ao nosso lado para o resto da vida, somos nós mesmos, então "Seja sua melhor companhia, seu melhor amigo(a)!"

E se o bicho pegar, apareça que tenho aqui uma bicicleta, um baú cheio de gibis da Mônica e abraços...

Namastê

Anasha

20.2.14

Festa dos Mortos

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Morreu nosso amor
E pari sua festa
De regozijo e graça
De luto, cura e promessa

Morto sem enterro e despedida
Fica puto da vida
Vira fantasma
Que lacra a entrada
Praga sacramentada!

Sendo considerado,
ganha vida o danado
No fluxo das possibilidades
E segue em seu movimento,
Rizomático

Morte e vida, Severina menina
É dança interminável
Fora e dentro de mim 
Que num festejo solitário
Me despedi de ti

Suor, saliva, sangue, gozo, lágrima, coriza
Expurguei os líquidos trocados
Dancei a cama, o prato, o livro, o filme, o garfo, o lapso
Paixão, afeto, amor, carinho, cuidado
Se foram, voando, lado a lado

Desatei amarras e nós
Limpei cheiro, pele e presença
Abrindo espaços e fendas

Vai livre, amor nosso
Vai livre, amor meu
Voa livre, amor


Namastê

Anasha