Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!

Dia desses ouvi um som estranho em casa. Pus-me a investigar e, vi uma bolinha preta no chão: Era um filhotinho de pardal! Curiosamente, não tive coragem de pegá-lo nas mãos. Em verdade, eu queria muito que tivesse alguém ali comigo pra fazer isso por mim. Minha vontade era fugir. Aquele bichinho tão frágil, pequeno, abandonado, ali piando como que me pedindo socorro... Tive medo de machucá-lo e de me machucar também...


Depois lembrei de outras situações semelhantes. Tantos bichos já entraram em minhas casas: pássaros, morcegos, ratos, bruxas (mariposas negras), gatos... Em geral, lido bem com eles, no mínimo, enxoto-os amorosamente para fora, rumo à liberdade que lhes cabe. Mas esse filhotinho não podia ser simplesmente enxotado... Ele pedia cuidados.

No fim das contas, no ônibus (o lado bom desse transporte) me toquei da minha negligência e vim correndo para casa pensando em alimentá-lo, pelo menos. Nem isso eu havia feito... Procurei por todos os cantos e nada. Certamente há um ninho ali no telhado de onde o bichinho caiu... Foi por isso que deixei ele lá perto, no dia em que o vi... Na verdade, minha irmã apareceu, graçasaosdeuses, pegou-o e colocou-o num ninhozinho que fizemos com panos. Deixei-o lá na área de serviço, a espera da mãe... 

Quando meu filho viu o bichinho pôs-se imediatamente a investigar um modo de cuidá-lo. Foi pro google saber como alimentar um filhote de pardal, comprou seringa e alimentou-o durante 7 dias. O bichinho reconhecia ele. Foi uma das coisas mais lindas que já vi, o comprometimento dele, o carinho... Ele cuidou mesmo! E a mãe do bichinho, aparecia, vez por outra, pra alimentá-lo também.  
Foi uma semana diferente aqui em casa! E, um belo dia, mais fortalecido, lá se foi ele embora com a  mãe. Fiquei eu, com meu filho cuidador, que eu nem conhecia...

Lembrei de um gatinho que pareceu aqui em casa e foi acolhido por nós. Na mesma época, surpresas boas aconteceram e, pra mim, aquele gatinho, tinha sido o mensageiro delas... Houve ainda a morte da minha gata (outra) que aconteceu um tempinho antes de eu me separar, no mínimo, introduzindo-nos no tema morte. Sincronicidades... O externo refletindo o interno e vice-versa. Agora esse bichinho que aparece justamente quando uma nova vida se apresenta pra mim... E me traz um novo filho, mais amadurecido, comprometido, cheio de amor...

O filhote de passarinho é metáfora! Reagi com ele do mesmo modo que tenho agido em relação às novas possibilidades que se apresentam: Com vontade de fugir, com medo de machucar, de sufocar, de interferir, de errar, de me aproximar, de me envolver... Medo de levar uma bicada... Daí vem meu filho e me mostra o caminho muito simples do amor. E meu medo se derrete todo...

Anasha

19.4.12

Krisis

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Acho bonito demais gente em crise. Ou melhor, a boniteza do humano que aparece na crise. Atire a primeira pedra quem nunca passou por uma crise. Perda de alguém querido, separação, mudança de cidade/país, morte, uma grande decepção, perda de emprego enfim. Muitas situações geram crise, financeira, afetiva, existencial, nessa sou PhD! 

Independente do nome/tipo, o que importa é aproveitar a crise. Na nossa sociedade que valoriza o “Tá tudo bem!” como ninguém, dizer que se está em crise causa o mesmo constrangimento que dizer que se está triste, com raiva, com medo... No entanto, não há saída a não ser mergulhar na coisa e esperar emergir o que está guardado lá no fundo. Por vezes, alegria, amor, coragem... 

A crise nos tira, à fórceps, do “Tá tudo bem” e nos lança na mais total escuridão. É apavorante, arrepiante, solitário, nauseante. Nos sentimos sem chão, sem casa, sem lugar, sem corpo...  Fica tudo de cabeça pra baixo, dentro e fora de nós. Antigas prioridades, desejos, planos, sonhos perdem o sentido. A vida perde o sentido. A solidão é total e absoluta. Olhamos pra todos os lados e não encontramos nada. O que nos obriga a olharmos pra nós mesmos! Daí o sagrado da situação... 

"Crise é purificação, renovação. O que não é essencial, cai.
Só fica o miolo, em torno do qual se constrói novo paradigma".
(Leonardo Boff).

Vendo tudo a nossa volta ruir, vamos ficando pequeninos, amedrontados, humildes... Humildade faz milagres! Gente que nunca pediu ajuda, passa a fazê-lo; gente muito dura e fria de repente se torna amorosa; tem gente que aprende a ouvir de verdade; outros se permitem emoções antes negadas, enfim. Reavaliamos, repensamos, revemos posturas, ideias, emoções, afetos, amores... A crise, ao colapsar o eu/ego, abre espaço pra  algo mais oceânico e profundo em nós... A alma, essa coisa que nos pergunta se a alma existe... Né, seu Mário Quintana?
  
Esses dias encontrei um amigo, no auge da crise. O cara tava diferente, mais presente, mais íntegro, mais aqui e agora. Os olhos brilhavam de um modo profundo. O semblante era talvez um pouco triste, mas a força que emanava dele era poderosa e estimulante. Sua percepção sobre a própria vida estava mais límpida do que nunca. Ele tava botando em cheque escolhas, amores, prioridades em busca do essencial. E ouvindo-o falar, tive a certeza de que uma vida novinha o estava aguardando, nas cenas dos próximos capítulos... Vi um humano bonito ali... E me lembrei que tem uma vida novinha guardada em mim também! 

E hoje, ouvindo Leonardo Boff, entendi porque gente em crise me toca, me entusiasma. Entusiasmada significa "cheia de Deus". E me pus a pensar nas krisis religiosas, espirituais, coletivas, mundiais, planetárias ...  Crise vem do «latim crĭsis,  "momento de decisão, de mudança súbita, ou do grego krísis "ação ou faculdade de distinguir, decisão", por extensão, "momento decisivo, difícil", derivação do verbo grego krínō, "separar, decidir, julgar". A palavra crise é, na história da medicina, «o momento que define a evolução de uma doença para a cura ou para a morte». 

Namastê

Anasha
Texto escrito para/com jhcordeiro.

19.2.12

Carnaval interior

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Adoro festa! Adoro dançar! Adoro! Mas devo confessar: Não gosto de carnaval! Já gostei, quando criança, mas eram outros carnavais... Guardo na memória carnavais calorosos, familiares, íntimos... Cidadezinha do interior, o único clube da cidade, salão cheio, meus pais e avós, tios, tias, primos, todo mundo lá, fantasiado, animado, brincando junto! Cheirinho bom de lança perfume no ar... A única época do ano em que todo mundo podia ficar um pouco louco, e ficávamos todos, graçasaosdeuses! E podíamos mesmo viver nossas fantasias. Eu já fui super heroína, princesa, rainha, fada, e encarnava mesmo as personagens.  Hoje, adulta, o carnaval que vejo não me apetece, mas invejo quem curte.

A imagem é a fala da alma. Quando fui BatGirl realmente me senti poderosa, forte, corajosa! De Fada também, eu apontava a varinha de condão, crente que fazia mesmo mágicas... A escolha da fantasia sempre escondia algo maior. Ainda esconde. Mas naquele tempo não pensava nisso. Hoje, adulta, quando preciso me fantasiar pra alguma festa à fantasia, sempre escolho cigana espanhola! Talvez essa imagem guarde um desejo de ser nômade, viajante, misteriosa, sem amarras...

Guardo outras máscaras ou personas, aqui dentro. Muitas. Sempre que dou brecha e presto maior atenção, surge uma nova. Meu povo interior! Em 2010 libertou-se a Aventureira, e me vi me jogando de cabeça nas estradas e nas relações. Me apaixonei louca e fulminantemente umas 5 vezes em 6 meses. E foram paixões muitos reais, viscerais e verdadeiras, embora curtíssimas. Era La Apassionata libertária que se emancipava! Já havia sentido essa força antes, e acho que ela voltou pra me mostrar a minha imensa capacidade de amar e de viver os prazeres da vida... Na sequência, tive a honra de conhecer meu lado Amélia, com certeza, reprimido durante toda uma vida. E assim apareceu a Mulher que ama demais, com grande capacidade de amar mas, sem  nenhuma familiaridade com o termo liberdade. Novidade total, inédita na minha alma–palco. Ela se jogava, se lançava e grudava! Talvez tenha sido uma resposta medrosa à aparição anterior... Aprendi muito com ela, sobre mim, sobre as mulheres da minha família, sobre nossas escolhas...

Depois, veio a Mulher que ama de menos, oposta à anterior, cheia de marra, atitude e livre pro que der e vier, menos pro amor de verdade. Era a devoradora, do tempo, do phalo...  Super expansiva, extrovertida, louca por rua, bar, pessoas, encontros, noitadas...  Me mostrou o tamanho da minha autonomia hoje. Mas depois que passou senti que sua força motora era o medo... Fui, fui longe, apesar do medo. Fui pra longe demais, de mim... Daí que desde então, estou tomada por uma força outra... Se tenho tempo livre, quero aproveitá-lo comigo, em casa, lendo um livro, assistindo a um filme, cuidando da casa, fazendo comidinha gostosa... Sem dar-me conta das demandas externas do mundo, e ouvindo atenta as internas.

Cito as mais recentes novidades da minha fauna interna, mas há personagens mais antigos e estruturais como a Filósofa Curiosa, A Maga Curandeira, a Cozinheira (essa tava sumida há anos, dessa vez acho que veio pra ficar!), a Contadora de Histórias, A Velha Sábia Heremita, A Malvada a la Betty Davis (figurinha certa até meus trinta e poucos, tá sumida também!), enfim! Como as ondas do mar, elas vem e vão, acredito, num up grade crescente, ou numa aspiral ascendente. Posso até repetir uma delas mas nunca como antes, há sempre um maior grau de aprofundamento na experiência, creio.

Sigo permitindo, em verdade, não há como impedir uma força dessas quando se apodera de nós. É preciso humildade! Em geral, no início sou envolvida pela luz dessa força estranha, mergulho nela, passo a ser conduzida por ela, de corpo e alma, depois começa a emergir a escuridão, seu lado sombrio, ou eu me dou maior conta dele já que me leva à cometer desatinos... Depois a força cessa, perde a força e se vai. Ficam os aprendizados. Depois de mulheres que amam demais e de menos, quem sabe, eu reconheça em mim a Mulher que ama simplesmente... Na próxima fase... Na próxima face... Ah, esse meu povo de dentro...

Bom carnaval!
Namastê

Anasha

Dia desses, meu filho, com quase 15 anos, me diz que é ateu. O mais engraçado foi que a revelação não me abalou. Achei interessante até! Se fosse há alguns anos eu certamente ficaria com o coração apertado achando que isso poderia mascarar um ceticismo meio depressivo, sei lá. Hoje me pareceu jocoso, até porque, conheço meu filho, e ele é uma das pessoas mais cheias de fé que conheço. Fé e amor à vida ele tem de sobra! Tentei aprofundar o assunto e acho que captei o que ele estava querendo dizer. Em verdade, ele começa a esboçar um senso crítico em relação a várias questões: guerra, política, religião, e no pacote, a crença num Deus único, onipresente, onipotente e que nos vigia. Nesse, ele não acredita mesmo. 

Dias depois, puxando novamente o assunto, ele me diz que não é ateu, e sim agnóstico! Ou seja, ele não acredita nem descrê na existência de um Deus ou vários, ele apenas acha que a mente humana não é capaz de explicar tamanho mistério, mas acredita que eles existem. Ou seja, ele consegue conviver com o mistério que é a existência e pronto, sem grandes questionamentos. Eu não! Desde que me conheço por gente invento histórias/mitos pra amenizar o tamanho da interrogação. Mas fico feliz por ele poder experimentar outros caminhos para além da mãe, num salto existencial-filosófico necessário na adolescência. 

Falar nisso, lembro claramente da sua primeira crise existencial, aos três ou quatro anos. A notícia da morte do avô paterno trouxera à tona o tema morte. E volta e meia eu o pegava chorando num canto dizendo que não queria morrer. Eu botava o bichinho no colo, abraçava e dizia que ele não ia morrer. “Mas porque o vovô morreu então?” Oras, ele já tava velhinho. E as lágrimas voltavam a correr.“Eu não quero morrer! Eu não quero morrer nem quando eu for velhinho!” Caramba, que sinuca de bico! Dizer que ele era imortal eu não podia... Foi então que resolvi compartilhar minha crença na morte, deixando claro que era o meu modo particular de pensar a coisa toda. Se isso ficou claro pra ele, eu não sei, enfim. O que eu não queria era que a minha fala parecesse uma verdade única, já que, em algum momento, ele elaboraria ou escolheria sua própria crença espiritual. 

Eu: Acho que quando a gente morre deixa de ser quem é e pode escolher no quê vai querer se transformar. 

Ele: (com os olhinhos brilhando) Você vai querer ser o que mãe? 

Eu: Um passarinho! 

Ele: (bem feliz, pensando) Então eu quero ser um cachorro voador, assim a gente fica voando junto... Não, não, um cachorro mágico voador, assim eu posso me transformar em outras coisas também, quando eu quiser. 

Pronto! Assim abrandou-se a tal crise que só voltou anos depois, com nova roupagem. Desta vez era o universo a questão. Mãe, onde termina o mundo? Não sei, acho que não tem fim. Como assim não tem fim? Ele ficou meio apreensivo. Falou sobre as galáxias, planetas e que os cientistas deviam saber onde ficava o fim. Eu disse que nunca havia ouvido nada àquele respeito, mas que a gente podia pesquisar junto. Ele fez uma cara de que não era necessário. E com ar de cientista, me chamou pra sentar à mesa, pegou lápis e papel e desenhou um retângulo. E eu ali, sem entender nada. Me chamou pra mais perto e, todo sério, apontou um dos menores lados do retângulo. “O mundo começa aqui!” E foi com o dedinho pro lado oposto... “E termina aqui. Viu? É assim!” E saiu da mesa todo contente. Um mundo sem fim era insuportável! Nessa época, com sete anos, ele ainda não era agnóstico. Inventava mitos pra dar conta dos mistérios, assim como o ser humano faz desde que o mundo é mundo.

Chato mesmo é quando alguém quer incutir uma dessas “verdades particulares” em todo mundo, como se fosse uma roupa super flexível que cabe em qualquer um. Como fazem com as religiões, que é um pouco a crise dele agora. Mas pensando bem, acho que ele tem religião sim: o futebol! Quanta reverência, entrega, entusiasmo, paixão eu vejo nele quando assiste a um jogo de futebol! Ele chora, berra, comemora, e de certa forma, quando o bicho tá pegando pro seu time, até reza, porque torcer é uma espécie de reza, sem dúvidas. Existe toda uma metafísica no ato de torcer. 

"O torcer é parente do orar, só que sem rodeios e intermediários. Na reza, o devoto se concentra e abre o canal da interlocução pela oração: ele se dirige ao santo ou deus da sua predileção, rogando-lhe que interceda a seu favor. (...). O torcedor, é claro, também reza e promete, mas no calor da hora ele vai direto ao ponto.(...) No fundo a fé selvagem de quem torce é a crença de que podemos domar e torcer o curso natural das coisas - coagir o futuro -por meio da força bruta do nosso querer. O mundo, berra em silêncio a alma torcedora, não é surdo e indiferente ao meu desejo". Eduardo Giannetti 


Hoje ele ainda investiga o espaço, mas de um novo modo: Com seu skate! Desde sempre guardo em mim a sensação de que o conheço há séculos, milênios... Quem sabe já voamos juntos em outras paragens? Sou muito grata por poder acompanhar todas essas transformações no seu modo de pensar e sentir o mundo. Ele me abala, me tira do prumo, me chacoalha, me acorda! Ele me cresce, sempre!

Namastê

Anasha

13.2.12

Crise filosófica

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Não paro de matutar sobre meu último texto... Essa nova experiência de viver uma crise deflagrada fora de mim, simplesmente! Eu, me vendo de dentro pra fora, sou uma. Eu, me vendo de fora pra dentro, sou outra. E esta última, tem sido estranha e fascinante experiência! Em seu conto “O Espelho”, Machado de Assis já lançara a idéia de que “cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro pra fora, outra que olha de fora pra dentro”. De todo modo, nada mais é o que parece.

Não à toa, caiu em minhas mãos um livro que trata bem disso, fazendo-me perceber que a crise externa deflagrou uma crise filosófica profunda. Nem sabia mas, pensando nas origens da filosofia, estou entre Sócrates e Demócrito. Sócrates representa uma filosofia moral, essencialmente ética, com valores e juízos acerca do que é melhor. E claro, com perspectiva interna, que entende o mundo a partir do homem, buscando transformá-lo. É o ponto de vista da alma que olha de dentro pra fora. Sempre me soube assim, socrática, até que...

A tal objetividade, ou melhor, o exercício dela, que antes me parecia uma forma lenta de assassinar a magia da vida, agora passa a me fascinar. “Demócrito visa submeter o entendimento humano à realidade objetiva e ao curso das coisas como elas de fato são, independente do que possam ser os nossos desejos e preferências”. É uma perspectiva externa que trata de entender o homem a partir do mundo. O ponto de vista da alma que se observa, analisa e esmiúça de um ponto de vista radicalmente neutro e externo.

“Demócrito (...) perseguiu a ambição de considerar o homem não como objeto de elogio ou reprovação, mas como parte integral da natureza e, portanto, submetido ás mesmas leis, regularidades e princípios gerais de explicação”. Hoje me sinto exatamente assim, sem menor ou maior importância do que qualquer outra manifestação da natureza. E, em muitos momentos, sinto que minha leitura subjetiva da realidade atrapalha. Nunca pensei que um dia eu pensaria assim...

É tudo muito paradoxal porque ainda assim me vejo junguiana. Para Jung certamente a crise externa foi constelada por mim e traz um sentido, um significado intrínseco que aponta um caminho de crescimento. E a súbita visão objetiva dos fatos e da vida, talvez fruto da metanóia da vida (crise que se deflagra quando chegamos na "metade" da vida, lá pros 40 anos!), me possibilitando viver a polaridade objetivo/subjetivo, permitindo-lhe a expressão rumo à homeostase. Se algo em mim quer agora ser objetivo, que seja. E se, paralelamente, o lado subjetivo segue ativo, contudo em transformação, também permito. Meus lados Dodô e Sosô tentando dançar juntos, "trupicando" mas tentando!

Lembro de uma vez quando meu filho, com 5 anos, me contava que havia sonhado com um golfinho, mas que, em verdade, ele não sabia dizer ao certo se era ele quem tinha sonhado com o golfinho, ou se fora o golfinho quem sonhara com ele! Nunca mais esqueci isso. Penso: Há uma intersecção entre a alma que vê de dentro pra fora e a alma que vê de fora pra dentro? Seria o corpo, o mundo, nada?

Já cometi o mesmo erro três vezes nesse texto, ao digitar alma e sair lama... Associando livremente vem barro, origem, começo, modelagem, modelo, primeiro...Um “erro” do cérebro (miolos, seus nervos e conexões) ou do espírito (a mente que pensa, sente, associa, compara...?) Para a neurociência quem manda é o cérebro. Pra mim sempre foi o espírito. Até agora, quando sinto que é a dança dois dois quem nos move. 

Não me sinto de modo algum obrigada a escolher uma ou outra posição, me sinto entre, bem na intersecção, onde há espaço suficiente pro jogo de Dodô e Sosô. Eles se divertem porque  sabem que nesse jogo não existe  ganhador ou perdedor, vale jogar!

Me lembrei da época em que amei dois homens ao mesmo tempo... Minha ética não me permitiu ficar com os dois, e fiz minha escolha, sem nem ter perguntado a eles o que achavam da situação... Me vi como Sócrates, condenado à morte, sem nem se defender ou mesmo fugir da prisão quando foi possível. Aceitou a morte, afinal havia sido julgado por seu povo, e para ele, a justiça estava acima de tudo. Minha justiça da época não permitiu que eu ficasse com dois amores. Poliamor? Nem naquela época nem hoje. Como falar de livre arbítrio com um código ético assim tão rígido?  

“De que modo surgiu e como foi gradualmente se delineando, na trajetória evolutiva dos seres vivos e do homo sapiens em particular, a fronteira entre os processos fechados à nossa escolha e vontade conscientes, de um lado, e aqueles que nos parecem abertos e receptivos aos decretos e alvarás do eu-soberano, de outro?!” 
O melhor mesmo é parar, até de escrever, e permitir que “essa coisa toda” que eu vivo hoje, cozinhe dentro de mim. E nem sequer abrir o forno pra espiar! Ou ainda, pelo olhar da antroposofia, permitir que os conteúdos durmam, deixando-os quietos por um tempo, hibernando. Com que sonharão esses tantos pensamentos? Oxalá seja eu sonhada e transformada por eles!

"Viver é afinar um instrumento 
de dentro para fora, 
de fora para dentro" 
(Walter Franco) 

Recomendo a leitura de "A Ilusão da Alma – biografia de uma idéia fixa", de Eduardo Giannetti.
Namastê

Anasha, a filósofa

Algo muito novo se passa aqui no “de dentro”... De velho, a necessidade vital de escrever pra organizar-me, purgar-me, esclarecer, descobrir... A escrita como catarse! Do começo, se é que é possível.

Até os trinta e tantos, eu vivia em crises mil, relacionadas a vida afetiva ou profissional, em criativas variações sobre os temas. As bases vinham do passado, em questionamentos sobre escolhas feitas ou do presente, nem sempre condizente com minhas expectativas (quando comparado a um paraíso criado lá atrás...). A crise vinha de dentro, nascia das entranhas, com idas e voltas inconstantes... E, de repente, passou. E juro que no início estranhei, senti falta daquela agitação interna constante. Depois acostumei-me nesse lugar em mim, tranquilo. Eu estava no lugar certo, na hora certa! Os milhões de questionamentos foram substituídos pela vida presente que eu tocava de forma bem mais leve: casa, filho, trabalho, interesses, amigos, relacionamentos, enfim. Finalmente eu parecia aceitar as coisas como são, ou melhor, eu como sou, sem grandes auto-aporrinhamentos. E viva a tal maturidade!
E eis que quando percebi, estava vivendo um momento de abundância financeira como jamais.  E realizei o sonho de reformar minha casa velha. E sou grata por ter transformado aquela grana em aconchego, praticidade e beleza, e não numa viagem pelo mundo. Minha casa, minha vida total! Sou super casa, apesar de ser também super mundo. Mas se eu não tiver pra onde voltar, nem vou. De modo que agora posso ir... A Imperatriz, com seu império, e o Mundo, não por acaso são os meus arcanos do tarô! Enfim, passei três anos em paz, descobrindo novos prazeres, novos sonhos, numa profunda reconstrução da minha amizade comigo mesma, até que...
A situação mudou radicalmente sem aviso prévio: Fui assolada por uma crise financeira sem precedentes, indo literalmehte do 80 pro 8! A batalha, que eu achava já ter vencido há tempos, de ter uma salário mensal, caíra por terra. E a segurança alcançada mostrou-se ilusão! Durantes os primeiros meses de crise, estive aguardando a liberação da verba, que, prometiam, sairia a qualquer momento. Fiquei “amarrada” nisso, acreditando no desenrolar das burocracias e na liberação de uma grana que era nossa de direito. Saindo a verba haveria muito trabalho, daí o receio de procurar um novo emprego... Mas e se... Fiquei nessa uns 8 meses...

Depois disso, mesmo com meu custo de vida reduzido a 60% do habitual, a sobrevivência urgia!  E não dava pra perder tempo questionando a crise das ONGs, relacionada à generalização de que todas só servem pra desvio de verba. Num nível macro, o cerne da crise é esse, o boicote do governo às ONGs!  Num nível micro, tem relação com meu lado masculino, of course! E talvez algo mais, que ainda não saquei...
Pus-me a correr atrás, me virar, além de ter que encarar algumas práticas pela 1ª vez na vida: empréstimo bancário, pedir dinheiro emprestado pra amigos, alugar um quarto em casa, vender as jóias, vender o carro substituindo-o por bicicleta... Aprendi muito sobre humildade, flexibilidade, adaptação, amizade, criatividade, riqueza enfim.
Guardo em mim essa mania de ver sempre o lado bom de tudo, de acreditar, ter fé, na vida ou sei lá no que. Têm sido muitos os aprendizados e crescimentos,  mas juro, até essa mania de ver o lado bom entrou em colapso. O estrago que a falta de grana deixara na minha auto-estima era visível. Talvez por isso eu me sinta tomada de um certo ateísmo hoje. Não é que não acredite em Deus, no entanto, não penso mais no assunto, e nem tenho aí um apoio, assim como o pensamento positivo. A crença de que “tudo vai dar certo” tem vida autônoma. É uma sensação estranha, de fazer sem fazer. Ao mesmo tempo, me apoio em mim como jamais. Afinal, o mais verdadeiro e real Deus que conheço me habita. Acredito em mim! E chorar pelo leite derramado, pelas escolhas do passado, é rua sem saída. Daí que a saída é tomar o remédio necessário: encarar o casal Objetividade e Ceticismo, até curar a ferida! Pra uma pessoa sempre tão subjetiva e crente, viver o outro lado pode ser interessante... Libriana sempre buscando equilíbrio... 
Como dizem os judeus, eu posso até acreditar em milagres, mas não ao ponto que ficar esperando por eles. De certa forma, acho que num nível eu esperava sim, o que minava, de maneira bem sutil,  outras forças minhas. Sigo buscando alternativas pra reestabelecer o equilíbrio financeiro, consequentemente minha auto-estima, e algo mais, perdido no meio disso tudo...
Prezo o bom humor e as comemorações, e disso não abri mão, na medida do possível! Celebrar a vida é remédio sempre! A casa linda e gostosa tem sido um alento, uma espécie de colo acolhedor onde eu posso descansar e retomar as forças pra lutar! Casa mãe! Além de acolher as celebrações e as pessoas queridas, também remédio vital!
Toda essa crise tem mudado muita coisa. Hoje as prioridades são outras e o modo com que encaro o mundo e as relações está em profunda transformação. Sinto uma sensação de solidão do tamanho do mundo. Mas ao mesmo tempo nunca antes havia sentido tão fortemente a profunda sensação do quanto sou rica: em saúde, afeto, criatividade, amizades, família...  Sinto, como jamais, as rédeas da minha vida completamente em minhas mãos!
Sei que está é mais uma fase que vai passar, levando-me a outras tantas. Daí que tenho aprendido a não me deixar abalar tanto pelo que acontece fora. Tenho conseguido, por muitas vezes, manter-me tranqüila aqui dentro, enquanto o mundo desaba. Outras vezes, desabo junto mesmo, mas levanto rapidinho, sem tanto drama.
A crise do agora vem de fora, abalando o dentro, claro. Mas nasce fora, diferente de todas as outras. De algum modo, parece preservar algo interno importante. Tô só observando essa mudança... 


Guardo no fundo a certeza de que a crise passará, deixando um legado positivo. No entanto passará, no tempo dela, no tempo da vida, não no tempo que eu quero. Amadurecer é um processo estranho, onde realmente, muitas vezes, é preciso dar alguns passos pra trás, pra pegar impulso e saltar pra frente. Ainda estou de ré, eu sei, mas uma hora eu salto. Tempo, tempo, tempo... 


Caetano Veloso me traduz hoje, na sua "Oração do tempo":
                                     
" Compositor de destinos, Tambor de todos os rítmos, 
Tempo tempo tempo tempo, entro num acordo contigo...
Por seres tão inventivo, E pareceres contínuo, 
Tempo tempo tempo tempo, És um dos deuses mais lindos (...)
Peço-te o prazer legítimo, E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo, Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo... De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido, Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios, Tempo tempo tempo tempo...
O que usaremos práaisso, Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo, Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo (...)
Portanto peço-te aquilo, E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo, Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo..." 


E viva o blog como caminho pros umbigos em crise... 
Namastê
Anasha

O resultado do que vai acontecer daqui a pouco será decisivo pra mim, em termos de trabalho... Tudo tem que ser resolvido hoje senão... O prazo é rígido, e se não for cumprido, já era. É sempre assim no final do ano, por pura incompetência alheia, da qual ficamos à mercê. Isso que dá depender do governo.

Até o fim do dia saberei o resultado, positivo ou negativo, de uma tramitação que perpassa vários níveis de burocracia externos e internos. Se a internet ou celulares derem pau, pode ser fatal. Carro enguiçar? Meudeus! Acidente de trânsito, motorista bêbado recém saído de almoço de confraternização?  E se um técnico do sistema demorar um pouco mais pra voltar do almoço? E se alguém esquecer o celular e demorar um pouco mais pra repassar uma informação vital? E se o cartório não cumprir o prazo de entrega do documento? E se a pessoa que tem que assinar tudo tiver um problema pessoal e ficar indisponível?  Uma pequena bola de neve de atrasos, que foge totalmente ao nosso controle, e pode acabar com tudo.

Uma imensa rede de pequenos acontecimentos e esse monte de gente, a maioria totalmente desconhecida, envolvida no meu destino! É uma loucura total e, ao mesmo tempo, normal. Foi sempre assim. O futuro vai sendo tecido no aqui e agora, por várias mãos, corações e mentes. Mesmo em se tratando da minha própria vida, acho que no fim das contas, não tenho menor ou maior parcela de responsabilidade... Livre arbítrio? Liberdade? Já não sei de mais nada. A única certeza que tenho é a de que o modo como lido comigo mesma nessas horas decisivas faz toda a diferença pra minha saúde. Se eu sucumbir, já era!

Sucumbir significa deixar-me levar pela ansiedade, fazendo crescer a bola de neve do stress. E então, fragilizada e amedrontada, minha mente seria tomada por imagens negativas, gerando tensão muscular crescente. Irritada, eu mudaria automaticamente o tom de voz pra algo esganiçado e raivoso. E seria tomada pela raiva, como uma espécie de escudo que dá ilusão de força. Sem ela, eu desabaria a chorar e não conseguiria fazer mais nada, o que seria o caos pra todo o processo em andamento. Então a raiva permaneceria. E qualquer pessoa que cruzasse o meu caminho nessa circunstância seria alvo e levaria bala. E assim, no fim do dia, mesmo que a resposta seja positiva, eu nem conseguiria comemorar devido à tanta tensão acumulada. Já passei muito por situações onde reagi desse jeitinho! Não vale nenhum pouco a pena. É, viva a maturidade, e a meditação, claro!

Tô aqui, super serena diante da situação, confiante de que seja lá o que aconteça, eu vou sobreviver. E se a resposta for negativa, outras possibilidades aparecerão, nunca no tempo que esperamos, eu já sei. Enfim, a vida é feita de altos e baixos, e, interessante tem sido manter-me centrada em qualquer situação, sem subir ás alturas quando tudo vai muito bem, e nem descer na lama, quando tudo vai mal. Às vezes, sucumbo geral... Enfim, sigo feito Alice, no país das maravilhas, buscando não apenas o meu tamanho verdadeiro, mas manter-me nele, ou fiel a ele, em qualquer situação.

Namastê  

Anasha
Texto escrito em 28/12/2011

Hoje me chegaram coisas subversivas: Flashes da festa de sexta-feira (Festa é ritual que tem um super poder de subversão, ás vezes, desperdiçado. Não foi o caso, gracias a la vida!); “A molécula do espírito”, documentário sobre uma molécula que há nos seres vivos relacionada a experiências espirituais e com a qual se criou uma nova droga; um vídeo do Tom Zé falando do refrão do funk “Tô ficando atoladinha” onde cita que 68% das alunas da USP não gozam, e que o refrão é educativo, reflexivo/elucidativo sei lá... Tom Zé criativamente vivo e subversivo aos 70 e poucos... 

Os shows do músico cubano Alain Pérez também são pura subversão. E olha que só vi alguns em vídeo e foi sempre arrebatador. Me dá um desconcerto ver tamanha entrega, tanta volúpia esparramada... Ele parece tomado de uma força superior, quebrando regras, criando ao vivo, pervertendo... Aciona a memória atávica da mesma força em mim, também inenarrável... Enfim, subversão: Ação ou efeito de subverter; prática de atos subversivos; revolta, insubordinação contra a autoridade, as instituições, as leis e os princípios estabelecidos.

Dos sinônimos possíveis - desobediência, indisciplina, insubmissão, insubordinação e rebelião - insubmissão traduz meu modo de ver a coisa. Não estar submisso a nada nem ninguém, seguir a bússola da alma... Nada a ver com rebeldia. Osho falava muito disso. Outro subversivo genial! Todos nós já vivemos ou sentimos essa força em nós, em momentos onde fomos extremamente contra o estabelecido, não por rebeldia, mas por necessidade profunda, liberdade ontológica! Quando a Verdade toma a cena sem medidas. Dançar, meditar, transar, podem desencadear isso... E tantas outras experiências, talvez algumas nem catalogadas ainda.


Conhecer gente e, em tempo real, fazer o exercício do não-julgamento, é subversão. Julgar é estar submisso a algo bem restrito, limitado e impeditivo. O julgamento impede o novo. Abafa o novo. O amor é subversivo. Nos sinto quase que perdendo o contato com sua capacidade revolucionária... O beijo também é pura subversão, ainda. Assim como afeto, carinho, sexo quando expressos livremente. O silêncio também. Invejo os silenciosos. Quando naturalmente silenciosa alcanço algo novo, e muito velho em mim, em nós, no mundo. Mas confesso, ainda, o tal medo. Você tem medo de que? Eu? De subverter-me...

Me lembrei agora do avesso da subversão: a submissão total, a algo negativo, claro. Como alguém que se mantém cegamente apaixonado por um outro que não lhe considera em nada, não lhe quer, lhe trata mal até. Como perdemos totalmente a consciência, o senso de dignidade? De repente, sucumbimos. Em variados graus, todos nós já sucumbimos. Quando nossa força interior nos abandona... Vai pra onde? No seu lugar fica prisão, restrição, sofrimento. Escolhidos. E como esse algo forte em nós permite isso? Existe submissão boa? Submissão a algo que eleva, engrandece? 

Enfim, a vida segue lindamente louca e cruelmente amorosa. E eu sigo amando gente subversiva, mestres que nos lembram da substância de que somos feitos. Subversão é a essência da alma. Desculpem mas cito pela miléssima vez o livro “A Alma imoral” do qual a atriz Clarice Neskier criou um monólogo genial, e necessário. Sem subversão a alma sufoca!

Links associados:
Tom Zé e o refrão de “Tô ficando atoladinha!” 
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=E5Wc0iXAOVQ#!
Filme “A molécula do espírito”.
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=7q9gq9usxiU
O cubano Alain Pérez, sempre improvisando e levando seus músicos junto 
http://www.youtube.com/v/nSerlwxruKo&fs=1&source=uds&autoplay=1
Filme “Sem limites”
http://www.youtube.com/watch?v=JMU_ksS3fq4

Um beijo, pretensamente subversivo, já que amoroso, onde você quiser...

Namastê
Anasha