Umbigo de Eros

Te convido para sentar no sofá vermelho de Eros... Vamos escarafunchar os Umbigos!

29.8.11

A Mágica da Vida

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Tem momentos que a vida flui como que magicamente! Em geral, quando estamos centrados, encarnados em nós mesmos, alinhados no que somos... Quando medito muito também parece se abrir o portal da magia... Nesses momentos não há intenção nem esforço, e aquilo que tem que acontecer simplesmente acontece... A melhor escolha nos escolhe... Tudo isso pra dizer que passei um final de semana inesquecível e mágico, claro! Pegar a estrada já é um tesão, com uma amiga querida ao lado e boa música então...


Sem nenhum planejamento, tudo aconteceu. A natureza em sua abundância e beleza nos acolheu, posso dizer que dormimos no seu colo com direito à cafuné e cheiro no cangote... Sentamos ao redor de uma fogueira com queridas amigas surgidas do nada... Passamos o dia numa corredeira maravilhosa, sem mais ninguém... Hum, comemos um pão de queijo tão bom na estrada... Assistimos a shows animadíssimos, encontramos pessoas queridas, conhecemos outras... Pessoas especiais que me fizeram lembrar do essencial em mim e na vida... Agradecida!
E curtimos a melhor rave de todos os tempos, na madrugada mais linda de que lembro... Dançamos com e pras estrelas, com as árvores, com a terra, e com todos os seres invisíveis que com certeza estavam ali na escuridão das matas... Ao som da DJ Rê Lima... E ali, no sacudir de Dionísio nas nossas ancas, lembrei muito do Osho e das suas verdades profundas... E rimos muito e tanto, com as lágrimas escorrendo... Quando a coisa se acalmava, lá vinha outra grande piada cósmica, e lá íamos nós de novo, chorando e rindo numa felicidade plena, louca e leve, leve, leve... 


Iniciei a semana passada pedindo à vida uma viagem a la Thelma & Louise, um filme inesquecível. E não é que ganhei?! Pra mim, a morte das protagonistas no final do filme, quando voam com seu carrão num precipício, é metáfora da transformação profunda que viveram ao longo da viagem... Suas vidas haviam ficado pequenas demais diante dos aprendizados da estrada e, num vôo, seguiram pra uma vida outra, nova, íntegra...

Namastê

Anasha 

Esses dias escrevi um post sobre o pai onde citei o poder da mãe de fazer de um homem pai. Citei as mães superprotetoras ou dominadoras que não dão espaço pro pai se assumir... Mas a questão da paternidade vai mais além.

A mulher engravida e tem nove meses de relação direta com o bebê, antes de tê-lo nos braços, tempo em que vai se acostumando com a idéia... Já para o pai, o bebê na barriga quase que não existe, é pura abstração. Ele passa a existir realmente, quando sai da barriga, e mesmo assim, é preciso tempo para assimilar a novidade, afinal são 9 meses de defasagem em relação a mãe!

Outro ponto importante é que, historicamente, na sociedade em que vivemos,  o homem não foi educado para cuidar das crias. Pelo menos até então, já que hoje os homens têm tido muito mais permissão e mesmo estímulo para o afeto na família. De certa forma, o fato das mulheres terem entrado com força total no mercado de trabalho, abriu mais espaço pro homem dentro do lar. O espaço deixado pela mulher na casa, vêm sendo ocupado pelo homem, de modo lento e contínuo, acredito, mas ainda há muito a caminhar.

A ausência do pai em casa nos primeiros dias de vida do bebê só reforça a idéia equivocada da sua prescindibilidade nos cuidados com a cria, já que, diriam alguns, “isso é papel da mãe!”. Neste sentido, o Projeto de Lei 879/11, da deputada Erika Kokay (PT-DF), que eleva de 5 para 30 dias o período da licença-paternidade, dando o mesmo direito ao pai adotante, pode ser uma poderosa ferramenta para a efetivação da paternidade consciente. Ter a presença do pai em casa, junto ao bebê, durante seus primeiros trinta dias de vida, pode significar uma aproximação entre pai-filho (a) que se refletirá positivamente na relação deles durante toda a vida. Em qualquer relação, os primeiros dias são fundamentais e decisivos! 

A aprovação da ampliação da licença paternidade para 30 dias pode ganhar um grande reforço se o público se conscientizar da sua importância e aderir à proposta. Segue o link para participar do abaixo assinado em apoio à ampliação.

http://www.erikakokay.com.br/licencapaternidade/abaixoass.php

Anasha, agosto 2011
Atriz, arteterapeuta junguiana, produtora cultural e coordenado do Instituto Arcana e do Programa Roda de Mulheres

Afinal, que diabos é a paixão? Certamente o diabo tem tudo a ver com isso. Diabo no sentido do excesso, do desproporcional, da libido esparramada, e que, em geral, cega! Sinal de que fomos flechados pelo Cupido! Na Grécia Eros era um lindo moçoilo tesudo e sacana que foi reduzido pelos romanos a um garoto gorducho chamado Cupido! Independente de sua forma, Eros parece não poder ser dominado e quando surge em nossas vidas, ficamos à sua mercê.

No sentido originalmente elaborado por Jung, Eros descreve a lei interna da energia psíquica no que se refere ao estabelecimento de relações, ligações e mediações entre os seres. E deles com eles mesmos, e deles com idéias e projetos, por que não? Eros dá a liga... Uma relação só é possível com Eros ali pra gerar o interesse pela coisa...

A ausência de Eros nos desconecta do mundo e tem tudo a ver com a depressão, quando a libido e o gosto pela vida ficam fraquinhos... Eros se foi! Falo aqui da depressão circunstancial, gerada por uma perda, como separação, morte, mudança de cidade, de emprego, decepção com alguém... Nesses momentos, não temos saída, senão permitir a dor e vivê-la até que Eros retorne. E acreditem, ele volta mas nunca no tempo que queremos...

Lembro que quando me separei, ouvi que a dor da separação tinha um tempo de cura de no mínimo dois anos. Achei um absurdo e claro, comigo seria diferente! Não foi e me vi nas estatísticas! Durante dois anos Eros me abandonou, saiu dando suas flechadas por outras bandas, bem longe de mim... Nessa época o desejo por qualquer coisa, sorvete de chocolate, um curso interessante, uma roupa nova, sushi sei lá, se foi... A vida havia perdido totalmente a graça e o gosto... Homens? Nem pensar!

Eros havia partido. E internamente, eu vivia uma lenta e penosa luta contra o não desejo de vida, que é a morte... E Psiquê (alma em grego) seguia a vida no piloto-automático. Vivia e sobrevivia guiada por forças primitivas... Forças mais profundas que nos fazem seguir vivos apesar de tudo! O lado bom da depressão (sigo vendo sempre um lado bom em tudo!) é que nos permite um mergulho tão profundo em nós mesmos que acabamos por descobrir o mais secreto dos tesouros: nossa força vital!  

Se antes, minha energia “erótica” fluía nas relações envolvendo o casamento e sua manutenção, a perda desse canal de expressão levou a máquina ao colapso. Como um rio que tem seu fluxo impedido, minha libido precisava descobrir outros caminhos... Mas nada disso era consciente e se dava no “de dentro” lentamente... Depois de dois anos, Eros veio retornando, trazendo sua mensagem de vida por meio muitos mensageiros... E só percebi quando já estava novamente cega... Paixão que se preza, cega!

O Retorno de Eros

Lembro que numa noite, depois de uma apresentação, ganhei um baita presente do meu filho que me olhou e disse às gargalhadas: “Mãe, você é muito engraçada!” E não é que eu acreditei?! Eros voltava definitivamente e me vi novamente rindo, brincando, achando a vida boa...

Eros voltava mas de um modo cíclico, vindo e sumindo sem avisar, numa TPM louca... Passei um ano assim, com altos e baixos radicais... Num dos vôos vivi a primeira paixão, da nova safra... Lembrei da minha capacidade de amar, de querer, de gostar... Me vi apaixonada pela paixão em mim, querendo querer... Apaixonei-me pelo estado em que a paixão me deixava... E pelo cara, claro, mensageiro dessas mensagens tão profundas... Porque o outro é sempre mensageiro, embora muitas relações se pautem na idéia de que o outro é a mensagem...  

Como não sentia há muito, e confesso, achava que nem sentiria de novo, a paixão veio como explosão... O pobre objeto da minha paixão quase morre queimado... E sem entender aquilo, todo aquele desejo descompensado esparramado sobre ele... Do jeito que veio, passou, fulminante, exatos 18 dias... Fiquei de ressaca uns tempos... A máquina da paixão, recém reativada, tinha sido super usada e precisava de manutenção...

Logo recebi outra flechada! E lá fui eu, ladeira abaixo, ou barriga acima, já que me apaixonei pela forma e pela temperatura daquele corpo... Durou umas tantas noites... Paixão cega que me fazia não enxergar nada real numa capacidade de abstração invejável... Fui feliz aquelas noites... Quando passou, rebobonei a fita e não acreditei! Foi uma paixão curta e doida, que me lembrou do essencial numa relação... Agradeço à mensagem recebida!  

E, de novo me recolhi, em ressaca passional... Até ser conduzida por Eros à minha paixão atual, onde me sinto um pouco mais equilibrada devido aos treinos anteriores... Será? Como falar de equilíbrio quando se trata de paixão? Enfim, lá vou eu de novo, levada pelos movimentos da libido... Dessa vez traz junto uns momentos de lucidez... Tô apaixonada e ao mesmo tempo, observando a paixão em mim... Tô só assuntano essa novidade, essa roupa nova de Eros... Dia desses, fiquei uns dias sem ver o objeto da minha paixão, e quando revi, fomos assistir a um filme, e claro, não entendi lhufas, não conseguia prestar atenção... O homem ao meu lado tirou meu corpo do sério, tudo era quente em mim, células ofegantes... Encostar um mero dedinho em seu corpo era como encontrar Deus... Paixão, sem tirar nem pôr! A paixão queima por dentro, tem a intensidade da loucura... Vem em ondas... E pressupõe projeção... Olho pra ele e me vejo. Enxergo nele o melhor em mim... E também o pior... Paixão pode virar amor... Como essa tá durando, melhor aguardar as cenas dos próximos capítulos...

Como resumo da ópera, posso dizer que Eros voltou mas de um modo diferente. Até meus 30 e poucos anos eu vivia em estado de erotização quase permanente com a vida, as idéias, as pessoas... E seguia movida à paixão num pique de energia invejável! Hoje minha libido tem se movimentado de outros modos, percorrendo mares nunca d'antes navegados! Confesso que tem sido estranho... É a metanóia da vida ou a crise da meia idade, meus caros! Não dá pra seguir a vida pautada nos princípios anteriores, a vida pede atualização! Nas cenas dos próximos capítulos...

Recomendo a leitura do livro Amor e Psiquê”, de Erich Neumann (Cultrix), um livrinho pequeno e bom de ler, onde o autor nos convida a enxergar os princípios de Eros e de Psique dentro de nós!

Namastê
Anasha agosto 2011

14.8.11

Pai

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Ando pensando no meu pai há dias. Como hoje é dia dos pais, achei que devia escrever... Pai. Tenho poucas lembranças do meu, um cara que não fica muito no mesmo lugar, nem dentro de casa... Um quieto inquieto, um calmo nervoso, contido. Um cara aparentemente desligado de tudo, pouco afetivo e ao mesmo tempo amoroso e super ligado. Idiossincrático o meu pai. Pelo menos do meu ponto de vista. Certamente cada uma das minhas três irmãs tem outro olhar sobre ele...

Vejo fotos de nós dois juntos e me sinto nelas... Lembro do seu cólo fofinho, o lugar do mundo onde eu me sentia mais acolhida, querida e protegida! Lembro que eu corria pra cama dos meus pais e rapidamente enrolava os dedinhos nos cabelos lisos dele, e assim ficava, brincando com os fios tão escorregadios... Ás vezes dormia assim, e se meu pai tivesse que sair da cama, minha mãe ficava em seu lugar, e colocava meus dedinhos em seus cabelos... E eu sempre acordava porque não eram aqueles cabelos que meus dedos queriam sentir... Hoje sigo enrolando meus dedos nos meus cabelos, igualmente escorregadios e geladinhos... Será que faço isso quando sinto saudade dele? Vou reparar.

Penso nos pais em geral, nos pais do mundo, no pai do meu pai, no pai do meu filho... E no poder das mães de fazer de um homem pai...  As superprotetoras ou as dominadoras muitas vezes não deixam espaço pro pai se assumir... Deixam uma tensão no ar como se o cara não fosse suficientemente preparado para ser pai e pra cuidar de uma criança. O clima de insegurança vai afastando o pai do filho(a)...  Ou pior, o elo entre eles passa a ser mediado pela mãe dominadora, que se sente a pessoa mais importante do mundo, tendo o domínio afetivo das relações familiares... Ilusão de poder!

Sábia é a mulher que, sabendo da insegurança natural do homem pra cuidar de uma criança, lhe mostra que ele é capaz e abre caminhos... Lembro do meu filho pequeno, e das vezes em que eu, estrategicamente, dava um jeito de ficar longe deles uns dois dias, deixando toda a responsabilidade sobre o pai, que aceitava, mesmo inseguro. Quando eu voltava, a insegurança havia sido substituída por pura alegria, felicidade... Minha ausência era providencial, e dava espaço para que os laços entre eles se fizessem a seu modo... E eu me sentia mais segura, menos pressionada. Saber que eu não era insubstituível era bom, libertador até.

Ainda não liguei pro meu pai hoje, tô chateada com ele, como eu ficava quando era adolescente, que me doía o peito e toda a minha relação com o mundo se abalava. Engraçado reviver esse sentimento depois de tantos anos... Fico aqui olhando pra isso pra ver no que vai dar... Quando tinha crises com a minha mãe eu me desmontava e depois me reconstruía, e sempre encontrava algo novo em minha mulherzisse. A crise com a mãe me ampliava porque me fazia rever comportamentos, separar o que era ela e o que era eu... Com o pai a crise vai além de mim e alcança o meu lugar nesse mundo, minha função nele... Ô mundão!


ô pai, que vontade de correr pro seu cólo e me emarranhar em seus cabelos... E fazer deles cipó, como Tarzan, pra pegar impulso e me lançar de uma vez por todas nesse novo mundo...


Um beijo, pai.

28.7.11

ALEATORISMO

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foto aleatoriamente sugerida por jhcordeiro.


Desapego mesmo é permitir o “aleatorismo” (termo inventado por um amigo, já que não existe no dicionário). Tipo sair de casa sem saber pra onde, deixar-se levar. Permitir o inusitado. Qualquer hora você vai lembrar-se de um lugar legal, vai ver uma placa sei lá, no máximo, volta pra casa. É o aleatorismo, quase primo da Lei das Probabilidades, da Física Quântica, onde tudo pode acontecer. Será parente também da Sincronicidade?


Imagina passar meses montando uma playlist pra festa super dançante, você estuda minuciosamente as melhores transições, que música dá melhor seqüência pra outra, escuta mil vezes, faz mudanças cotidianamente, até que um belo dia considera que alcançou a melhor composição, ufa! Chegando à festa, você resolve deixar o CD tocar no modo aleatório ou randômico. Quer desapego maior? Certamente, depois da primeira música, você vai querer controlar a coisa, principalmente se a pista esvaziar, mas se conseguir permitir... Ilumina!

Tô falando aqui de momentos onde desapego é sabedoria. Mas sem essa bandeira ao desapego exagerado! Hoje em dia o apego é o grande vilão, no entanto, no dicionário, é sentimento de afeição, de simpatia por alguém ou alguma coisa, e tem como sinônimos, afeto, amizade, amor, benevolência, fraternidade, simpatia, ternura... Então cuidado ao destruir seus apegos, afinal a vida se faz de vínculos, de apegos, de Eros... Sou apegada aos meus afetos, amores, amigos, à minha casa, às minhas coisas... Se eu as perder, suportar a perda não será exercício de desapego (ou desinteresse, falta de amor) e sim de maturidade, já que desde sempre soubemos que tudo um dia vai morrer, vai findar... Nunca fomos enganados a esse respeito.

Já no aleatorismo o desapego é ingrediente vital, já que pressupõe o desinteresse em controlar, em acertar, em garantir qualquer coisa. O lance é permitir que a melhor escolha nos escolha. Confesso: eu vivi a saga da playlist citada acima! E, com um agravante: eu tinha um parceiro, que também havia gravado a sua, e ambas deveriam se harmonizar em uma hora de discotecagem! Definimos previamente que a dele tocaria primeiro.  No entanto, na hora H, cogitamos o aleatorismo, movidos pela ansiedade de que as músicas não agradassem, claro! Bom, eu sim, ele não sei, já que é anarco-budista assumido e nunca dá pra saber muito bem o que se passa com ele...

Graçasaosdeuses, não optamos nem pela ordem estabelecida e muito menos pelo randômico. Fomos mexendo tudo, ali, ao vivo, jogando as músicas, curtindo-as e dançando simultaneamente... E sem perceber, fomos Djs e, ao mesmo tempo, convidados, já que a parceria nos permitia também dançar as nossas músicas - Djs interativos! Ao final, meu parceiro pareceu feliz. Pra ele, a nossa escolha também foi fruto do aleatorismo. Talvez tenha razão. E viva o anarco-budismo!

E viva festa, o ambiente mais aleatório que conheço, onde, tudo pode acontecer, e acontece mesmo! ( Babados só revelo sob tortura!) Onde o ser brincante, gaiato e alegre que nos habita, mostra as caras e nos diverte, merecidamente numa epifania coletiva!  E viva o Adriano, em seus 40 anos de vida, que pretendeu fazer uma festa que, ao final, virou rave! Olha o aleatorismo aí de novo! E viva a Amy que deve tá fazendo festa no céu, ou no inferno, ou em outro lugar aleatório do espaço! 

Saiba mais sobre anarco-budismo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anarquismo_budista

Namastê

Anasha
Bsb julho 2011  


















desarvorar (de-sar-vo-rar)

v.t.Náutica Tirar os mastros a 
(uma embarcação).
v.i.Fugir atropeladamente; safar-se.
v. pr.Desnortear-se,
ficar desorientado.
Inquietar-se; exaltar-se; 
espavorir-se.



Sou uma desarvorada, sem dúvidas. 
Tem a ver com desejo? Sempre.
Com ciclo mensal? Certamente.
Me desoriento, me inquieto, perco o mastro e sigo à deriva...


É o momento em que não tolero mais alguém, alguma coisa ou alguma situação. E o basta vem mais forte que um furacão, basta! Sem vista grossa, sem cumplicidade... Ao mesmo tempo, gosto de ver a minha força se colocando dessa forma, impondo limites duramente porque foi necessário. Quantas vezes me calei pra não causar confusão? E fiquei ruminando aquilo, me enchendo de um troço que nem era meu...


Nessa intolerância, o corpo fala mais rápido que a mente, que é o que mais adoro! Brota uma sinceridade ontológica e celular! Dá medo porque não dá pra controlar, e esse é também o grande barato. Vem como uma possessão, que se for dirigida pro alvo certo, vira benção, cura. Se compulsão, vira violência gratuita, doença. Uma linha extremamente tênue as separa. 

As grandes peias de “desarvoramento” que levei da vida foram sempre cíclicas. Num primeiro momento, vitimizada, sou jogada na rua da amargura, do abandono. Pra sair dessa lama, só uma energia muito forte. Então sou reerguida pela raiva, pela incompreensão que brota de um profundo sentimento de injustiça que alcança Deus, a divindade dentro e fora de mim. Minha fé é abalada. Sem fé, sou empurrada pro livre arbítrio, e assumo as consequências dos meus atos, ui! Fardo solitário e pesado esse de assumir o próprio destino!  Deus então se faz necessário, já que acreditar suaviza, humaniza... Peço colo pra Deus e me reconecto. Mas se eu ficar muito tempo sentada aqui, capaz de não levantar nunca mais, fui! E perco a conexão sendo novamente lançada ladeira abaixooooooooo. Desarvoramento existencial!

O desarvorar feminino é assim, meio bipolar, quica entre dois pólos e nunca consegue perceber que há um “entre”... É intenso, quente... O corpo quer contato mas, sem tato, acaba trombando nos outros corpos, sendo frio e metálico... Quando na verdade queria tocar, sentir, sentir-se, permitir... Caçamos algo pra nos dar limite, pra comprimir tamanho descontrole, pra abraçar nos delimitando... E queremos briga sim, mas essa visceral, essa que vejo nos meus sobrinhos e no meu filho quando se atracam no chão, “brincando” de lutinha! Não entendia isso. Se machucam, choram, mas continuam ali no chão, rolando e se batendo. Hoje invejo isso.

Se nos fosse estimulado na infância esse “atracamento”, quem sabe  fossemos menos desarvoradas... Também precisamos dessa mistura de adrenalina, com afeto e contato, poxa! O futebol tem isso também... Essa integridade corporal no homem eu invejo. Acho todos os homens mais encarnados em seus corpos do que nós mulheres. Podem ser o que forem, mas moram em seus corpos... Nós podemos até morar um tempo, mas qualquer furacãozinho nos tira dele. E lá vamos nós buscar a cabeça rolante pra juntar num corpo, que, muitas vezes, nem reconhecemos como nosso...

Enfim, nos momentos de desarvoramento, a insatisfação é tempero garantido. Seja como doença, quando entro na eterna e repetitiva queixa ao outro, para que me restitua aquilo que me faltou. Ou então como provocação, na exigência de uma satisfação além do limite comum, que não se contenta com a demonstração de afeto do homem. E peço ainda mais, mais além das evidências. Por outro lado, se não fosse esses eventuais ataques de insatisfação, talvez ainda estivéssemos morando em cavernas. Tem algo de visionário na insatisfação feminina, vai.

Dias depois de toda essa crise, menstruei! Era mesmo TPM, da braba! Desarvoramento mensal!


"Não entendo, apenas sinto. 
Tenho medo de um dia entender e deixar de sentir." 
Clarice Lispector

Anasha
Maio 2011

Recebi muitos emails solidários de mulheres, algumas emocionadas e identificadas com a camelisse em si e outras indignadas, solicitando que eu matasse de uma vez essa tal “mulher-camêlo” – metáfora da mulher carente que me habita, entre tantas outras. Mas a coisa não é tão simples assim.

Em primeiro lugar, segundo minha filosofia, baseada no pensamento junguiano, tudo o que aparece na nossa vida tem lá sua importância e um sentido, muitas vezes oculto, que tem algo a ensinar. Segundo, a camelinha faz parte de mim, me constitui e se ela deu as caras, é porque tá precisando de atenção, de cólo e principalmente, de espaço pra se expressar positivamente. Afinal, só há sombra porque há luz.

Por traz de sua extrema carência, chatisse, controle etc e tal, a mulher-camelo guarda uma luz forte, quente e revigorante. E também uma enorme capacidade de entregar-se e de amar, com integridade e profundidade, de modo livre e, ao mesmo tempo, aconchegante. E certamente, seu avesso de luz não habita o deserto e sim a terra fértil, abundante, colorida e auto-suficiente do seu próprio corpo-mundo. Nesse universo, um outro entra, não pra tapar buracos ou complementar nada, e sim pra curtir junto, simplesmente.

De modos variados, venho entrando em contato com muitas dessas gentes que me habitam. Sombrias ou iluminadas, essa gente faz parte de mim, seja porque já as trouxe comigo, seja porque as assimilei durante a jornada. Assim, sigo brincando com a teoria junguiana, inventando novos modos de jogar com as técnicas, criando novas, que favoreçam a expressão dessa galera interna. E assim, a assassina sanguinária incorpora também sua fragilidade e medo profundo e chora feito criança; a medrosa, cagona quase paralizada desnuda sua força e coragem; a mal-humorada, raivosa e bélica encontra espaço para pedir cólo, carinho, contato, desmontando a couraça, e se permitindo mostrar sua dor. E assim, sigo liberando as vadias em marcha, dentro de mim!

Semana passada, vi um montão dessas gentes, saídas de outras mulheres. Finalmente libertas, mostraram sua escuridão e, na sequência, tanta luz e beleza que nos deixaram surpresas. Então, recebam com carinho o obscuro que lhes habita, que com certeza, só vai brotar coisa bonita!

“A abundância é escavada da abundância,
e ainda assim a abundância subsiste”
Upanishads

Namastê

Anasha
junho/2011

“O amor romântico é o maior sistema energético dentro da psique ocidental”. Com esta frase impactante Robert Johnson começa seu livro WE, onde discute o relacionamento amoroso a partir do mito de Tristão e Isolda. O autor aponta o amor romântico como um fenômeno de massa peculiar ao Ocidente. Até aí tudo bem, o problema é que acostumados a conviver com as crenças e suposições do amor romântico, acabamos por considerá-lo como a única forma possível de amor.

Para Jung quando um fenômeno psicológico marcante acontece na vida de uma pessoa, traz junto um tremendo potencial energético que amplia a consciência. Assim também ocorre coletivamente quando uma nova possibilidade, idéia, crença surge trazendo uma nova maneira de encarar o universo. O amor romântico está em crise e sendo colocado em cheque dia a dia, o que abre brechas históricas pra algo novo, ou talvez extremamente antigo e orgânico e do qual nos perdemos.

Concordo com o autor ao afirmar que se homens e mulheres compreenderem os mecanismos psicológicos que atuam por traz do amor romântico, poderá emergir uma nova consciência e relacionamentos muito mais saudáveis. Mas pra saltar pro futuro é preciso escarafunchar bem o presente. Afinal, quais são os mecanismos ocultos do amor romântico? Regina Navarro, psicóloga aponta especialmente 6 máximas que povoam esse universo:
• Só é possível amar uma pessoa de cada vez;
• Quem ama não sente tesão por mais ninguém;
• O amado é a única fonte de interesse do outro;
• Quem ama sente desejo sexual pela mesma pessoa a vida inteira;
• Qualquer atividade só tem graça se a pessoa amada estiver presente;
• Todos devem encontrar um dia a pessoa certa.

Para a autora, o amor romântico faz parte do pacote do patriarcado, pressupõe a projeção de nossas fraquezas no outro, além de simbiose e dependência. Inicialmente lemos a lista acima e achamos que não temos nada a ver com isso. E ainda, claro, lembramos imediatamente de vários casais tipicamente românticos e de suas neuroses e feridas expostas. Mas ao investigar mais profundamente vai dando um mal estar... Por mais modernos que sejamos, por mais sinceros e liberais, em maior ou menor grau, ainda agimos em consonância ou em rebeldia ao amor romântico.

Vivemos um momento de desintegração das estruturas rígidas do relacionamento tradicional, embora, saibamos, há pessoas ainda pautadas em relações machistas, onde cabe à mulher submeter-se às vontades masculinas, anulando sua existência como sujeitos autônomos, independentes e com desejos próprios. A grande maioria das mulheres que atendemos no Programa Roda de Mulheres vive sob esses preceitos. Mesmo quando a mulher é a provedora, ainda assim a estrutura permanece intacta, já que a mulher, sem autonomia psíquica, segue projetando no homem seu poder. Urge ajudá-las a ampliarem suas visões e especialmente, suas afetividades (incluindo outras gentes) e sexualidades (incluindo outras fontes de prazer).

Mas quero falar de uma parcela da sociedade que realmente está vivenciando e questionando conscientemente a mudança, grupo no qual me incluo. Vivemos um momento de extrema fragilidade. A quebra do padrão clássico e tudo que vinha no kit abriu novos caminhos de liberdade, o que é maravilhoso mas causa ansiedade já que não há mais certezas nem amarras. Em verdade, tínhamos uma ilusão de segurança. Hoje estamos todos tendo que aprender a lidar com nossos amores de forma mais leve e livre... Ao mesmo tempo, em contraponto à rigidez anterior, hoje os relacionamentos são como comida instantânea, fast food, muita variedade, não gostou trocou. Tudo muito rápido e pautado na busca pelo prazer imediato. Nesses tempos de fast love vejo uma rebeldia ao estado anterior, compulsiva mas necessária. Para alcançar o caminho do meio, mais saudável e maduro, talvez tenhamos que sentir na pele os dois lados da moeda, pra adquirir distanciamento crítico e um maior discernimento.

Nesse percurso será impossível não rever nosso conceito de liberdade. O que é ser livre pra mim? Como exerço minha liberdade? E ainda encarar a freqüente confusão entre liberdade e libertinagem. Libertinagem como o uso da liberdade sem bom senso, acabando por transformá-la em um veículo nocivo a si próprio ou aos outros. A dificuldade aí está no fato de que ambos os conceitos são construções pessoais. Para alguns, decidir passar cada noite com uma pessoa diferente é uma característica da liberdade, para outras é libertinagem. Neste sentido, diferente do modelo anterior onde esse e tantos outros assuntos vitais numa relação eram tabus, necessitamos tratar disso com os(as) parceiros(as) deixando claros os nossos limites e conhecendo os limites do outro.

Outro conceito em cheque é o da fidelidade. Fidelidade a quem? Se é impossível ser fiel ao outro sendo infiel a si mesmo, devemos fidelidade aos nossos sentimentos, basicamente. Em seu livro “A Alma Imoral”, o pastor Nilton Bonder trata desse tema com maestria, recomendo. Enfim, historicamente, nunca fomos tão livres para escolher. Mas sempre vale pesquisar o grau de liberdade dessa escolha já que, muitas vezes, estamos cega, inconsciente e compulsivamente repetindo padrões familiares que conscientemente abominamos.

Como geração da transição, sobrou pra nós e pros nossos filhos a oportunidade de reelaborar uma forma particular de relacionamento, uma nova ética do amor. Venho construindo a minha sobre a qual tenho uma única certeza: sua base é o slow love no agora. Tudo bem devagarinho, vivido no aqui e agora e sem expectativas. Bom, criar a cartilha é fácil, difícil é pôr em prática. Sigo tentando.

“Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho,
mais preparado estará para uma boa relação afetiva”. 
Flávio Gikovate

Namastê