Não por acaso acabo de receber um vídeo maravilhoso. Discurso da escritora nigeriana Chimamanda Adichie advertindo sobre o perigo de considerarmos apenas uma história dentre as inúmeras que podem ser contadas sobre uma pessoa, um lugar.
http://www.ted.com/talks/lang/por_br/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html
Fui. Saltar!
Anasha

Tô com pneumonia. Nunca tive e como pra tudo tem uma primeira vez, taí. E claro, fui escarafunchar seus significados psicossomáticos, mas graçasaosdeuses, logo desisti.
Falar nisso, o resultado do último Big Brother é um sintoma de uma doença nacional. Não acompanhei este, mas me lembro daquele onde o Dourado participou pela primeira vez. O homem é um poço de intolerância e preconceito, e isso reflete o Brasil.
Mas voltemos ao meu umbigo que está igualmente necessitado de atenção e de escarafunchamento. O que sinto? Sinto como se os pneus do meu carro estivessem vazios, é isso! Como se eu fosse um carrão, super potente, colorido (claro), cheio de gasolina e com um mapa de aventuras a seguir. Mas... os pneus não estão aptos. Estão furados, murchos ou carecas! Hum, se estiverem furados foi por acidente, murchos, esquecimento e carecas, negligência? Aff! É só dar uma brecha que a máquina começa a pirar.
Enfim, tô cheia de energia, querendo correr, suar... mas tenho que ficar quietinha, quentinha, evitar o vento (Iansã, nosso vôos terão que ser adiados!), evitar o sereno da noite e consequentente seus luares, estrelas e delírios. Ao mesmo tempo, como também estou com sinusite (essa é amiga antiga!) preciso evitar o sol (que me dá dor de cabeça), as roupas leves que adoro, açaí na tigela que amooooo...
Bom, se tenho que evitar o dia e a noite, resta-me o que? Lugares fechados. Incluindo meu corpo, lugar em mim. E taí, caros leitores, a minha maior dificuldade hoje. Até pra meditar tá difícil. É uma agonia aqui dentro, um comichão, uma quentura que não me deixa quieta.
Escrevo pra ver se a coisa se esclarece, se mostra, sai de mim. Lembram da minha experiência zen em Tambaba? Vivo praticamente o oposto. Me esforço pra aceitar esse momento, e o esforço é sempre uma bobagem. O que impera é mesmo a agonia, agonia, agonia...
Desculpem, mas não resisto:
"agonia - a.go.ni.a
sf (gr agonía) 1 Estado em que o moribundo luta contra a morte. 2 Fase de decadência que prenuncia o fim. 3 Aflição, angústia; estertor, inquietação, sofrimentos morais intensos. 4 Dor severa. 5 Náusea. 6 Desejo veemente de conseguir alguma coisa; ânsia. 7 Toque especial de sino para comunicar aos fiéis o transe de morte de uma pessoa. 8 Reg (Nordeste) Pressa. 9 Reg (Centro e Sul) Amolação, incômodo".
Hum, talvez algo esteja morrendo em mim. Caramba, foram tantas mortes nos últimos anos que, sinceramente, essa me escapa. O que é que está morrendo em mim agora? Já evitei muita morte e também deixei alguns mortos sem enterro, erro que evito repetir. Da-me la muerte que me falta! Ao mesmo tempo o significado 6 também me cabe: desejo veemente de conseguir alguma coisa. É isso! Caramba, o que é que eu quero? Vixi, mas o 8 também é bom: pressa, tenho pressa de viver!!! Valei-me nossa senhora que o 9 também é ótimo: amolação, incômodo. Peraí, mas e se o carro nem tiver pneu? Metaforicamente, o que seriam os meus pneus ou os pneus em mim? Ah, desisto.
Se alguém tiver um insight sobre a agonia desta agoniada, me dêem um toque. Terapia pública, nunca pensei que fosse chegar a esse ponto. Como pra tudo tem uma primeira vez...
Anasha

A vida é sempre crescimento, mas foi a partir de 2001 que algo mais profundo começou a se dar, aqui, “no de dentro”. Foi quando assumi o compromisso de mergulhar criativamente no universo e na psicologia femininas, indo atrás do que me faltava. Desde então, iniciei uma jornada interior e exterior recheada de descobertas e desafios que têm me auxiliado a reencontrar meu habitat natural dentro desse corpo-fêmea e nesse planeta-mundo.
Houve muitos desabamentos, alguns tranqüilos, outros desastrosos como a decepção profunda com uma grande amiga - que senti como um “roubo”. Depois a separação de um casamento, que considerei “maldosa” e nada saudável. E de novo senti-me roubada, dessa vez de uma maturidade que achei que tivéssemos. Era uma “maldade” que achei, só acontecia na novela das 8. Jamais comigo. Saí de uma ingenuidade infantil. Me senti pequena, indefesa, frágil, abandonada, feia, pouca.
Fiquei “pouca” por um bom tempo, uma boneca de pano sem enchimento, desmilinguida. A sensação era a de uma “terra devastada” como quando Deméter, enfurecida, decidiu não mais prover alimento aos homens e nada mais nascia sobre a face da terra. E eu, que até então, espalhava otimismo e fé, perdi ambos e entrei numa crise existencial sem precedentes. Nesses momentos não há o que fazer e a vida corre por si só. A nós resta, humildemente, esperar. Pra alguém acelerada e ativa como eu, foi como o purgatório cristão, nem lá nem cá, entre, no vazio, no nada. E tive que aprender a aguardar já que os acontecimentos não dependiam mais de mim. Em verdade, nunca dependeram. E mais uma ilusão caia por terra.
Eros havia definitivamente me abandonado. E tive brigas intensas com Deus, numa tragédia pós-moderna que denominei “Deus.com” e que era mais ou menos assim: “Deus? Você tá aí? Ó Pai, porque me abandonaste? Me sentia aconchegada por tuas mãos, agora me sinto só. O Tempo me esmaga. Sou uma minhoca virando paçoca!!!! Acode Deus! Me coloca no teu colo de novo! Há um peso enorme sobre mim: atos, conseqüências, culpa, julgamentos ... É o teu olhar, Pai! Minhas costas doem, há um buraco nelas. É o vazio deixado pelas tuas mãos. Não me reconheço nessa que sofre a vida de forma tão brutal e tosca. A vida tá sem graça. Perdi minha graça. Maria cheia de graça... O Senhor é convosco?”
Assim que tamanha crise (já depressiva além de existencial) deu uma brecha, veio à tona a saudável mania de enxergar sempre o lado bom de tudo. E vi os acontecimentos “maldosos” como mensagem e alerta pra muitas de minhas fraquezas, inclusive a de não valorizar o que faço e o que sou, minando minha auto-estima, sempre mendigando a aprovação do outro. Uma grande amiga me disse: “Você precisava ser roubada para valorizar o que tem”.
Tempos depois, minha humanidade pôs-se a saltar aos olhos, gritando por espaço e descobri essa mesma "maldade" em mim. Saí do papel de vítima e finalmente, iniciei a jornada por inteiro. E pedi desculpas à Deus, que não tinha nada a ver com o pato. É uma maldade meio inconsciente, outras vezes consciente, mas difícil de frear. Uma força da qual somos tomados quando passamos por cima de tudo e de todos enfeitiçados por uma miragem, que cresce e nos leva como marionetes. Possuídos por uma certeza mórbida, seguimos jogando lixo nas ruas, desperdiçando água, magoando as pessoas... Ah, afinal, somos protegidos dos deuses e o futuro está longe. Essa coisa sempre me confunde quanto tento distinguir a intuição (sabedoria interna) do desejo (do ego). Hoje sei que a intuição não deixa dúvidas e aprendi que só consigo captá-la quando estou verdadeiramente em mim. De todo modo, perceber minha maldade tornou-me muito mais amorosa e tolerante. E agradeço profundamente aos mestres mensageiros dessa mensagem.
Quantas vezes meu observador interno sacou essa maldade, segundos antes dela ser destilada? Quantas vezes tentei segurar a boca pra não dizer coisas que não me diziam respeito? Ou comentários impróprios e venenosos, mas que davam destaque à minha perspicácia e inteligência? Quantas vezes agi cegamente, certa de que estava guiada por Deus (Self)? No fundo era um farsante se passando por ele, o Ego! Quantas mágoas causei em gentes ao mesmo tempo em que aumentava o balde de decepção para comigo mesma? Essa maldade age como uma ferida que cresce a cada novo comentário, e também como um jogo de bate e volta onde lanço a merda e ela me volta na cara.
Talvez isso que tento escarafunchar aqui não seja maldade, mas um vício social relacionado à uma fixação no outro e um desligamento de si mesmo. È um modo compulsivo de agir que nos faz puxar conversa quando não temos o que dizer ou para evitar o silêncio (porque tememos tanto o silêncio?). Nos faz agir e falar alimentando rivalidades, competições, para nos sentirmos superiores e muito inteligentes, enfim, pra alimentar o faminto ego - esse bichinho carente e inseguro que se alimenta de ilusões. A vida alheia torna-se doentiamente interessante. A mídia tem grande responsabilidade nisso, mas a maior culpada é mesmo nossa educação parcial, que enfatiza o desenvolvimento físico e mental, mas jamais trata das coisas da alma - a única capaz de realmente nos enraizar em nós mesmos e fazer brotar o sentimento de compaixão (“sentir junto”).
Outra percepção ou mito que faz sentido agora: durante bons anos vivi sob a égide de uma máscara bem específica que me revestia de poder e superioridade me afastando dos sentimentos (tantos os de dor quanto os de prazer), do corpo, das pessoas (e de mim, claro). E que certamente criou as brechas necessárias para tantos “roubos e maldades”. Passei a viver num cenário muito bonito, organizado, colorido, mas fake. E onde as outras pessoas não tinham realmente importância, e sim o mundo imaginado: um simulacro da minha vida real e verdadeira, que estava sendo vivída, sem mim, numa outra dimensão. De novo a cebola como metáfora das várias realidades e graus de consciência.
O fato é que essa máscara extremamente parcial (como toda máscara) era a porta principal do meu ego: escondendo minha humanidade medrosa e maldosa mas também corajosa e amorosa. Está máscara vem se desmanchando deixando-me vulnerável e à mercê de incertezas, perigos, armadilhas, dores, tristezas, mentiras e também alegrias, amores, sensações... como todo mundo. E me sinto finalmente encarnada!
Outra recente percepção é a minha dificuldade em escutar o outro. É doloroso dizer isso, mas é a dificuldade real de dar atenção e importância verdadeiras. Percebi como minha mente se dispersa facilmente e mesmo antes do fim da fala do outro, já faz uma leitura dinâmica de tudo, numa pressa e arrogância absurdas. Agradeço por mais essa percepção e busco educar-me, amorosamente. E acho que essa dificuldade tem a ver com a rapidez com que minha mente age. Rapidez, antes motivo de orgulho, mas que alimenta a tal “maldade” porque chega primeiro, bem na frente do amor.
Penso nas minhas dores musculares constantes. Sempre achei que corpo e mente estavam em dissonância em mim. E talvez seja verdade: o corpo tem um tempo totalmente diferente da supersônica mente racional. Lembro das vezes em que briguei com esse corpo “lerdo”, impondo-lhe exercícios de força, rapidez, beleza, ousadia... Ao mesmo tempo, foi justamente esse corpo “carente”, chamando atenção o tempo todo, que me ligou à matéria. Justamente quando estive “presa na carne”, encontrei Deus em mim. Só mesmo a filosofia oriental pra dar conta dessa aparente incoerência.
Este ano, a vida me conduziu até Tambaba, onde senti a brisa do mar, o calor do Sol, arrepiei-me, excitei-me, toquei, vivi, de corpo e alma. E meditei. A mente tirou férias por muitas horas e senti a brisa também dentro de mim. E ganhei presentes. E conheci mestres. Sempre cruzamos muitos deles. Lembro quando sentei à mesa do bar buscando coragem para manter-me nua na frente de tantas pessoas. Um cara pediu pra sentar, batemos um papo gostoso, e quando dei conta, havia esquecido que estava nua, e o melhor: esqueci de interpretar-me, de mostrar-me melhor. E me senti uma mulher interessante e capaz de conversar amigavelmente com um homem. (Juro que eu precisava muito disso!). Enfim, após a narração dos meus planos de férias, meu amigo ocasional me diz: “Não gaste as novidades todas de uma vez! Vá saboreando uma a uma”. Essa máxima passou a me guiar porque guarda um segredo profundo: o antídoto contra a rapidez alienante que “Eu“ me imponho. Agradeço profundamente ao mestre.
Um cara que vende roupas e que criou o “cartão de crédito humanizado” também mostrou-se mestre. Seu cliente, sem grana, leva a mercadoria e pode pagá-lo, sem juros, quando puder, bastando enviar-lhe uma carta postal com o dinheiro dentro. Tive a oportunidade de ler uma das cartas e me emocionei. E saibam: Ele nunca tomou cano! Me fez lembrar o projeto das mini-bibliotecas nos pontos de ônibus aqui em Brasília: basta pegar o livro e levar. O índice de não devolução é de 2%. São propostas tão livres e estimulantes que mobilizam algo nobre em nós, e demonstram que a liberdade é totalmente viável. Relações livres, amores livres...
Tempos depois descobri que a Espera que me havia sido imposta era justamente uma das bases do feminino que eu buscava. E que o Deus com o qual briguei e que havia me abandonado era, de fundo, meu modo masculinizado de ser. A vida é mesmo mágica! Sigo percebendo muitas coisas e ainda fazendo muita merda. Mas aquele que me julgava (e que era eu mesma) tirou férias deixando brecha pro amor.
Da terra antes devastada já saem brotos, que acompanho atenta. E tenho certeza que tudo aconteceu exatamente como devia. E estou mais certa do que nunca de que, sempre, existirá um lado bom em qualquer tragédia. E de novo, sou grata! Mudar de nome vem como conseqüência da necessidade profunda de tornar reais tantos aprendizados dando-lhes vida: do verbo fez-se carne!
“Anasha” é um compromisso que faço comigo mesma de amar-me melhor e conseqüentemente amar melhor o outro. É um novo som para caracterizar-me lembrando que estou aqui de passagem e que está passagem deve ser amorosa e saudável. Quando me chamam, ainda soa muito estranho, um estranhamento que me eleva, como num suspiro, criando uma pausa na existência. E me pego rindo. O novo sempre guarda o segredo da vida!
Namastê (“eu cumprimento o que é sagrado em você")
Anasha

Passei quinze dias em Tambaba, uma praia naturista na Paraíba. A beleza descomunal do lugar, com suas falésias gigantescas, ocupa o primeiro lugar da lista de motivos que tornaram a viagem inesquecível. A primeira vez que estive numa falésia deu vontade de chorar, rir, gritar, tamanha a sensação de grandeza! Logo em seguida, quando me chamaram a atenção para o que poderia, ou não, haver abaixo dos meus pés, fui tomada pela sensação de perigo. E assim seguiram-se os dias, com Tambaba me mostrando o quanto a vida é maravilhosa e perigosa, ao mesmo tempo.
Adoro o mar, mas quase sempre sinto receio. Dessa vez foi diferente. Seu mar intenso me recebeu de braços abertos e eu me joguei com vontade. Nunca me senti tão entregue! Me lembrei de um verão da infância quando passei férias com os primos no Guarujá. Eles, mais velhos, me encorajaram a ir mais fundo, mais fundo ainda... Fui, apesar do medo, porque me sentia protegida por eles. Foi aí que aprendi a me relacionar com as ondas. Senti essa menina em Tambaba comigo, protegida, indo mais fundo e mais alto, corajosamente.
Passar parte dos 15 dias completamente nua na frente de outras pessoas também ganha destaque. Foi um processo gradual, onde, dia a dia, eu ultrapassava um pouquinho a educação moralista que ainda vivemos e o meu próprio recato, claro. Logo percebi que eu seria a única mulher sozinha ali. As mulheres estão sempre acompanhadas e homens não podem entrar sozinhos (com exceção dos sócios da associação naturista, o que achei muito estranho. Ou pode ou não pode!) Enfim, eu havia sonhado tanto em estar ali que encarei o desafio. Entrava de cabeça erguida e cumprimentava todo mundo tranquilamente.
Tambaba, como toda a nossa sociedade, é como uma cebola com várias camadas e níveis de realidade e consciência: a dos freqüentadores acidentais, a dos curiosos moralistas, a dos punheteiros escondidos na mata, a dos naturistas de verdade, a dos casais buscando sacanagem, a de quem vive do turismo ali... Cada um sintoniza no canal que achar melhor. Livre arbítrio na veia!
No início algumas situações me deram medo e tive vontade de recuar. Logo percebi que uma mulher sozinha estaria sujeita à isso em qualquer praia normal. E que estar sozinha é sempre um desafio. O lado bom (sigo acreditando que sempre há um lado bom em todas as experiências) foi que não fugi do “perigo”. Fiz questão de exercer o meu direito de estar ali nua e simplesmente recusei educadamente os convites que recebi. E me descobri mulher, de verdade.
Risquei um item da minha lista de “coisas que gostaria de fazer antes de morrer”: perder meus “calos“ - gíria naturista para as marcas de biquíni e sunga. Inenarrável o que senti quando me vi inteiramente morena. Mas foi só quando cheguei em casa que percebi porque uma coisa tão boba me era tão importante: Minha menina está feliz por ter a mesma cor de pele do papai! A família do meu pai é morena, de descendência indígena, e eu sou branquela. Finalmente sou índia! (por mais alguns dias, pelo menos).
Quase risquei da lista também o item “ficar sobre uma prancha e surfar pelo menos um minuto”. Juro que quase aprendi, quase mesmo e com um professor extremamente estimulante: Bilú, um cara incrível de 55 anos, que tem problemas numa perna e é cego de um olho. Apesar das limitações, ele surfa todo santo dia como um ritual. ”É pra manter o menino acordado!”, ele dizia. Porém, além da habilidade física necessária eu teria que surfar nua. Aí o bicho pegou. Simplesmente não pude.
Já fui minha própria tirana, me obrigando, cega e compulsivamente, a transpor limites, qualquer um. No fundo, era o desejo de ir além, de ampliar-me, de liberdade, que sigo sentindo. No entanto, antes a coisa acontecia de um jeito tosco e grosseiro para comigo mesma. É claro que me torturei um pouquinho tentando achar um motivo para “aquela covardia”, iniciando assim um julgamento severo: "Foi recato, moralismo! Vergonha! Medo de machucar o corpo! Medo do ridículo! Covardia mesmo!" Até que mudei de canal, ufa! E reencontrei "o conteúdo da minha concha", que é o significado de Tambaba. Quando soube, pus-me a divagar sobre seus/meus possíveis conteúdos, as pérolas... Mas Bilú disse logo: “Não é nada disso. Pros índios, a concha é a piriquita da mulher”. Vixi Maria, mais uma camada da cebola pra descascar!
Com o passar dos dias, já conhecia todos os personagens do lugar: o dono do único bar-pousada que há beira mar, dentro da área naturista (mas que não é naturista nem seus funcionários que ficam vestidos. Outra camada da cebola!), os funcionários da associação (que abordavam as pessoas que entravam de roupa solicitando sua retirada), a única vendedora ambulante da praia, que usava apenas um avental, e outras figuras moradoras daquela região. Esses tantos, fui conhecendo aos poucos, através das narrações daquela que se tornaria minha amiga e madrinha, mas que inicialmente foi minha "guia espiriturística". Fizemos passeios incríveis sempre recheados de boa prosa.
Rosana é dessas nordestinas arretadas, com sotaque carregado, intenso, dramático e contagiante. E ótima contadora de histórias. A descrição das pessoas e acontecimentos, muito minuciosa, trazia à tona pequenas manias e detalhes, me fazendo viajar, como quando lemos um bom livro. Tive a honra de conhecer alguns dos personagens e foi delicioso. Gente é tudo de bom!
Essa é uma grande vantagem de se viajar sozinha: faz-se muitos amigos. Uma companhia pode gerar segurança, acomodação e menos disponibilidade. Ao mesmo tempo, descobri um tempo só meu. E dispunha dele de um jeito muito próprio. Houve uma noite em que passei 3 horas contemplando o céu. Se eu tivesse companhia talvez fosse diferente porque um outro pressupõe acordos, combinados... Num outro dia, decidi "tirar férias das férias" e passei o dia fazendo Nada - que Tudo era.
Na Paraíba, ouvi menos a minha voz. Andava muito sozinha observando as árvores, os bichos, as pessoas e ouvindo os sons da Natureza, que eram também os meus. Senti a Paz e a Beleza, fora e dentro de mim e me senti maior, ou melhor, com mais espaço interno. Minhas audição e visão cresceram.
Quando cheguei à Brasília e entrei no meu apartamento, senti um aperto no peito. Sentei no sofá e pus-me a olhar para a janela, como quem olha de dentro de uma prisão, nostálgica e sôfrega. Graçasaosdeuses, mudei de canal! E logo reparei na folhagem de um enorme fícus que fica em frente à minha janela, o vento batendo suave, as folhas se movendo como se dançassem... Pude ouvir pássaros cantarolando, contemplei o azul lindo do céu... Ai, ai. É preciso saber perceber a Beleza em qualquer lugar!
Anasha (Mudei de nome! Batizei-me em Tambaba, mas essa é uma outra história...)
Fui na palestra de um cara que dizem ser “Iluminado”. Calma, o cara não engoliu uma lâmpada e peida luz, e muito menos é santo. Me pareceu simplesmente ser um cara que sacou que a gente não veio aqui pra sacar nada, e sim pra ser. Mas essa foi apenas uma das minhas leituras, ou melhor, da minha mente ou ego – no meu caso eggs, já que o meu é chique demais e vale por dois!
Piadas à parte, eu gostei muito. Tenho grande simpatia pelo povo do Osho - por esse jeito bem humorado e sacana de falar da espiritualidade, como sendo algo simples e que rola aqui e agora, já. Sei que há e sempre houveram controvérsias, especialmente em relação a questão do dinheiro, dos carrões e mansões do Osho, que deixaram os raladores da terra do tio Sam e de tantos outros países, de cabelo em pé. Muita dicotomia pra cabeça da galera!
Enfim, o lance é tirar o ego de campo nas horas que ele não tem que estar lá. Então quem joga em seu lugar? Ahá, aí é que tá, só indo lá ouvir o cara. Gostei muito do SatyaPrem, nome do figura, um cara igualzinho a todo mundo, de brinquinho na orelha, corte de cabelo de funcionário público, camisa social com os botões de cima despojadamente abertos... Um gato! Juro que não ia comentar, mas não resisti.
Enfim, nas duas horas de palestra, SatyaPrem mostrou-se um exímio “adestrador de egos”. A cada pergunta “cerebral” da platéia, uma resposta que desconcertava e desfazia todo o raciocínio visivelmente estruturado após ferrenho e cansativo embate interno. Lembram do Tom Zé, com o seu “tô te explicando pra te confundir...”? Era isso. Bom demais, porque em verdade não tem nada o que entender mesmo nem o que se buscar, tá tudo aí.
Mas devo confessar que apesar da identificação com a proposta (tá, eu sei que eu sou facinha facinha pra essas coisas!), de achar graça de tudo, principalmente da simplicidade da vida, meu eggs ficou bem quietinho e morrendo de medo. Tenho certeza absoluta que se tivesse aberto essa santa boquinha, ia levar uma chulapada daquelas –e teria meu eggs frito! Imagine meu lindo inteligente, perspicaz, dinâmico, criativo, eficiente eggs amarrado num mastro, e o SatyaPrem ao redor, lançando chibatadas sobre minha auto-importância!? Perdi grandíssima oportunidade!
“Viajar é preciso, viver não é preciso”.
Quem sou eu
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